Crimes no mangue colocam em risco berço da natureza e cultura capixaba
Data: 21/05/2020 - ES - São Mateus - Pedro Ribeiro, presidente da Associação de Moradores e catadores de Caranguejo do Distrito de Nativo, mostrando o mangue morto em São Mateus - Editoria: Cidades - Foto: Ricardo Medeiros - GZRicardo Medeiros
DESTRUIÇÃO E RESISTÊNCIA
Crimes no mangue colocam em risco berço da natureza e cultura capixaba
Aterros, lixo, esgoto e cata de crustáceos irregular causam graves consequências ambientais, sociais e econômicas para o manguezal do Espírito Santo
Raquel Lopes
rflopes@redegazeta.com.br
Publicado em 05 de Junho de 2020 às 05:30
Publicado em
05 jun 2020 às 05:30
Pedro Ribeiro, presidente da Associação de Moradores e Catadores de Caranguejo do Distrito de Nativo, caminha sobre o mangue morto, em São Mateus Crédito: Ricardo Medeiros
Fotos: Ricardo Medeiros
Roteiro de vídeos e imagens: Vitor Jubini
SÉRIE MANGUE:
DESTRUIÇÃO E RESISTÊNCIA
Mangue do
litoral do Espírito Santo luta para sobreviver em meio ao descarte
de lixo, esgoto, aterramentos e pesca irregular
O manguezal
possui extrema importância para o meio ambiente. É berçário para
inúmeras espécies e tem papel fundamental no equilíbrio ambiental
Na Grande
Vitória está situado o maior manguezal de área urbana do Brasil
Em quatro
décadas, o Espírito Santo perdeu o equivalente a 120 campos de futebol em área
de mangue
Cata
irregular e doença põem em risco o caranguejo capixaba. No mercado
local, 75% de todo o crustáceo consumido vêm da Bahia
A degradação
do ecossistema também ameça uma das profissões mais tradicionais
do Espírito Santo: os catadores de caranguejo
O Espírito Santo está fundado sobre o manguezal. De uma ponta a outra da costa litorânea, cidades estão construídas em cima dele. Muitos podem nem se dar conta, mas é assim que a história dos capixabas começa a se entrelaçar com o mangue. Da lama sai o sustento para muitas famílias, para catadores de caranguejo e empresários.
O mangue também aguça os sentidos de quem vive nele. Pinta paisagens, dá cheiro característico a cartões postais e enche a comida de sabor. Faz parte da culinária e está enraizado na cultura: marca presença nos pratos típicos com crustáceos, na nossa panela de barro e na música capixaba. Mas, acima de tudo, o manguezal representa o nascimento. Esse ecossistema serve de berço para muitas espécies e tem um papel fundamental para o equilíbrio do meio ambiente. Por isso, neste 5 de junho, data em que se comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente, o mangue representa toda a destruição e também, resistência.
A degradação do manguezal é tão antiga quanto o processo de urbanização. Alvo de preconceito, o mangue ganhou fama de inóspito e se tornou inimigo do progresso. As florestas escuras, barrentas e infestadas de insetos passaram a ser aterradas ainda no século XIX e até hoje o berçário na natureza ainda sofre com o descarte de lixo.
Essa visão equivocada, que ainda persiste no imaginário coletivo, faz do mangue alvo de crimes ambientais, com graves consequências no Espírito Santo, que vão desde a escassez na produção de recursos naturais até o risco de extinção de uma das profissões mais tradicionais do Estado: os catadores de caranguejo.
Considerado um ecossistema costeiro de transição entre os ambientes terrestre e marinho, o manguezal é um dos biomas mais produtivos do planeta. É fundamental para o equilíbrio ambiental e para a manutenção da vida - na prática, funciona como um berçário natural para várias espécies, onde peixes, moluscos e crustáceos se reproduzem e se alimentam. Além disso, protege a zona costeira das mudanças climáticas, impedindo o processo de erosão.
Ave em área de manguezal de Vitória Crédito: Ricardo Medeiros
“O mangue tem uma função de filtro biológico extremamente importante. Se retirarmos o manguezal, por processo de ocupação ou qualquer outro motivo, perdemos um serviço de retenção gratuito. No manguezal, metais tóxicos, pesticidas e outros orgânicos contaminantes são agregados ao sedimento e ficam imobilizados. Eles vão sendo armazenados e funcionam como estoque de carbono, que mantém qualidade de ar, por exemplo”, explica a professora da pós-graduação da Oceanografia Ambiental da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Mônica Maria Pereira Tognella.
