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Construções antigas

Casas em bairros tradicionais de Vitória resistem a ofertas milionárias

Enquanto construtoras buscam novas áreas para erguer prédios, famílias recusam propostas e mantêm residências erguidas há mais de meio século

Publicado em 11 de Março de 2023 às 08:36

Leticia Orlandi

Publicado em 

11 mar 2023 às 08:36
Bruno Hemerly, Morador da Praia do Canto dono de uma casa antiga, em Vitória
Bruno Hermanny diz que a família nunca pensou em vender a casa na Praia do Canto Crédito: Ricardo Medeiros
Guardando memórias e histórias de famílias, casas antigas em bairros com crescimento imobiliário aquecido resistem a ofertas milionárias de construtoras e permanecem de pé. São edificações com mais de meio século de construção que testemunharam o crescimento de gerações, em um tempo em que não havia asfalto nas ruas e os prédios tinham poucos pavimentos.
Na Praia do Canto, em Vitória, duas casas são exemplos de resistência ao crescimento vertical do bairro. Em uma delas, uma grande árvore frutífera e vitrais mostram o apego ao passado e às memórias construídas ali.
Até a porta de entrada carrega lembranças da família: veio de Belo Horizonte (MG), da casa da mãe de Astrid Hermanny, de 95 anos, que mora na casa desde que casou, há mais de 60 anos.
O engenheiro Bruno Hermanny, de 62 anos, que passou toda a infância na casa, é quem conta a história da residência da família. Sua mãe, Astrid, ainda mora na casa com uma das filhas e conta com a ajuda de cuidadoras, pois tem Alzheimer.
Lá dentro, móveis, objetos e até janelas contam a história da família. Janelas de vidro que separam o interior da casa para o quintal também vieram da antiga residência da mãe de Astrid, assim como vários móveis.
Bruno lembra da infância na Praia do Canto, ainda sem calçamento na rua e com um canal passando na região da Avenida Rio Branco com a Leitão da Silva.
"A gente mora ali desde o início dos anos 1960. Na década de 1970, foi feita uma reforma da casa na parte de trás. Minha mãe sempre teve um apego muito grande pela casa. A casa é a cara da minha mãe e o meu pai nunca quis morar em apartamento"
Bruno Hermanny - Engenheiro
Por conta disso, a família nunca pensou em vender a casa, nem mesmo após a morte do pai da família, há quatro anos. “Há 10 anos começaram a construir um prédio ao lado e tentaram incorporar e mais recentemente outras nos procuraram. Financeiramente é bom negócio, mas não aceitamos e isso ainda não passa pela nossa cabeça”, relata.

Apego ao quintal

Elizabeth Souza, Moradora da Praia do Canto, moradora de uma casa antiga, em Vitória
Elisabeth Souza diz que não pretende sair da casa onde mora, na Praia do Canto Crédito: Ricardo Medeiros
Quem também não abre mão da casa onde nasceu é a aposentada Elisabeth Souza, de 61 anos. A residência, herdada de seus pais, fica ao lado de outra igual, que pertencia aos tios e agora está com os primos. Antes, compartilhavam o mesmo quintal, mas atualmente são divididas por um muro.
As portas, as janelas e os pisos são as mesmas desde a construção da casa. Inclusive um tanque na área de serviço, que lembra aqueles que eram usados décadas atrás.
Elisabeth conta já ter recusado várias ofertas de construtoras que estavam de olho no terreno. O prédio que foi construído ao lado, inclusive, tentou comprar as casas ao lado para aumentar o hall de entrada. 
Os moradores não revelam os valores das propostas recebidas pelas casas onde vivem. Mas, na região da Praia do Canto, por exemplo, com o metro quadrado atualmente custando entre R$ 8 mil e R$ 10 mil, uma casa com terreno em área de 200 metros quadrados já pode receber ofertas em torno dos R$ 2 milhões.  
A resistência à venda fica ainda mais evidente com as mudanças nos arredores da residência. Outras casas antigas já deram lugar a prédios e farmácias. Agora até um centro comercial que fica na frente da casa de Elisabeth será destruído junto com outra moradia para abrigar um novo prédio.
"Minha mãe nunca quis vender. É a única coisa que a gente tem e não tem nada melhor do que um quintal. Fazemos churrasco no quintal, o que acaba chamando a atenção de quem passa pela rua. Gosto de morar aqui e não pretendo sair"
Elisabeth Souza - Aposentada

Mercado busca novas áreas

Com a crescente escassez de terrenos em Vitória, principalmente em bairros mais valorizados e com característica residencial, terrenos amplos acabam sendo requisitados pelas construtoras para novos projetos. Isso ocorreu principalmente nas regiões da Praia do Canto e, mais recentemente, Bento Ferreira, com a possiblidade de construção de prédios altos e ainda com muitos terrenos e casas para serem incorporados. 
A busca por novas áreas acontece tanto pela resistência de casas mais tradicionais dos bairros como também por restrições de legislação, que pode limitar a altura de uma certa construção. Nesse caso, acaba não valendo a pena demolir para construir um edifício, segundo explica o consultor imobiliário Juarez Soares.
"Casas mais tradicionais ainda resistem dentro dos bairros porque muitas vezes pesa um fator emocional e cultural dos proprietários no sentido de querer manter o imóvel para uso próprio ou para outra finalidade. Claro que, com o passar das gerações, o apego pode ir diminuindo, é um processo natural", detalha Soares.
Um exemplo de casa em área com  limitação de construção é a mansão da família Santos Neves, na Avenida Saturnino de Brito, na Praia do Canto, em Vitória. A casa tradicional, que no passado já perdeu parte do terreno gramado para ampliação da avenida, agora foi colocada à venda pela família por R$ 7,5 milhões. O terreno tem 1,2 mil metros quadrados, mas o gabarito máximo permitido pelo PDU para construção na área é de dois pavimentos. 
Soares destacou ainda que, por Vitória ter limitações de área para expansão em função da sua geografia, é preciso buscar novos espaços para absorver a expansão. Esse movimento poderia envolver o poder público junto com iniciativa privada para identificar as áreas e criar novos atrativos para ocupação.
"Bento Ferreira é uma região que poderia abrigar novas áreas de expansão, seguindo pelo canal de Vitória. Exemplo disso é a construção do Una, um dos prédios mais altos de Vitória", lembra.

Busca por verticalização

Na busca pela verticalização da cidade, o vice-presidente jurídico da Associação Empresas do Mercado Imobiliário do Espírito Santo (Ademi-ES), Gilmar Custódio, detalhou que muitas vezes a construtora não consegue desenvolver um projeto comprando apenas uma casa antiga, mas precisa também do espaço ocupado por outra construção ao lado, até mesmo se for um prédio antigo de poucos andares.
"Quando no mercado há procura maior que a oferta, ocorre a fabricação de terrenos. Muitas vezes o terreno da demolição de uma casa não é suficiente para construir um prédio. Então, agrega-se uma casa ao lado ou até um prédio de poucos pavimentos pode estar envolvido no negócio", diz.

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