O policial civil Romualdo Eustáquio da Luz Faria, o Japonês, que foi contratado para realizar o assassinato da jornalista Maria Nilce dos Santos Magalhães, teve a liberdade antecipada. O escrivão aposentado deixou a prisão no início da noite desta quinta-feira (02).
Condenado por assassinato de Maria Nilce tem liberdade antecipada
Japonês foi condenado a 15 anos de prisão pelo assassinato da jornalista, com outras quatro pessoas. Ele cumpria pena em regime de semiliberdade na prisão Alpha10, destinada aos policiais civis. Era o único que ainda estava recluso pelo crime.
Segundo sua advogada, Mariah Sartório Justi, a previsão era de que ele fosse para a regime aberto no próximo dia 30. Situação em que estaria em liberdade, seguindo regras estabelecidas pelo Juizado responsável pela execução da penal. Mas a data de liberação poderia ser ainda antecipada, uma vez que a ele foram concedidas remissões de pena.
O abatimento ocorre nas situações em que o preso trabalha ou estuda. “Ele teve um excelente comportamento carcerário, trabalhou, estudou, o alvará foi concedido e ele já saiu para o regime aberto”, relatou a advogada.
Foram estabelecidas pelo juizado de execução da pena as seguintes exigências: permanecer no local designado durante os dias de repouso e de folga, sair do trabalho e voltar nos horários fixados, não se ausentar da cidade sem autorização judicial, e comparecer em juízo quando determinado.
TRABALHANDO EM UMA IGREJA
Segundo a advogada, Japonês continuará trabalhando em uma paróquia localizada na Grande Vitória. Ela não conseguiu confirmar se ele exerce no local a mesma função que tinha no presídio, que era de auxiliar de serviços gerais. Também não há informações se o trabalho é remunerado ou voluntário.
As informações obtidas pela reportagem são de que Japonês deixou o presídio destinado aos policiais civis, a Alpha10, por volta das 18 horas desta quinta-feira (02) para uma residência localizada na Grande Vitória.
APOSENTADO COM SALÁRIO DE R$ 11 MIL
Segundo o Portal da Transparência do Estado, Japonês permanece nos quadros de servidores do governo estadual. Ele foi aposentado em 13 de maio de 2000. Em junho deste ano, por exemplo, ele recebeu um salário líquido de R$ 11.024,71.
VAI E VEM PRISIONAL
Ao longo das últimas décadas, o escrivão vivenciou um vai e vem dentro do sistema penitenciário. No total, reunindo os crimes cometidos por Japonês, a pena dele é de 33 anos, dos quais 15 são referente ao assassinato da jornalista, segundo informações presentes no relatório de acompanhamento de pena do Tribunal de Justiça do Estado.
Logo após o crime de Maria Nilce, o escrivão foi preso, junto com Andreatta, após serem intimados a depor na Polícia Federal. Japonês ficou detido por 27 dias, entre o final de novembro e meados de dezembro de 1989. Foi preso novamente no final de 1992 e solto em fevereiro do ano seguinte. E por um outro assassinato, de um sindicalista de Pedro Canário, acabou voltando para a prisão em junho de 2012.
Quando veio a condenação pelo homicídio de Maria Nilce, em 2013, o escrivão já estava preso. Em 2017, foi concedido a ele progressão de regime e foi quando passou a cumprir sua pena no regime semiaberto, onde o preso passa o dia fora da cadeia e retorna ao final do dia para dormir.
Segundo a Secretaria de Estado da Justiça (Sejus) - responsável pela administração dos presídios capixabas -,Japonês cumpriu pena no sistema prisional de 1º de junho de 2012 a 31 de outubro de 2014, quando foi transferido para uma unidade externa. A advogada Mariah Sartório Justi informou que ele cumpriu a semiliberdade na Alpha10, prisão destinada aos policiais civis.
Em relação ao salário que o escrivão aposentado recebe, a advogada informou que não há informações na sentença de condenação em relação à perda do cargo.
CRIME
Maria Nilce foi executada no dia 5 de julho de 1989, quando chegava à Academia Corpo e Movimento, na Praia do Canto, Vitória, com a filha Mila, que tinha 21 anos na época. Ao sair do carro, foi abordada pelo primeiro pistoleiro. Segundo as investigações da Polícia Federal, naquele momento ele realizou um disparo, mas a arma falhou.
A jornalista conseguiu fugir e buscou abrigo em um ônibus parado em um ponto próximo. Dentro do coletivo, ela foi alcançada pelo segundo executor, que a atingiu com três tiros. Socorrida, Maria Nilce morreu a caminho do hospital.
Os atiradores deixaram o local do crime em um fusca. Em seguida, fugiram para o Rio de Janeiro em um avião pilotado por um dos condenados como um dos intermediários.
QUEM FOI MARIA NILCE
- Quem era: jornalista, apresentadora e escritora, Maria Nilce dos Santos Magalhães era proprietária do Jornal da Cidade. Atuou em vários veículos no Espírito Santo.
- Família: casada com o jornalista Djalma Magalhães, deixou 4 filhos. Uma delas, Mila, a acompanhava no dia do crime.
- Livros: é autora de cinco livros de crônicas. Junto como o marido, escreveu outros dois sobre personalidades do Espírito Santo.
- Empreendedorismo: nos últimos anos, ela realizava almoços que comemoravam o dia internacional da mulher, onde reunia as empreendedoras capixabas que se destacavam, algumas citadas em seu livro.
- Polêmica: era famosa por uma escrita afiada e cheia de personalidade que conquistou alguns desafetos na alta sociedade capixaba. Em diversas entrevistas, Maria Nilce relatava “que não tinha medo de dizer a verdade”. Em relação ao temor que causava, afirmava que “sem temor não havia respeito” e que "as pessoas respeitavam Maria Nilce”. Em seu jornal, segundo a família, publicava fatos do dia a dia. “Às vezes polêmicos, mas não eram calúnias”, pontua o filho Juca Magalhães.
CRIMES BRUTAIS
Matérias sobre esse homicídio, que chocou os capixabas, vão ser publicadas até a próxima segunda-feira (06). É a segunda reportagem de uma série, de A Gazeta, que vai resgatar os crimes brutais que marcaram a história do Espírito Santo. A primeira foi sobre os 20 anos da morte da adolescente Isabela Negri Cassani, de 15 anos, publicada em outubro do ano passado.