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Crise

Como o sistema de ônibus de Vitória contribuiu para afundar empresas do Transcol

Em menos de seis meses, empresas tradicionais que atuam no sistema metropolitano de transportes pediram recuperação judicial no Estado

Publicado em 21 de Março de 2023 às 09:00

Natalia Bourguignon

Publicado em 

21 mar 2023 às 09:00
Sistema Transcol circulando na Avenida Américo Buaiz, vitória
Ônibus do Sistema Transcol circulando na Avenida Américo Buaiz, em Vitória Crédito: Ricardo Medeiros
Desde 2021, o Sistema Transcol passou a operar o transporte público também em Vitória, antes fornecido pela prefeitura da Capital. Desde então, duas empresas que atuam no transporte metropolitano pediram recuperação judicial. Ambas têm fatores em comum: são companhias tradicionais, com 50 anos de existência, e pertencem a grupos empresariais que também atuavam no sistema de Vitória.
Ao entrar com o pedido de recuperação judicial, as duas empresas citaram a Covid-19 com uma das raízes da crise financeira. Isso porque a falta de pessoas circulando de ônibus, causada pelas restrições em atividades econômicas durante a pandemia, fez despencar a receita das empresas. Contudo, com A Gazeta mostrou, mesmo antes da pandemia, as três empresas que atuavam em Vitória acumulavam prejuízos que chegavam a R$ 1,5 milhão por mês.
Com muito menos gente passando pela catraca a partir de meados de 2020, todas as empresas de transporte público se viram diante de uma redução grande nas receitas. A diferença é que as integrantes do Sistema Transcol recebem subsídio do governo estadual para equilibrar as contas, o que nunca foi pago pela Prefeitura de Vitória. O valor recebido pelos passageiros era a única fonte de receita das companhias que atuavam na Capital. 
A Tabuazeiro e a Grande Vitória pediram recuperação judicial em 2022. Juntas, elas eram responsáveis por 80% da frota de passageiros da Capital. Em janeiro de 2021, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Espírito Santo (Setpes) informou que o Sistema Municipal de Vitória há muitos anos enfrentava dificuldades e lidava com inviabilidade econômica.

Metropolitana e Tabuazeiro

O grupo mais afetado é o das empresas Metropolitana e Tabuazeiro. A Metropolitana atuava no Transcol, enquanto a Tabuazeiro era uma das três empresas que operavam o transporte municipal de Vitória.  Hoje elas compartilham uma dívida milionária que chega a quase R$ 150 milhões.
Na pandemia, a situação financeira da Tabuazeiro, que já passava por dificuldades, se deteriorou. Em outubro de 2020, para conseguir pagar os salários dos motoristas e cobradores, que faziam sucessivas paralisações, a empresa chegou a vender ônibus e reduzir as linhas que operava. Sem conseguir arcar com seus compromissos financeiros, notadamente perante os funcionários, a empresa acumulou dívidas e processos trabalhistas
Decisões judiciais obrigando o pagamento aos funcionários da empresa afetam diretamente a Metropolitana ao ponto de, segundo o pedido de RJ, impedir que ela funcione corretamente.
"A Metropolitana vem sendo diuturnamente submetida a constrições em seu patrimônio por força de ordens judiciais oriundas da Justiça do Trabalho em demandas propostas em face da Tabuazeiro. [...] Há o risco inevitável de a decretação da quebra de uma delas acarretar, por arrastamento, a quebra da outra", diz o pedido de recuperação feito à Justiça estadual.
Desde 2021, com a integração, a Tabuazeiro parou definitivamente de atuar como prestadora de serviço de transporte  e não mais recebeu recurso das passagens. No lugar, passou a arrendar os coletivos para as empresas do Sistema Transcol que começaram a operar as linhas que pertenciam antes ao serviço municipal de Vitória. 
"A herança nefasta de passivos proveniente da pandemia (comprometimento financeiro) atrelada à perda de sua principal fonte de renda (prestação de serviço de transporte urbano) cria para a segunda devedora (Tabuazeiro) cenário devastador, o que vem afetando, indiretamente, a condição da primeira devedora (Metropolitana)", justificou a empresa.
Ainda de acordo com o documento, se não fosse pela Metropolitana, a Tabuazeiro estaria prestes a falir.

Fora do Transcol

A Metropolitana fazia parte do Consórcio Atlântico Sul, um dos que operam o Sistema Transcol. Ela foi excluída dos quadros em 12 de setembro do ano passado, mas, desde o dia 28 de agosto de 2022, já estava com as suas atividades paralisadas, segundo informou o consórcio em processo que tramita na Justiça.
No documento, a que A Gazeta teve acesso, é informado que a exclusão da empresa se deu não somente pela perda de sua idoneidade financeira. “Lastreou-se exclusivamente na irremediável perda de sua condição de regularidade fiscal e previdenciária”, é dito no texto.
É explicado ainda que a permanência da Metropolitana no consórcio, nas condições em que se encontra, colocaria em risco não só o emprego de seus 250 funcionários, mas também os de outros 3.300 que trabalham para as demais cinco empresas do mesmo consórcio.
É relatado ainda que, se a Metropolitana não houvesse sido excluída, teria significativa parte de sua operação reduzida para o ano de 2023, pois 29 de seus 54 veículos operantes seriam descadastrados do Sistema Transcol, por não atenderem as condições de idade máxima previstas no contrato de concessão.

