O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, anunciou na última quarta-feira (21) que a previsão para concluir a vacinação contra a Covid-19 dos 29 grupos prioritários é setembro. O prazo representa um atraso de quatro meses na projeção que havia sido feita por seu antecessor, general Eduardo Pazuello. A mudança no cronograma deve afetar a expectativa de o país adquirir a imunidade coletiva (ou de rebanho) da população diante da doença e, assim, conter a disseminação do coronavírus.
Apenas dois dias antes, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) indicava que o Espírito Santo poderia ser um dos primeiros a alcançar a imunidade coletiva, diante do ritmo de vacinação que havia sido empregado. Naquela segunda-feira (19), o Estado apresentava-se como o 3º que mais havia vacinado no país.
O subsecretário estadual de Vigilância em Saúde, Luiz Carlos Reblin, que na ocasião mostrava-se otimista e fazia a previsão de imunizar 2 milhões de pessoas no Espírito Santo, agora tem uma visão diferente. Em coletiva nesta sexta-feira (23), ele demonstra apreensão.
"Isso para nós é dramático. Trabalhávamos com a previsão de concluir a vacinação do grupo prioritário em maio, antes da chegada do inverno, quando aumentam as chances de transmissão de doenças respiratórias. Continuamos prontos para vacinar todos no mês de maio, e esperamos que o ministério e todos os órgãos se mobilizem para que essa transferência para setembro não ocorra. O Brasil precisa buscar urgentemente alternativas para manter doses suficientes ainda em maio para fazer frente à vacinação da sociedade."
Danielle Grillo, coordenadora do Programa Estadual de Imunizações e Vigilância das Doenças Imunopreveníveis também vê com preocupação a nova estimativa do governo federal porque vai atrasar o cronograma de vacinação em todo o país, uma vez que é o Ministério da Saúde o órgão responsável por fornecer os imunizantes para os Estados.
O Espírito Santo não tem como antecipar esse plano de imunização, a não ser que consiga comprar diretamente as doses dos fabricantes. Negociações continuam sendo feitas pela Sesa, mas, segundo afirma Danielle Grillo, é um mercado complexo em que se depende bastante do laboratório produtor.
"O que nos preocupa é a imunidade coletiva. Um dos objetivos da campanha de vacinação é imunizar o maior número de pessoas em um intervalo curto. Nesse passo que estamos seguindo, só vamos conseguir proteger mesmo os mais vulneráveis", ressalta.
FALTA DE INFORMAÇÃO
Além da postergação para concluir a imunização dos grupos prioritários, o Ministério da Saúde também não informa aos Estados sobre o volume de doses que serão enviadas com a antecedência necessária para o planejamento. Os dados são divulgados apenas na véspera do envio, dificultando a realização de um plano a longo prazo.
"A falta de informação de doses semanais nos impede de fazer, por exemplo, o adiantamento de um grupo ou outra estratégia diferenciada para ganhar velocidade na ação. Os municípios também estão organizados, mas, se não sabem o quantitativo que virá, para as equipes ampliarem essa cobertura, é um complicador. Ficamos na expectativa de recebimento de doses, e previsões de quando vão começar determinados grupos são todas por suposição, porque só conseguimos saber quem poderemos atender na véspera, quando chega a informação da quantidade que vamos receber", explica Danielle Grillo.
Por essa razão, não é possível apontar com exatidão em que momento cada grupo prioritário começará a ser imunizado no Espírito Santo, embora haja uma ordem na fila de espera. A coordenadora de imunizações da Sesa projeta, no máximo, o próximo público-alvo - de pessoas com comorbidades - cuja vacinação é esperada para o início de maio.
Danielle Grillo diz que faz essa estimativa porque, com as doses que chegaram nesta sexta-feira (23), o Espírito Santo vai alcançar 81% do público de 60 a 64 anos e, se não houver uma redução significativa de vacinas enviadas na semana que vem pelo ministério, o Estado deverá atingir 100% das doses distribuídas para essa faixa etária, podendo iniciar o atendimento das pessoas com doenças preexistentes.
