Quando uma tragédia da proporção do terremoto que atingiu Turquia e Síria acontece, nós, brasileiros, temos a tendência de vê-la com distanciamento. Afinal, fomos ensinados que, no Brasil, não acontecem terremotos e que aqui estamos a salvo dessa força da natureza. Mas não é exatamente assim. O país, tem sim, registros de abalos sísmicos, inclusive no Espírito Santo, e levantam questionamentos sobre o que parecia ser uma verdade absoluta.
De 2014 para cá, ocorreram 27 tremores de terra no Estado, de acordo com dados do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB), provavelmente por reativação das falhas geológicas, espécie de fissuras em blocos rochosos.
O mais recente foi em 2021, no município de Pancas, Região Noroeste capixaba. Na ocasião, moradores chegaram a relatar fissuras nas paredes por causa do tremor.
Como mostrado pela TV Gazeta na época, um tremor considerado fraco, de magnitude 1.4, foi o suficiente para derrubar itens das prateleiras e transformar um trinco na parede de uma casa em um buraco, de onde era possível ver o lado de fora da casa.
Já em 2020, houve dois abalos sísmicos, o primeiro em Ecoporanga, na Região Norte, no dia 24 de fevereiro, com 1.8 de magnitude; e o segundo, de maior escala, aconteceu no dia 17 de maio, na Plataforma Continental do Espírito Santo, ou seja, a 350 milhas (563 km), também na altura do Norte capixaba.
Veja abaixo os tremores registrados no Estado na última década:
Os tremores de terra no Espírito Santo nos últimos anos estão longe dos 7.8 de magnitude registrados na Turquia. Porém Vitória tem em seu histórico um terremoto que chegou a registrar 6.1 pontos, considerado o terceiro maior em intensidade do Brasil.
Em 1955, moradores de Vitória, Cariacica, Vila Velha, Guarapari e Colatina viveram momentos de pânico. Um tremor, que aconteceu a 300 quilômetros da costa do Espírito Santo, foi sentido nos municípios. O abalo chegou à magnitude de 6,1. Foi tão grande que acordou moradores e sacudiu portas e janelas das casas. A Gazeta cobriu o ocorrido na época.
Outro lugar com registros de abalos sísmicos fica a mais de 1,2 mil quilômetros de distância da costa de Vitória: a Ilha da Trindade, que surgiu há mais de 3 milhões de anos, por causa de atividade vulcânica.
Para entender como acontecem os tremores e qual o risco do país — mais especificamente o Espírito Santo — sofrer com um desastre, A Gazeta conversou com a doutora em Geologia e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Luiza Bricalli.
Se acontecem terremotos no ES, como não sentimos?
Na verdade, alguns são sentidos sim, como ocorreu em Vitória, em 2020, e em Pancas, em 2021, como lembra Luisa. "O fato de sentir ou não os tremores está relacionado, primeiramente, à magnitude do terremoto; depois, à profundidade de ocorrência do terremoto. Quando ocorrem em profundidades mais rasas, geralmente são sentido pela população”, explica a cientista.
Luiza lembra que muitos acontecem em áreas pouco habitadas e, por isso, podem não ser percebidos. “Tem relação com a densidade populacional de onde ocorre o abalo sísmico. Quando ocorrem em locais pouco habitados, há poucos relatos, pois não tem população para sentir e relatar os tremores, diferentemente quando ocorrem em locais com alta densidade populacional.”
Há chances de um terremoto de grandes proporções atingir o ES?
Antes de responder, é preciso entender o que é um terremoto e como ele ocorre. Geralmente, acontecem em uma zona onde há uma grande falha geológica ou em locais de encontro de placas, devido aos movimentos da crosta terrestre. No caso da Turquia, houve o choque de placas tectônicas.
"A chance de acontecer um terremoto no Espírito Santo com a magnitude do que ocorreu na Turquia, de 7.8, é mínima, uma vez que o Estado está longe do limite da placa tectônica, onde os tremores ocorrem com magnitudes altas, como é o caso da Turquia. Lá, o terremoto ocorreu no Sudeste do país, região próxima ao limite de placas tectônicas, onde acontecem abalos sísmicos de altas magnitudes e onde existe uma falha geológica importante", destaca a cientista.
Tem como prever quando um terremoto vai acontecer?
Infelizmente, não, segundo Luiza. Muitas pesquisas foram e são desenvolvidas para tentar algum grau de antecipação a essas catástrofes, mas ainda não é possível prevê-las. Ela pontua que o motivo tem a ver com as particularidades de cada local. "Não tem como prever a ocorrência de terremotos devido à dinâmica e a peculiaridades geológicas de cada região. O que pode ser considerado é que, em regiões de limites de placas tectônicas, as magnitudes dos terremotos, geralmente, são mais altas."
Os terremotos são registrados por sismógrafos, instrumentos que registram os movimentos do solo. Esses equipamentos são constituídos por um sismômetro, um transdutor que percebe os movimentos do solo e um registrador.
O território brasileiro tem um sistema para pesquisa e detecção de terremotos, que consegue captar tremores do mundo inteiro. São mais de 100 aparelhos, que ficam espalhados por todos os Estados.
Mas a professora da Ufes mais uma vez tranquiliza: "É importante mencionar que terremotos podem ocorrer no Espírito Santo e em todo Brasil, mas, geralmente, com magnitudes baixas, porque o país localiza-se longe de um limite de placa tectônica. Geralmente não causam danos à população".
Afinal, o que são falhas geológicas?
Como explicou a cientista, o Brasil fica localizado no centro da placa tectônica sul-americana e, por isso, tremores de grande magnitude são raros por aqui. Ao todo, a litosfera — camada mais externa do planeta — é dividida em 14 placas tectônicas principais e 38 menores. Todas elas estão em movimento o tempo todo e, desse deslocamento, surgem as falhas geológicas, que podem ser a origem de alguns tremores, inclusive no Brasil.
"A Região Nordeste do Brasil é a região sismicamente mais ativa do país, pois as falhas geológicas na área são muito ativas, causando acúmulo de estresse e liberação na forma de evento sísmico. Em outros locais do país, a reativação é um pouco diferente, apesar de também existirem falhas geológicas reativadas, assim como ocorre no Estado do Espírito Santo, por exemplo", ressaltou Luiza.
Um jeito de ilustrar é pensar nas falhas como feridas nas placas tectônicas que não cicatrizaram. Quando falamos de uma falha geológica reativada, é como se essas feridas abrissem. E, se nos EUA está a falha mais conhecida do mundo — a de San Andreas —, no Brasil, a maior é a falha de Samambaia, localizada no Rio Grande do Norte.
O Espírito Santo está cercado por algumas dessas falhas. No portal do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), é possível acessar o Sistema de Informação Geográfica (SIG) do Mapa Tectônico da América do Sul. Ele é digital e interativo e, com um zoom, dá para ver de perto uma região específica. Veja mais clicando aqui.