Apesar de sua importância, o manguezal no Espírito Santo tenta resistir a múltiplos ataques: esgoto, lixo, ocupação irregular, cata de crustáceos em períodos proibidos e de espécies em extinção, inclusive com uso de redinhas. Em 2005, O Estado ainda foi atingido pela Doença do Caranguejo Letárgico (DCL), que matou muitos animais e, desde então, nunca mais conseguiu retomar uma produção suficiente para atender o mercado.
O Brasil é o segundo país do mundo em extensão de mangue, com 1,3 milhão de hectares, e é na Grande Vitória que está o maior manguezal urbano brasileiro, de 2,4 mil hectares. Mas sua grandiosidade também não impede que ele seja vítima. “As pessoas pensam que o mangue é local de descarte, há muito lixo, esgoto correndo. E, mesmo proibido, o aterro continua”, comenta o presidente do Instituto Goiamum, Iberê Sassi.
Um dos principais ativistas em defesa do mangue no Espírito Santo, Iberê fundou, em 2004, o projeto Goiamum, organização não governamental (ONG) que se dedica à recuperação e conservação do meio ambiente. “Precisamos de um olhar atencioso do poder público sobre esse ecossistema tão importante, que ajuda a contar a história do Espírito Santo”, diz.
Outro problema recorrente, denunciado tanto por catadores de caranguejo quanto especialistas em meio ambiente, é a grande quantidade de pessoas que pescam no manguezal de forma irregular, sem ter conhecimento das normas. Situação que tem se agravado à medida que o desemprego cresce no Estado. No entanto, por lei, a pesca e a cata de mariscos e crustáceos só podem ser feitas por quem tem carteirinha de pescador emitida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
Antônio Pereira da Silva cata caranguejo no Distrito de Nativo, em São MateusCrédito: Ricardo Medeiros
"Nós mesmos é que vigiamos o mangue. Lutamos para preservar porque é daqui que tiramos nosso sustento. Mas aparece muita gente que não é catador, que nem conhecemos, e isso prejudica o meio ambiente, porque eles não sabem pescar, catar o caranguejo, diferenciando qual é a fêmea e o macho"
Antônio Pereira da Silva, de 63 anos - Catador de caranguejo em São Mateus
A cata irregular tem como consequência a diminuição na oferta de recursos naturais, afetando comunidades tradicionais, que dependem diretamente do mangue para sobreviver, com a coleta de mariscos e a pesca artesanal. No Espírito Santo, os caranguejos-uçá estão reduzidos em quantidade e em tamanho. Sem conseguir atender às exigências do mercado, o crustáceo capixaba está perdendo cada vez mais espaço para o baiano. Atualmente, 75% do caranguejo comercializado no Estado vem da Bahia, principalmente das cidades de Caravelas, Nova Viçosa e Canavieiras.
Nos últimos anos, a própria Associação de Pescadores, Catadores de Caranguejo, Apicultores e Moradores de Campo Grande e Barra Nova, em São Mateus, passou a comprar o crustáceo do Estado vizinho para manter o tradicional Festival de Caranguejo, realizado do mês de abril. Em 2019, cerca de 300 dúzias foram transportadas. “Não conseguimos mais caranguejo suficiente para comercializar”, afirma o presidente da associação, Adeci de Sena.
Caranguejo em meio à lama do manguezal, em VitóriaCrédito: Ricardo Medeiros
Enquanto coleta do caranguejo-uçá tem que obedecer a diferentes critérios, o caranguejo guaiamum já não pode ser catado e comercializado no manguezal do Espírito Santo. Desde 2017, o crustáceo macho está na lista de animais que correm o risco de extinção.
Os danos ambientais criam também problemas econômicos e sociais. Capixabas que tiravam do mangue o sustento da família tiveram que diversificar a atividade ou até mesmo abandonar a profissão. Os filhos dos catadores, que sempre aprenderam com os pais o ofício, agora querem trabalhar na cidade. Os que ainda resistem convivem com uma mistura de sentimentos, que varia entre o orgulho da tradição e o medo do futuro.
