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Rotina de medo

Censo: atraso no salário e até ameaça de estupro afetam trabalho no ES

Recenseadores relatam dificuldades na coleta de dados em residências, que vão desde ofensas até tentativa de violência sexual por moradores

Publicado em 21 de Setembro de 2022 às 07:52

Jaciele Simoura

Publicado em 

21 set 2022 às 07:52
Pressão de supervisores, atrasos no pagamento, ofensas de moradores, além de casos de assédio sexual e ameaças de estupro. São algumas das várias dificuldades que trabalhadores do Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) vêm enfrentando ao realizar a coleta de dados de casa em casa no Espírito Santo. Eles, que chegam a trabalhar 12 horas por dia, folgando apenas um dia da semana, ameaçam fazer uma paralisação em protesto contra a situação.
Os recenseadores começaram as entrevistas no dia 1 de agosto, após dois anos de atraso. A meta, segundo o IBGE, é visitar cerca de 75 milhões de domicílios em todo o país.
Trabalho dos recenseadores do IBGE
Trabalho dos recenseadores do IBGE Crédito: Camila Farias (SE)/ Agência IBGE
No entanto, o que para muitos trabalhadores seria uma oportunidade de ter uma renda em tempos de dificuldade para conseguir emprego, está virando um terror.
A maior reclamação feita por recenseadores ouvidos por A Gazeta é quanto ao atraso no pagamento pelos serviços prestados. Alguns deles demoram mais de 20 dias para receber e, quando são pagos, dizem que recebem somente a metade do valor devido. Por medo de represália, os recenseadores pediram para não serem identificados.
Censo - atraso no salário e até ameaça de estupro afetam trabalho no ES
Os recenseadores, responsáveis pela aplicação dos questionários do Censo nas residências, são remunerados por produtividade, com exigência de que trabalhem ao menos 25 horas semanais. A estimativa dos valores a serem pagos pode ser consultada em site do IBGE
O trabalho de pesquisa funciona por setores, que são áreas com várias residências onde o recenseador precisa ir. Na prática, os trabalhadores deveriam ser pagos em até 15 dias após fechar cada setor.
“Vi nesse concurso uma oportunidade de levantar um dinheiro que precisava no momento. Então, me dediquei muito. Trabalhei de manhã, de tarde e até à noite. Fui uma das primeiras recenseadoras a fechar um setor na Serra. Depois de entregar o resultado, demorei mais de 15 dias para ser paga. Só recebi quando já estava finalizando outro setor. Para a minha surpresa, neste segundo setor que fechei, abriram novamente a pesquisa no local, pois não estavam aceitando as ausências de moradores que havia relatado”, explicou uma recenseadora de 37 anos.
O IBGE estabelece que o recenseador precisa fazer até quatro tentativas na residência de moradores que estejam ausentes. No entanto, os pesquisadores relatam que são obrigados por supervisores a fazer plantão nessas casas. Eles também dizem que são obrigados a voltar até mesmo a residências onde sofreram ameaças e naquelas em que o morador se recusou a responder o questionário.
De acordo com os recenseadores, nesses casos, eles precisam praticamente “implorar” para que o morador responda o questionário. Isso porque, segundo eles, os supervisores não aceitam recusas dos entrevistados — o limite de ausências permitido para cada recenseador é de 8% do total de entrevistas.
“Houve pouca divulgação do Censo. Além disso, as pessoas levaram para um lado político. Esses dias tive que lidar com uma mulher que chutava a porta e gritava comigo, porque o marido queria responder, mas ela, não. Tive que lembrá-la que eu era funcionária pública e poderia chamar a polícia. Já fui ameaçada por moradores que mandaram os cachorros irem atrás de mim.  Sofri ameaças até de pessoas com facas. E nossos supervisores não aceitam que não conseguimos fazer as entrevistas nesses locais. Querem obrigar a gente a voltar para essas casas, nos expondo ao risco”, contou a mulher.

MORADOR PELADO E TENTATIVAS DE BEIJOS FORÇADO

Além dos atrasos no pagamento, do trabalho com longa jornada e das ameaças, as recenseadoras ainda lidam com homens atendendo a porta pelados ou só de cuecas. Os casos de assédio incluem tentativas de beijar no rosto sem a trabalhadora permitir e até ameaças de estupro.
"Estamos sozinhas. Os supervisores não aceitam a recusa do morador e nos obrigam a voltar para esses locais. E a gente fica com muito medo. Me dá tremedeira só de pensar em retornar em uma casa onde um morador ameaçou me estuprar porque ele levou a pesquisa para um lado político"
Recenseadora, 42 anos - Preferiu não se identificar
Para quem se recusar a retornar à casa de um morador que ameaçou ou não quis responder o Censo, os pesquisadores dizem que há ameaças de demissão. Como ocorreu com uma jovem, segundo conta outra recenseadora, de 39 anos.
“Essa moça tinha sido ameaçada em uma residência e se recusou a retornar. O supervisor do setor ficou insistindo e a ameaçando, mas ela bateu o pé e disse não. Foi demitida na semana passada. O que é estranho, pois funcionário público não pode ser demitido em época de eleição”, relatou a recenseadora.
A própria trabalhadora disse ter recebido uma ameaça de desligamento porque enviou mensagem chorando para sua supervisora pedindo o pagamento, pois já estava atrasado há duas semanas.
“Disse que não tinha como trabalhar de graça e ser obrigada a voltar 15 vezes na casa de um morador que não quer responder, que ameaça a gente. Eles têm salário e eu, não. Isso é desumano”, contou, lembrando que os supervisores têm um salário fixo de R$ 1.700, enquanto os recenseadores ganham de acordo com a produtividade.

