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Fernando Madeira
Caso Kauã e Joaquim

Empresário, pastor e suspeito de assassinato: a trajetória de Georgeval

Cabeleireiro paulista foi viciado em drogas antes de comandar três salões de beleza em São Paulo e uma igreja em Linhares. Hoje, enfrenta júri popular, acusado de matar o filho e o enteado

Natalia Bourguignon

Repórter

nbourguignon@redegazeta.com.br

Publicado em 19 de Abril de 2023 às 10:35

Publicado em

19 abr 2023 às 10:35
Georgeval Alves Gonçalves, acusado de violentar e matar o filho e o enteado, Joaquim e Kauã, enfrenta júri popular em Linhares
Georgeval Alves Gonçalves, acusado de violentar e matar o filho e o enteado, Joaquim e Kauã, enfrenta júri popular em Linhares Crédito: Arquivo AG/ Geraldo Neto
O paulista Georgeval Alves Gonçalves está no centro de uma das tragédias que mais impactaram o Espírito Santo em 2018. Um incêndio na casa onde ele dormia com o filho, Joaquim Alves Sales, de 3 anos, e o enteado, Kauã Sales Butkovsky, de 3 anos, causou a morte dos dois meninos. O quarto onde estavam as crianças foi tomado pelo fogo.
O caso aconteceu na madrugada do dia 21 de abril daquele ano. Georgeval, que na época era pastor de uma igreja evangélica, foi detido uma semana depois, em 28 de abril, e segue preso provisoriamente no Centro de Detenção Provisória de Viana 2 desde então. Ele é suspeito de ter abusado, agredido e colocado fogo nos meninos.
Até o momento, o pastor sempre negou as acusações e disse que o incêndio foi acidental. A defesa dele afirmou que só vai se manifestar no dia do Júri Popular, marcado para esta terça-feira, 18 de abril, no Fórum Desembargador Mendes Wanderley, em Linhares, após o julgamento marcado para o dia 3 deste mês ter sido suspenso.
Os acontecimentos que levaram um cabeleireiro paulista que virou pastor em Linhares a ser acusado de um crime brutal podem ser rastreados em depoimentos de amigos, da esposa dele na época do crime e de outros documentos que constam no processo judicial ao qual A Gazeta teve acesso.
Georgeval Alves, em vídeo, contou como abriu a Igreja Batista Vida e Paz, em Linhares
Georgeval Alves, em vídeo, contou como abriu a Igreja Batista Vida e Paz, em Linhares Crédito: Reprodução/ Youtube
O pastor George, como era conhecido em Linhares, cresceu em uma família pobre, com pais viciados em drogas, passou por orfanatos na infância, onde diz ter sofrido abuso sexual. Conheceu a ex-esposa em um curso para cabeleireiros e foi introduzido à igreja durante a venda de um carro.

Início da vida

Segundo documentos, Georgeval nasceu em março de 1981 em São Paulo (SP), tinha 36 anos na época do incêndio e tem 41 em 2023. Um psiquiatra forense contratado pela defesa dele no processo descreveu o relato de Georgeval durante a entrevista para elaboração de um laudo psicológico do pastor. Segundo esse especialista, Georgeval contou que cresceu sem dinheiro e que os pais, ambos usuários de drogas, se divorciaram quando ele tinha quatro anos.
"O pai foi morar na rua, arrumava algazarra, maltratava a família e se drogava. O genitor usava drogas desde os 13 anos e desencadeou esquizofrenia", disse sobre o pai ao médico.
A respeito da mãe, Georgeval contou que ela nunca foi presente durante seus anos de infância e que morreu em decorrência da Aids.
"A mãe após separação do genitor, uniu-se com um homem, o qual soube que era assaltante naquela época. Ela foi presa e veio a falecer na cadeia, por consequência da Síndrome da  Imunodeficiência Adquirida. Ele não teve contato com a mãe na infância, pois ela era usuária grave de drogas. Não se lembra do rosto dela."

Ouça o podcast de A Gazeta sobre o caso Kauã e Joaquim:

