Os problemas na Educação do país não são consequência do novo coronavírus, mas a pandemia tornou mais evidentes as desigualdades que deixam, sobretudo o aluno da rede pública, em desvantagem no processo de ensino-aprendizagem. Contudo, os desafios que se apresentam para quando as atividades presenciais forem autorizadas não se limitam a corrigir essas distorções. Embora seja esta uma medida primordial, o retorno para a escola exigirá mais de todos: gestores, educadores, estudantes e suas famílias.
No Espírito Santo, a data para a retomada das atividades presenciais não está definida. A volta depende que a curva de transmissão da Covid-19 apresente uma queda consistente (taxa de contágio menor que 1), além da implementação de protocolos sanitários que não estavam na rotina escolar, tais como uso de máscaras e disponibilização de álcool em gel, em cada uma das escolas, públicas e particulares. A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) está elaborando um documento completo com as orientações.
Sonia Dias, coordenadora de implantação municipal do Itaú Social, observa que é preciso haver um conjunto de ações envolvendo todos os atores que estão sendo impactados pela pandemia a fim de garantir as condições para o retorno.
“O primeiro cuidado é justamente do ponto de vista da segurança sanitária, da saúde das crianças. É preciso, por exemplo, protocolos específicos de ingresso de alunos com deficiência. Quem lê libras (língua de sinais) não vai poder usar máscara. Do ponto de vista pedagógico, é importante que haja todo um trabalho para reorganizar os conteúdos para que as crianças não sejam prejudicadas na sua aprendizagem”, aponta.
Neste contexto, entram na programação de escolas a revisão do planejamento pedagógico para 2020, a aplicação de avaliações diagnósticas de aprendizado, atividades de reforço para recuperar o que não foi absorvido nas aulas remotas.
EVASÃO ESCOLAR
A atenção dos gestores e educadores terá que ser direcionada a promover o desenvolvimento de habilidades e competências previstas para cada série, num novo formato de escola (híbrida: parte presencial, parte remota) e com menos tempo, mas também não poderá deixar de lado aqueles estudantes que não retornarem.
“O risco do abandono é terrível, e precisamos todos estar alertas. Muitos pais, na educação infantil, já disseram que, independentemente da situação, não devem mandar seus filhos para a escola porque não se sentem seguros. Mas a evasão e o abandono podem permear todas as faixas de ensino e têm que ser foco de atenção de todos os gestores. No México, há uma estimativa de 500 mil alunos deixarem a escola. Não temos estimativas no Brasil, mas é bem possível que os índices também sejam muito altos”, frisa Sonia Dias.
Essa também é uma preocupação da Secretaria de Estado da Educação (Sedu) que, em abril, implementou o programa Escolar, com atividades por aplicativo, pela TV ou material impresso, para atender os 240 mil alunos no formato não presencial, tanto para manter o vínculo quanto para tentar promover o aprendizado.
No entanto, em torno de 15% dos estudantes da rede (36 mil) não foram alcançados pelo programa, e não estão sendo assistidos. O secretário Vitor de Ângelo ressalta que, ao mesmo tempo que o órgão realiza planejamento para a retomada das aulas presenciais e desenvolve ações para a execução de atividades remotas, também se organiza para a busca ativa dos alunos que não estão participando do programa.
Vitor de Ângelo explica que as escolas tentaram contato, mas não conseguiram e que as limitações de circulação impostas pela pandemia afetam esse trabalho. O secretário assegura, entretanto, que esse grupo de estudantes também está no foco de atenção da Sedu.
"Na volta às aulas presenciais, se não retornarem, vamos atrás e temos outra frente de planejamento, com parceiros como a Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação), para preparar um programa especial de aprendizagem. Eles são nossa preocupação para que não abandonem a escola. Ninguém ficará para trás, e isso não é força de expressão"
Para Thaiane Pereira, coordenadora de projetos do Todos pela Educação, entretanto, não dá para aguardar o retorno das aulas presenciais para realizar a busca ativa, pois aumenta o risco desses alunos desistirem dos estudos.
“Pesquisas já apontaram que, depois de períodos prolongados longe da escola, a chance de abandono e evasão é muito maior. E os mais afetados são os mais vulneráveis, de grupos sociais menos favorecidos que, muito provavelmente, vão ter que trabalhar para ajudar a família, vão estar desestimulados, com pouco vontade de retornar. Essa situação leva ao aumento potencial dos abismos em termos de desigualdade”, atesta.
Thaiane diz ainda que, como não se sabe exatamente quando as atividades presenciais serão retomadas, a busca ativa tem que ser imediata. Quanto antes resgatar os estudantes, afirma a especialista, estabelecendo a relação aluno-professor e escola-família, mesmo que a distância, menos chance dessas crianças e jovens evadirem do sistema.
EXCLUSÃO DIGITAL
E esse resgate leva a outro desafio por ter se mostrado um elemento da desigualdade: o uso de tecnologia na educação. A utilização de recursos tecnológicos impactou a todos porque a escola conhecida antes da pandemia podia até usá-los, mas não nas condições atualmente necessárias. No entanto, para o aluno da escola pública, o cenário se mostra mais complexo.