Grande Vitória e Granvitur

Nesse caso, a Granvitur era a empresa ligada ao Sistema Transcol e a Grade Vitória, ao sistema municipal da Capital. Em 2019, as duas se fundiram e viraram uma empresa só, a Viação Grande Vitória (VGV), adquirida pela Canarinho Investimentos.
Segundo o pedido de recuperação judicial da VGV, que operava metade dos ônibus do sistema de Vitória, a empresa vinha sofrendo com reduções gradativas no número de passageiros desde 2018. Contudo, a crise da Covid fez despencar o número de passagens pagas e, consequentemente o faturamento  da empresa.
Em maio de 2021, diz o documento, quando houve a integração, a empresa já estava em grande dificuldade.
"[...] Após três anos de descaso por parte do Poder Concedente, o prejuízo acumulado no período somado à queda na demanda de passageiros por conta do início da pandemia em 2020 foi absolutamente desastroso para a VGV", diz o pedido.
Além dessa justificativa, a empresa mencionou ainda a alta do preço do diesel no mercado causada pelo aumento do preço do petróleo no mercado internacional, citando inclusive a guerra na Ucrânia e o bloqueio do Canal de Suez como fatores agravantes.  O preço do combustível, segundo a empresa, influencia diretamente nos custos de operação, já que representou quase 40% dos gastos em 2022.
"Especificamente em relação às requerentes (VGV e Canarinho Investimentos), o aumento desgovernado e imprevisível do preço do diesel corresponde a um incremento operacional de custos de aproximadamente R$ 500 mil mensais acima da previsão orçamentária da VGV, que ostenta um alto consumo de aproximadamente 360 mil litros de combustível por mês", aponta a empresa.
Para tentar cobrir o rombo e manter compromissos financeiros, a empresa fez empréstimos com "taxas elevadíssimas", conforme é citado no pedido. Também foram renegociadas outras dívidas com bancos, o que fez também aumentar os juros cobrados levando a um aumento no endividamento.
Atualmente, a empresa deve R$ 82 milhões a mais de 800 credores no Espírito Santo.

O que dizem o governo e a prefeitura

O secretário de Estado de Mobilidade e Infraestrutura, Fábio Damasceno,  afirma que o Sistema Transcol é atualmente sustentável e que as contas fecham no "zero a zero", ou seja, sem déficit.
"Com o controle que a gente tem, pagando subsídio em dia, pagando tudo em dia, consegue minimizar muito os problemas. Mas eu não posso falar da gestão das empresas", apontou.
Ele esclareceu ainda que, durante a pandemia, além do subsídio, o Estado bancou quase R$ 200 milhões em diesel para as empresas do Transcol. O secretário explicou ainda que o contrato de concessão é firmado entre o governo estadual e dois consórcios, não com empresas individualmente. Dessa forma, ainda que as companhias tenham problemas, cabe ao consórcio manter o sistema funcionando corretamente.
Já a Prefeitura de Vitória informou que em 2020 tomou atitudes "para garantir a operação e a manutenção do sistema". A administração municipal disse que houve isenção do Imposto Sobre Serviços (ISS), o parcelamento de dívidas das empresas com o município e a antecipação de crédito de mais de R$ 500 mil relativos aos vales-transportes dos servidores. Também foram ajustadas as linhas e os horários dos ônibus.
"O órgão destaca que as medidas foram importantes, pois refletiram de forma positiva quando foi feito o planejamento final de transferência do sistema municipal de transportes, que passou a ser administrado pelo Transcol, em maio de 2021", diz a nota.

O que dizem as empresas

Em nota, a Viação Grande Vitória afirmou que a Recuperação Judicial (RJ) solicitada por ela e aprovada pela Justiça em nada impacta no dia a dia da empresa, que opera o Sistema Transcol na Grande Vitória.
"Na prática, a empresa se prepara para o futuro, tem um contrato de concessão de quase 32 anos pela frente e planeja investimentos em novos ônibus e em tecnologia para melhorar a qualidade dos seus serviços. A recuperação judicial (RJ) é uma forma de proteger a empresa em relação a compromissos futuros que precisam ser quitados com os bancos. Trata-se de um instrumento jurídico que prevê o acordo com credores", diz a nota.
A Viação Metropolitana foi demanda por A Gazeta, mas ainda não se manifestou. Caso haja retorno, este texto será atualizado.
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