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Adrielly Alves trabalha na rádio do presídio Fernando Madeira
Amor entre grades

“Mãe, te amo, vem logo”: como internas vivem a maternidade e a saudade no cárcere

Internas compartilham a dor da distância, o desejo de transformação e a importância do afeto no processo de reconstrução familiar e pessoal

Marcella Scaramella

Editora de Entretenimento

mscaramella@redegazeta.com.br

Publicado em 11 de Maio de 2025 às 13:00

Publicado em

11 mai 2025 às 13:00
Dia das Mães no presídio feminino de Cariacica
Dia das Mães no presídio feminino de Cariacica Crédito: Fernando Madeira
Da caixinha de som ecoa a mensagem de uma filha que vai passar o domingo longe de quem a gerou. “Mãe, te amo, vem logo”, diz a voz infantil, transmitida pela rádio interna do Centro Prisional Feminino de Cariacica, que atualmente conta com 450 internas. Outras histórias se somam à data que, mesmo entre grades, carrega o peso das ausências e a vontade de mudar.
Adrielly Alves da Silva, de 26 anos, é a locutora da rádio do presídio, a Rádio Florescer. A voz dela, que ecoa no sistema interno de som, carrega mais do que informação: leva afeto, memória e uma tentativa de reconexão com quem está lá fora. Ao falar da mãe, Adrielly não esconde o arrependimento e, acima de tudo, a gratidão.
"Quero dizer o quão importante a senhora é para mim. Me perdoe por todas as vezes que eu falhei. Errar é humano, mas permanecer no erro é burrice. A senhora tem uma filha diferente. Perfeita? Nunca. Mas a senhora tem uma filha melhor, mais madura"
Adrielly Alves da Silva - Detenta
Ela cresceu com dez irmãos e viu na mãe um exemplo de força e resistência. “Ela sempre fez o máximo por todas nós. Por ela nunca desistir e nunca deixar eu desistir. O significado aqui dentro é força, porque lá fora eu sei que tem uma irmã que cuida dela e não deixa passar em branco, apesar de faltar uma na mesa.” Foi justamente essa ausência em dois Natais e aniversários que despertou nela o desejo de mudança. “É onde tiro força”, resume.
Adrielly Alves trabalha na rádio do presídio Crédito: Fernando Madeira
Enquanto Adrielly se reconecta pelo som da rádio, Maiara Santos, de 31 anos, refaz sua trajetória pelas mãos. Interna que atua no ateliê da unidade, ela costura aprendizados, lembranças e planos de recomeço. “Eu costumo dizer que nasci para ser mãe. Meus filhos, para mim, são tudo”, afirma. Trabalhar no ateliê virou mais do que uma atividade produtiva: tornou-se um apoio emocional.
Ela também compartilha as dificuldades da distância. “Passar aqui dentro, longe dos meus filhos, é muito difícil.” Agora, com a mudança para o regime fechado, a expectativa é diferente: “Antes eu via eles pelo parlatório, era meia hora só, com um vidro que impede de abraçar. Estou ansiosa para a próxima visita, que vai ser a primeira em que vou poder abraçar e conversar mais tempo com eles.”
Maiara carrega a culpa por ter escolhido caminhos errados em busca de estabilidade financeira para os filhos.
"Cometi meu erro, estou aqui pagando. E o mais importante é começar a mudar daqui, de agora”
Maiara Santos - Detenta
Maiara Santos no ateliê do Centro Prisional Feminino de Cariacica Crédito: Fernando Madeira
A experiência no projeto “Mesa Posta” também a marcou profundamente. “Aprendi que lá fora eu tinha isso de guardar as melhores louças, melhores copos para visita. E está errado. O meu melhor eu tenho que dar para minha família. Não precisa ter uma data comemorativa para demonstrar amor. Quando eu sair daqui, minha primeira mesa posta vai ser para os meus filhos.”
Para além das histórias individuais, o presídio aposta em uma estrutura voltada à ressocialização. Segundo a diretora da unidade, Patrícia Castro, os projetos são parte fundamental do processo de recuperação.
“Temos vários projetos de ressocialização, como estudo, trabalho, atividades manuais, rádio, ateliê, projetos de formação para as internas"
Patrícia Castro - Diretora do presídio
"A maioria entra com ensino fundamental incompleto. Aqui, elas têm a chance de estudar, fazer cursos e se qualificar para voltar à sociedade com mais oportunidades.”
O contato com os familiares, o trabalho e a escuta são pilares nesse processo. No Dia das Mães, esses elementos ganham ainda mais força. Para muitas mulheres privadas de liberdade, o reencontro com seus papéis de filhas e mães se torna o primeiro passo de uma nova caminhada.

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