Georgeval contou que foi cuidado por um avô, que o levou para a Bahia e que, pouco depois,  morreu de tuberculose. Ele passou, então, aos cuidados de uma tia em São Paulo e, em seguida, foi para um orfanato. A passagem do pastor pelo orfanato também é narrada pela esposa dele na época, Juliana Sales Alves, em um depoimento para a Polícia Civil no dia 25 de maio de 2018.
“Georgeval contou para a declarante (Juliana) que teria sido abusado sexualmente no período que morou no orfanato; que Georgeval contou que morou em um orfanato durante sua infância e neste orfanato os homens responsáveis pelo orfanato praticavam Os atos, inclusive, os padres; que Georgeval chorou bastante enquanto contava”, diz a transcrição do depoimento.
Mais adiante, ela diz que, um tempo depois, quando ele se converteu à igreja, passou a afirmar que esse fato não o incomodava mais e a utilizá-lo, inclusive, em pregações.
Ainda sobre a infância do suspeito, a irmã de Juliana, quando foi questionado pelas autoridades sobre a trajetória familiar dele, disse que tinha ouvido de Georgeval que, após o tempo no orfanato, viveu “de casa em casa”, morando com parentes paternos.
Ele contou na entrevista ao psiquiatra que, na adolescência, consumiu maconha e cocaína. O uso de entorpecentes aparece no relato de vida de Georgeval no período da juventude, antes da sua conversão à Igreja Batista Vida e Paz. Esse ponto é citado por várias testemunhas.
Uma delas é o obreiro da Igreja Vida e Paz, posto entre pastor e fiel. Ele contou à polícia que ouviu de Georgeval que ele já tinha se envolvido com drogas, inclusive tráfico, e que teria cometido, no passado, crime de furto e roubo de carros.
Georgeval Alves foi ouvido pelo senador Magno Malta na CPI dos Maus Tratos realizada no Ministério Público do ES
Georgeval Alves foi ouvido pelo senador Magno Malta na CPI dos Maus Tratos realizada no Ministério Público do ES Crédito: Fernando Madeira
O assunto das drogas e dos crimes foi abordado também por Georgeval, depois de ter virado pastor, em pregação aos fiéis da igreja. Em vídeo postado nas redes sociais antes do incêndio, ele diz que fez "besteiras" muito graves durante a vida.
“Quem me conhece sabe quem eu fui, o que eu já fiz, a quantidade de besteira que eu fiz na minha vida, algumas muito graves, são coisas que me fizeram muito mal. E hoje eu estou mudado, hoje habita o Espírito Santo em mim”, diz em vídeo.

Relacionamento com Juliana

Juliana e Georgeval se conheceram cerca de cinco anos antes do incêndio em um evento para cabeleireiros em Vitória. George, nessa época, era técnico em coloração capilar. Em três dias, ambos terminaram seus relacionamentos anteriores; 27 dias depois, Juliana se mudou com Georgeval para São Paulo, levando Kauã, filho de um relacionamento anterior.
Antes de Juliana, Georgeval foi casado com uma mulher por dez anos, com quem teve um filho, com quem ele disse ter bom relacionamento.
Georgeval Alves Gonçalves e Juliana Sales: casal trabalhava em salão como cabeleireiro
Georgeval Alves Gonçalves e Juliana Sales: casal trabalhava em salão como cabeleireiro Crédito: Reprodução
Em São Paulo, segundo relatos de pessoas próximas ao casal, George e Juliana chegaram a administrar três salões de beleza.

Mudança para Linhares

Em uma visita aos sogros, em Linhares, Georgeval se encontrou com um pastor da igreja do pai de Jualiana. Do religioso, ele ouviu uma profecia de que teria um futuro promissor na igreja e assinaria um papel importante na cidade. Esse teria sido o estopim para que ele decidisse se mudar.
Georgeval Alves e Juliana Sales foram doar material genético para os testes de DNA no DML de Vitória para identificar corpos de Joaquim e Kauã
Georgeval Alves e Juliana Sales foram doar material genético para os testes de DNA no DML de Vitória para identificar corpos de Joaquim e Kauã Crédito: Marcelo Prest
Algum tempo depois, Georgeval colocou um anúncio na OLX para vender um carro e foi contactado por um pastor da Igreja Batista Vida e Paz, que demonstrou interesse em comprar o veículo.
Após fechar o negócio, o comprador convidou George e a esposa para um retiro da igreja. Em seguida, o então cabeleireiro, que tinha se mudado para Linhares para abrir um salão e ficar mais perto da família da esposa, resolveu abrir uma “célula” da igreja dentro do estabelecimento.
Pouco depois, o salão virou uma unidade da Igreja Batista Vida e Paz em Linhares. Até então a denominação só existia em Governador Valadares, Minas Gerais.
A igreja cresceu em Linhares, angariando muitos fiéis, principalmente pessoas bem jovens. A arrecadação, contudo, era baixa, conforme Juliana falou em depoimento.  Na denúncia apresentada à Justiça, o Ministério Público apontou que a igreja passava por dificuldades financeiras. O casal, que vivia só desses recursos, via faltar alguns itens em casa.
Georgeval Alves, conhecido como pastor George, preso no Centro de Detenção Provisória de Viana II
Data: 24/05/2018 - Georgeval Alves, conhecido como pastor George, preso no Centro de Detenção Provisória de Viana II Crédito: Reprodução
A falta de fiéis e a consequente falta de recursos da igreja seria, segundo o MP, um dos motivos que teria levado Georgeval a usar a morte do filho e do enteado a seu favor.
"Em alguns cultos anteriores ao incêndio, o 'Pastor George' pregava que apenas o fogo purificava as almas, inclusive já advertia os fiéis de que poderia sofrer 'perseguições'. Nas pregações feitas pelo denunciado, verifica-se que o seu intento é atrair multidão e dominar Linhares. E, após o fato, o denunciado convoca fiéis para o 'culto sobrenatural', utilizando-se dos próprios crimes para receber doações e visibilidade na mídia", diz a denúncia.
Depois da denúncia e, principalmente da prisão do pastor, muitas pessoas se afastaram. Contudo, ele continuou durante anos a receber visita da irmã de Juliana e do marido dela. Os dois pararam de ir ao presídio para ver George há cerca de oito meses, porque se mudaram. Além disso, pastores da Igreja Vida e Paz também têm contato com George. Na cadeia, ele ainda faz pregações para os demais detentos da unidade onde está detido.

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