Na rede estadual, por exemplo, ainda que o governo esteja patrocinando um pacote de dados para que os alunos e professores utilizem o aplicativo do Programa Escolar, há famílias que não têm celular ou, se dispõem do aparelho, não podem deixá-lo com o estudante porque usam para outras atividades. Também há os casos em que o sinal de internet simplesmente não chega às regiões onde residem os estudantes.
“A pandemia trouxe à tona muitas desigualdades que já existiam, como as econômicas, sociais, raciais, e também no acesso à internet. É um conjunto de desigualdades que vão se sobrepondo. Quando pensamos nisso, a distância em termos de aprendizado só pode ser grande e o prejuízo maior para a criança da escola pública”, pontua Sonia Dias, do Itaú Social.
E engana-se quem avalia que o problema atinge apenas esses alunos mais vulneráveis e suas famílias. Já existem estudos, segundo a especialista em Educação, que a perda de um ano escolar afeta a economia de maneira razoável e, consequentemente, toda a sociedade.
O secretário Vitor de Ângelo reforça que a exclusão digital é resultado de outro tipo de exclusão, a socioeconômica, e por essa razão fica mais evidente na escola pública.
“Num contexto de pandemia, em que as atividades remotas são a única alternativa, os recursos que envolvem tecnologia excluem aqueles que já haviam sido excluídos antes. Nosso esforço é não aceitar isso, oferecendo recursos menos tecnológicos. É uma injustiça achar que a escola, em 100 dias, vai contornar a exclusão digital e, por isso, a ideia de apagão da escola pública não é correta. A pandemia não revelou uma desigualdade, mas permitiu ao país ver o que é a educação pública, que talvez não tenha visto antes porque seus filhos não estão nessa escola, e o tamanho dos desafios que temos pela frente”, argumenta.
A avaliação diagnóstica, portanto, será uma ferramenta indispensável na volta às aulas presenciais para medir o desempenho dos alunos - alcançados ou não pelos recursos tecnológicos - e dará a medida de quanto o Estado vai precisar investir na recuperação do aprendizado de seus estudantes.
REDE MUNICIPAL
Nas redes municipais do Espírito Santo, cerca de 20% das famílias também não têm acesso à tecnologia e, mesmo para aquelas que dispõem de celular, nem sempre o equipamento é compatível às atividades encaminhadas pelas escolas. A opção tem sido a de ampliar a oferta de materiais impressos, segundo o presidente da Undime, Vilmar Lugão de Britto.
Para as escolas municipais, porém, o grande desafio se encontra na implantação dos protocolos sanitários, devido ao perfil da clientela atendida: educação infantil e ensino fundamental, principalmente os do primeiro ciclo (1º ao 5º ano), com faixa etária até 10 anos.
“Uma coisa é explicar para um adolescente ou um jovem sobre distanciamento, o uso de máscaras. Outra é fazer isso com crianças pequenas. Como impedir a interação de um bebê que quer brincar?”, questiona Vilmar Lugão.
O presidente da Undime afirma que esses aspectos estão sendo bastante debatidos para permitir a volta às aulas, ainda dentro de um contexto de pandemia, mas passando segurança às famílias de que o retorno é aconselhado.
Soma-se a essa dificuldade, o fato que os municípios tiveram queda de receita em 2020 e precisam investir na aquisição de itens de biossegurança, como máscaras e álcool em gel, que não faziam parte do cotiano escolar. “São muitos desafios até poder garantir o retorno”, conclui Vilmar Lugão.
Às famílias caberá prosseguir com o suporte educacional em casa, para as atividades remotas, e também contribuir para que os protocolos de saúde sejam respeitados, sobretudo mantendo os filhos em casa ao menor sinal de síndrome gripal.
VOLTA NAS PARTICULARES
O gestor da Escola Monteiro, Eduardo Costa Gomes, observa que o momento atual exige um dos trabalhos mais elaborados já realizados pela instituição. “A responsabilidade é muito grande e o nível de complexidade pedagógica, enorme. Cada turma vai ter uma organização de frequência, para cada caso temos um cenário. Isso também demanda organização do tempo de trabalho da equipe.”
A coordenadora educacional dos Colégios Maristas Centro-Norte, Deysiane Pontes, destaca que, além de todos os cuidados e recomendações de biossegurança, o acolhimento tanto dos professores quanto dos estudantes é prioritário na instituição. “Vamos dar ênfase a essa parte socioemocional”, ressalta.
No Centro de Ensino Charles Darwin, entre outras medidas estão previstas a alternância do horário de entrada e saída dos alunos e a realização de recreios por turma. Com esse planejamento, a ideia é isolar cada turma enquanto os alunos estiverem na escola.
O Centro Educacional Leonardo Da Vinci elaborou um Plano de Retorno às Aulas Presenciais, “contemplando aspectos de segurança e rotinas preventivas, avaliação da saúde emocional da comunidade escolar, adequação de calendário acadêmico e diagnóstico de aprendizagem”, informa, em nota.