AJUDA DE CUSTO SAINDO DO PRÓPRIO BOLSO

O IBGE disse que pagaria R$ 180 mensalmente para ajudar nos gastos como almoço e locomoção dos recenseadores. Mas muitos deles afirmam que gastam mais do que esse valor para chegarem às residências e se alimentarem. Outro problema é que a ajuda de custo não tem sido paga no dia determinado ou é paga pela metade, segundo os pesquisadores.
“No dia 3 de agosto, comecei meu primeiro setor e terminei no dia 12. Recebi meu pagamento 13 dias depois e minha ajuda de custo, que veio somente R$ 90, foi paga no dia 23 de agosto, quando já tinha finalizado o segundo setor. Mas aí, depois dessa etapa, só recebi a metade do valor do pagamento pelas entrevistas, 16 dias após ter terminado. Ainda não recebi nem o restante da minha ajuda de custo do primeiro setor e nada do segundo setor”, afirmou a recenseadora de 39 anos.
Outro recenseador, de 48 anos, disse que gastou quase R$ 900 para se locomover e pagar a alimentação, pois a região para onde foi enviado para realizar a pesquisa ficava longe da casa dele. Ele conta que recebeu um pagamento de R$ 2.200, dividido em três vezes, mas ainda não ganhou a ajuda de custo.
“Estava trabalhando de 10 a 12 horas por dia. Uma semana depois de fechar meu setor, recebi R$ 900. Depois, mais R$ 700 e, dois dias depois, R$ 600. Desse valor, tive que retirar R$ 900 para pagar passagens e almoço. Estão usando e abusando do povo brasileiro”, reclamou o pesquisador.

IBGE ABRE CONCURSO EM MEIO A DEMISSÕES

Depois de trabalhar, fechar um setor de pesquisa e não receber o pagamento, uma recenseadora de 36 anos decidiu se demitir no dia 17 de agosto. Ela só foi paga um mês depois, na última sexta-feira (16).
“A população está confundindo Censo com política. Recebia ignorância e grosserias dos moradores e era obrigada a insistir e retornar nesses endereços onde havia sido ofendida”, contou a mulher.
Assim como elas, outros colegas também se demitiram. Em meio a essas desistências e denúncias de recenseadores, o IBGE abriu, na última quarta-feira (14), um novo edital para a contratação de 8.231 profissionais temporários. Do total de vagas, 250 são destinadas ao Espírito Santo. A inscrição terminou na sexta-feira (16).

IBGE DIZ QUE ATRASOS NO PAGAMENTO SÃO POUCOS

Questionado sobre as denúncias, o IBGE respondeu que os pagamentos estão sendo feitos dentro dos critérios previamente acertados. “Casos de atraso não são generalizados; são poucos e podem chegar a 1, 2 ou 5 dias”, disse a instituição.

Nota do IBGE sobre denúncias de atraso no pagamento dos recenseadores

“Atraso não é norma, é exceção. Cabe explicar que o pagamento é feito com base no seguinte protocolo: os recenseadores são informados pelos seus supervisores que a remuneração é por produtividade. Que ela varia de acordo com o tipo de questionário aplicado (básico ou amostra), tipo do setor (urbano ou rural) e características urbanísticas observadas pelo gestor local. Que essa variação ou diferenciação é determinada por taxas de remuneração, que variam de 1 a 9, de acordo com o setor e tipo de questionário, ou podem ser um valor global pré-estabelecido, atribuídos a cada setor censitário. 

Que os domicílios com moradores ausentes deverão ser revisitados para realização das entrevistas. Que, caso o recenseador desista do trabalho antes de realizar todas as entrevistas, ou antes de registrar todas as unidades de sua área de trabalho, ele será remunerado de acordo com a produção acumulada até então, após verificação do trabalho pelo seu supervisor.  Não havendo imprevisto nesses critérios do protocolo, o pagamento é feito entre 10 e 15 dias. 

Fato é que há casos em que, mesmo informados, os recenseadores divergem do processo, do cumprimento ou do entendimento da aplicação dos critérios. E ainda: trata-se aqui de volume monumental de liberação de recursos públicos, que precisam ser checados sob a luz e o rigor exigidos pelas boas práticas da administração pública, em conformidade com a devida contrapartida das tarefas a serem realizadas".

A reportagem questionou o IBGE sobre a quantidade de trabalhadores que estão com pagamentos atrasados, mas o instituto disse que não há esse balanço. Sobre a falta de pagamento na ajuda de custo, o órgão informa que os recenseadores estão recebendo todos os valores previstos no edital.
Em relação às denúncias de que supervisores obrigam os recenseadores a retornarem às casas onde foram ameaçados, o instituto respondeu que tanto recenseadores quanto supervisores são servidores do IBGE. “Se houver desentendimento entre eles, é preciso que uma ou outra parte apresente reclamação junto à Coordenação Operacional do Censo ou à Coordenação de Recursos Humanos do instituto, para a devida avaliação da procedência (ou não) e a devida aplicação das normas disciplinares (ou não)”.
Acrescentou que, em casos de violência, assédio ou importunação, os recenseadores são orientados a procurar seus supervisores e a registrarem a ocorrência nas delegacias policiais.

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