No Plano Nacional de Imunização (PNI) vigente, e que está em sua quinta versão, depois das pessoas com comorbidades, estão na fila as que têm deficiência permanente, população em situação de rua, presos e funcionários do sistema de privação de liberdade até chegar aos professores e trabalhadores das forças de segurança e salvamento, duas categorias que tiveram a imunização antecipada no Estado com o uso da reserva técnica de 5% das remessas semanais.
No Espírito Santo, cinco dos 29 grupos prioritários já receberam as duas doses da vacina, completando o ciclo de imunização.
CONFIRA: GRUPOS PRIORITÁRIOS E ESTIMATIVA POPULACIONAL NO ES
- Pessoas com 60 anos ou mais institucionalizadas - 2.970
- Pessoas com deficiência institucionalizadas - 210
- Povos indígenas em terras indígenas - 2.793
- Trabalhadores de saúde - 124.416
- Pessoas de 90 anos ou mais - 17.885
- Pessoas de 85 a 89 anos - 26.010
- Pessoas de 80 a 84 anos - 44.963
- Pessoas de 75 a 79 anos - 66.902
- Povos e comunidades tradicionais ribeirinhas - não há
- Povos e comunidades tradicionais quilombolas - 15.993
- Pessoas de 70 a 74 anos - 99.741
- Pessoas de 65 a 69 anos - 147.257
- Pessoas de 60 a 64 anos - 190.034
- Pessoas com comorbidades - 393.566
- Pessoas com deficiência permanente - 148.611
- Pessoas em situação de rua - 778
- População privada de liberdade - 23.528
- Funcionários do sistema de privação de liberdade - 3.269
- Trabalhadores da Educação Básica (creche, pré-escolas, ensino fundamental, ensino médio, profissionalizantes e EJA) - 51.930
- Trabalhadores da Educação do Ensino Superior - 14.215
- Forças de Segurança e Salvamento - 12.615
- Forças Armadas - 1.361
- Trabalhadores de Transporte Coletivo Rodoviário de Passageiros - 19.577
- Trabalhadores de Transporte Metroviário e Ferroviário - 4.738
- Trabalhadores de Transporte Aéreo - 1.017
- Trabalhadores de Transporte Aquaviário - 1.117
- Caminhoneiros - 33.454
- Trabalhadores Portuários - 18.834
- Trabalhadores Industriais - 135.610
CRONOGRAMA
Essa é a ordem do plano atual, mas o governo federal tem alterado previsões de datas para imunizar grupos prioritários. Em dezembro, o ministério esperava ter imunizado 50 milhões - volume do grupo prioritário à época - em 3 meses após o começo da campanha. Em março, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello disse que metade da população apta a receber a vacina seria imunizada no primeiro semestre. O restante, até o fim do ano.
Mais de 3 meses após o começo da vacinação no Brasil, 24,8 milhões de pessoas receberam a primeira dose, segundo dados da Saúde. O ministério não atualiza o cronograma de entrega de vacinas desde 19 de março. O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou, na terça-feira (20), que o governo detalhe o cronograma de entrega das vacinas em até cinco dias. Queiroga disse que irá apresentar os dados no prazo.
Queiroga atribuiu as mudanças nos calendários de entrega de vacina e de imunização aos atrasos de fornecedores. O ministro citou que o consórcio Covax Facility "não nos entrega o que foi acordado". Ainda lembrou atrasos na chegada de insumos para a fabricação das doses no Butantan e na Fiocruz.
O ministro também confirmou que a Saúde negocia mais 100 milhões de doses da vacina da Pfizer, mirando a campanha de imunização de 2022. O governo já fechou a compra do mesmo volume para este ano, após meses negando ofertas da farmacêutica.
O governo federal chegou a apresentar cronogramas inviáveis de entrega de vacinas, somando 20 milhões de doses da Covaxin, desenvolvida na Índia, quando o produto nem sequer tinha certificações exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Após diversos recuos, a gestão Queiroga ainda não apresentou uma previsão de entrega das doses até o fim do ano.
Com informações da Agência Estado.