"Não tem como viver despreocupada, não temos certeza de mais nada nesse lugar. Apesar de muita gente pensar que somos lixo, o catador tem seu valor. É uma profissão sofrida, as pessoas adoecem, têm dor na coluna, problemas íntimos. E, mesmo com o sacrifício, tenho orgulho ser parte dela"
Sirleia Souza Santos Borges, 42 anos - Catadora de caranguejo da comunidade de Campo Grande, em São Mateus
Os catadores Claudiomar Tavares, Renildo Tomaz e Sirleia Souza procuram caranguejo em mangue de São MateusCrédito: Ricardo Medeiros
Pedro Ribeiro, presidente da Associação de Catadores de Caranguejo de São Mateus, explica que a pesca surge como alternativa de sobrevivência para muito trabalhadores, que, assim como ele, não tiveram oportunidade de continuar os estudos. Para alguns catadores, no entanto, a profissão é uma escolha feliz. "Eu gosto da profissão. Eu amo. Ali nada manda em mim, nada", complementa o catador de caranguejo Antônio Pereira da Silva.
Assim, graças aos guardiões do mangue - voluntários, profissionais engajados na causa ambiental e catadores que têm com ele uma relação de amor - o manguezal capixaba ainda resiste em meio à destruição.
Para produzir a série de reportagem "Mangue: destruição e resistência", a equipe de A Gazeta percorreu o manguezal capixaba de norte a sul do Espírito Santo, passando por seis municípios: Vila Velha, Serra, Cariacica, Vitória, Anchieta e São Mateus.
Durante todo o percurso, realizado entre o fim de 2019 e o início de 2020, os profissionais registraram as riquezas desse ecossistema e também os crimes ambientais cometidos contra o mangue, considerado berço da natureza e também da cultura do Espírito Santo.
A pauta surgiu durante uma conversa da jornalista Raquel Lopes com o repórter fotográfico Ricardo Medeiros. "A partir da ideia inicial dele, de fazer uma matéria com os catadores de caranguejo, fui apurar qual era a realidade atual da profissão e descobri que o problema era maior do que imaginávamos", conta Raquel.
Para ela, foi triste perceber que, devido aos problemas ambientais, uma tradição tão rica está se perdendo no Estado. "Os catadores estão desistindo da profissão ou passaram a dividir a cata com outra atividade para conseguir sobreviver".
Ricardo Medeiros conta que retratar o mangue era um sonho de infância. "Cresci brincando no manguezal de Jacaraípe (Serra). A região, que era limpa e sem degradação, está totalmente destruída. E é isso que a reportagem mostra: um mangue à deriva e catadores lutando bravamente para sobreviver", relembra.
As imagens de um mangue degradado também marcaram o repórter fotográfico, Vitor Jubini. "Tenho muito forte na memória as imagens dos lixões e das palafitas presentes na década de 1980 na região de São Pedro. Nossas atitudes foram contraditórias por muito tempo, pois o manguezal proporciona a regeneração da vida de muitas espécies. Além disso, nossos aspectos culturais estão de alguma forma ligada com esse ecossistema, nossas tradições estão enraizadas na lama", destaca.
A editora de Cotidiano, Joyce Meriguetti, observa que o trabalho abordou o mangue sob os aspectos ambiental, cultural, econômico e social, mas, acima de tudo, aproximou a redação da realidade dos caranguejeiros e das comunidades que têm uma relação de sobrevivência e de amor com a natureza. "Nossa equipe se entregou ao projeto, experimentamos e aprendemos muito. Criamos um carinho muito especial pelo mangue e pelas pessoas que vivem dele", conta.
A repórter Barbara Oliveira detalha como a vivência da reportagem foi enriquecedora. "Ver de perto o trabalho dos catadores de caranguejo foi uma das melhores experiências que já vivenciei durante uma reportagem. Tirar o crustáceo da toca com as mãos, em segundos, é um trabalho quase artístico, de conhecimento profundo da natureza. Durante o tempo que passamos dentro do mangue, ficou claro para mim o amor que os caranguejeiros têm pelo manguezal, lugar tão desvalorizado pela maior parte das pessoas", frisa.