Por falta do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), o Instituto Butantan interrompeu a produção da Coronavac, vacina contra a Covid-19 que é distribuída pelo Ministério da Saúde a todos os estados brasileiros. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (14). A situação vai impactar diretamente no esquema vacinal esperado do Espírito Santo, onde mais de 152 mil pessoas ainda estão com a segunda dose deste imunizante atrasado.
No último dia 12, o Instituto Butantan entregou 1,08 milhão de doses para o Ministério da Saúde, que serão distribuídas ao longo desta semana para todos os estados. O carregamento encerra o montante produzido a partir dos 3 mil litros de IFA recebidos da China no dia 19 de abril.
O último lote faz parte do segundo contrato firmado entre Butantan e ministério, que prevê o fornecimento de 54 milhões de doses até 30 de setembro. O primeiro contrato, de 46 milhões de doses, foi finalizado.
Atualmente, há 10 mil litros de IFA na empresa chinesa Sinovac prontos para serem encaminhados ao Butantan, aguardando liberação burocrática. "Nesse momento, o que se atrasa é a previsão. Nós tínhamos uma previsão de entregar em maio 12 milhões de doses, mas vamos entregar um pouco mais de 5 milhões”, explicou Dimas Covas, presidente do Instituto.
Os 10 mil litros de IFA que aguardam liberação para serem enviados da China correspondem à matéria-prima que falta para maio e ao que está previsto para junho.
Sem os insumos, o Instituto Butantan paralisou, após a entrega das últimas doses, a produção da Coronavac. "Esses 10 mil litros correspondem a aproximadamente 18 milhões de doses da vacina, absolutamente necessários para manter a frequência do sistema vacinal, acelerar e atender os que precisam da segunda dose”, explicou o governador de São Paulo, João Doria.
Na tarde desta segunda-feira (17), Dória informou que quatro mil litros de IFA devem chegar ao país até o dia 26 de maio. A quantidade é suficiente para a produção de sete milhões de doses, menos da metade da previsão inicial de 18 milhões.
SITUAÇÃO NO ES
Por conta dos atrasos e da incerteza sobre a retomada da produção da Coronavac ainda em maio, não há expectativa de quando o Espírito Santo voltará a usar o imunizante na população para a primeira dose, uma vez que ainda é preciso zerar a fila de moradores que esperam há mais de 28 dias pela segunda aplicação.
No último dia 14, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) fez o pedido de exatas 152.787 doses de Coronavac para completar o esquema vacinal dos capixabas. A solicitação está documentada na Resolução da Comissão Intergestores Bipartite (CIB) nº 067/2021.
"O Estado solicita ao Ministério da Saúde, de forma imediata, 152.787 doses da vacina Coronavac (Sinovac/Butantan) para completar o esquema de vacinação do público-alvo que já recebeu a D1 em um intervalo de 28 dias e está com o esquema de vacinação em aberto", diz nota enviada pela Sesa.
Na tarde desta segunda (17), o governador Renato Casagrande anunciou que o Espírito Santo vai receber 99.600 doses da última remessa da Coronavac liberada pelo Instituto Butantan. O lote vai reduzir a fila de espera no Espírito Santo. No entanto, mais de 53 mil pessoas ainda vão continuar esperando pela imunização completa.
Em um vídeo divulgado nesta sexta-feira, o subsecretário de Estado da Vigilância em Saúde, Luiz Carlos Reblin, confirma que o Estado tem ciência da paralisação da produção do imunizante. Ele acredita que uma alternativa é o governo federal acionar as vias diplomáticas por meio da Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS).
"Já temos disponível na China uma quantidade importante do insumo e nós esperamos que o governo brasileiro, através das relações internacionais, possa acionar a OMS, OPAS, para que esse material venha para o Brasil. A Coronavac é o imunizante mais utilizado na vacinação no país", observou Reblin.
CUIDADOS REDOBRADOS COM A IMUNIDADE
Com a indefinição do envio de doses, a orientação da Sesa é de que a população que se encontra com esquema para a segunda dose superior de 28 dias, aguarde o anúncio da chegada de novas doses e o agendamento que cada cidade irá realizar.
Mas este atraso na chegada das doses e a consequente não vacinação dos grupos prioritários pode comprometer a imunidade da população. O alerta é da doutora em Epidemiologia, Ethel Maciel. A pesquisadora reforça que, sem a segunda dose, as pessoas não estão protegidas.
"A Coronavac precisa da segunda dose para ter eficácia contra o vírus. O impacto é que essas pessoas podem adoecer, ficando graves, indo para hospital, e infelizmente, morrendo. O maior prejuizo é o de vidas. A orientação é redobrar os cuidados enquanto a segunda dose não chega"
Ethel também se manifestou nas redes sociais. Em sua postagem, ela também cobrou que o governo brasileiro faça um trabalho diplomático com a China, fornecedor do IFA, envie o insumo o mais breve possível para que as produções sejam retomadas.
VACINA É A SEGURANÇA
A vacinação é a forma mais segura e eficiente de proteção contra diversas doenças, principalmente contra a Covid-19. É o que destacou o secretário Nésio Fernandes, em artigo publicado em A Gazeta, neste final de semana. “Há evidências incontestáveis quanto à segurança oferecida a quem se imuniza. Se chegar a sua vez de se vacinar, vacine-se. Não arrisque trocar a vacina pelo ventilador pulmonar”.
Ele observou ainda, em seu artigo, que as vacinas evitam, individualmente, casos, internações e óbitos, no entanto, como estratégia coletiva a cobertura alcançada no Brasil e no Espírito Santo não é suficiente para bloquear a circulação comunitária do vírus e reduzir drasticamente a incidência de novos casos.
No entanto, explicou o secretário, ela já tem repercussão em alguns grupos. "A cobertura vacinal da população idosa, que mais foi afetada pela pandemia, deverá repercutir na redução da mortalidade desse grupo etário, com redução de óbitos/internações desses em novas fases de aceleração", avaliou.
MESMO COM ATRASO, VACINE-SE
Apesar dos atrasos e das dificuldades para se obter as doses de imunizantes no país, a epidemiologista Ethel Maciel destaca que é importante completar a imunização. Isto é, se o paciente tomou a primeira dose da Coronavac, deve receber a segunda, ainda que o prazo ultrapasse a previsão inicial.
“O que a gente sabe das pesquisas é que a segunda dose deve ser administrada entre 14 dias e 28 dias. Além disso, não sabemos. Mas sabemos, por conta de outras vacinas, que para fazer uma imunização mais prolongada, é preciso tomar a segunda dose. Então, mesmo com atraso, é mais importante tomar que não tomar", reforçou Ethel.
Ethel diz que a primeira dose da vacina serve, a princípio, para apresentar aquele agente infeccioso ao sistema imunológico, e que, nessa fase, a resposta do organismo ainda é baixa. A segunda dose do imunizante ajuda a reforçar a imunidade e a mantê-la por mais tempo.