Georgeval diz que não entrou em quarto de Kauã e Joaquim durante fogo
Laudo médico
Georgeval diz que não entrou em quarto de Kauã e Joaquim durante fogo
Em nova versão sobre o incêndio, pastor afirmou que, por vergonha da maneira como tinha agido, mentiu à polícia em depoimento sobre ter tentado salvar meninos do incêndio
O pastor Georgeval Alves Gonçalves disse que não entrou no quarto das crianças durante o incêndio nem tateou a beliche onde dormiam Kauã Sales Butkovski e Joaquim Alves Sales quando percebeu que o cômodo pegava fogo. Em nova versão, dada em março deste ano, ele afirma que não chegou a entrar no quarto das crianças, apenas viu o fogo e saiu para buscar ajuda.
Segundo ele, por vergonha da maneira como tinha agido, mentiu à polícia em depoimento quando afirmou que tentou salvar o filho e o enteado.
Georgeval é acusado de ter violentado sexualmente, torturado e colocado fogo nas crianças em 21 de abril de 2018.
Equipes do Corpo de Bombeiros e da Polícia Civil periciaram por mais de uma vez a casa de Georgeval Alves após um incêndio em dos quartos que vitimou Kauã e JoaquimCrédito: Imagem TV Gazeta
Ouça o podcast 'Madrugada de terror: a morte de Kauã e Joaquim'
Podcast Madrugada de terror: a morte de Kauã e Joaquim conta em três episódios tudo que se sabe sobre a tragédia que vitimou os meninos e tornou o pastor Georgeval, padrasto e pai das crianças, respectivamente, como suspeito de assassinato. Ouça a história aqui.
A declaração com a nova versão dos fatos consta em um documento obtido por A Gazeta que detalha entrevistas feitas com o pastor por especialistas da psicologia e psiquiatria em março deste ano. O documento é um dos que a defesa de Georgeval tentou incluir no processo na terça-feira da última semana, junto com 89 links de reportagens e um CD com um filme, e que foi recusado pelo juiz por conta da aproximação do dia do Júri Popular, que estava agendado para iniciar na última segunda-feira (3).
Esse documento, portanto, ainda não foi incluído como prova, apesar de estar dentro dos volumes processuais. Como o julgamento foi adiado para o dia 18 de abril, é possível que a defesa do pastor tente novamente incorporá-lo.
“O Sr. Georgeval reconheceu que naquele momento teve a incapacidade de adentrar ao fogo e tentar salvar seus filhos, sabendo que morreria queimado e pela dificuldade respiratória própria de doença crônica pulmonar, que continua tratando. Ele quando bateu a mão na porta e viu o incêndio, correu para pedir ajuda”, diz o laudo assinado pelo médico psiquiatra forense Hewdy Lobo Ribeiro e pela psicóloga forense Elise Karam Trindade.
Eles foram contratados pelo advogado Pedro Ramos, que faz a defesa de Georgeval atualmente, para que fizessem uma avaliação psicológica e psiquiátrica do acusado.
Durante as entrevistas feitas por videoconferência, já que Georgeval está preso em Viana desde maio de 2018, o pastor contou que foi orientado dentro da delegacia a falar que tinha tentado salvar as crianças. Ele não diz, contudo, se foi por algum policial ou alguma das pessoas que o estavam acompanhando durante o depoimento.
Há no laudo um questionamento sobre o porquê Georgeval teria alegado que se queimou durante o incêndio, mas que depois foi comprovado que não havia qualquer ferimento causado pelas chamas.
Quanto a isso, o documento aponta que Georgeval se explicou, alegando que foi induzido a falar que se feriu e que “não foi covarde, que não foi negligente”. Aos profissionais, ele teria afirmado que não sabe dizer se foi covarde ao não entrar no quarto em chamas ou se tentou preservar a própria vida. Ele diz ainda que se arrepende de ter mentido e que foi mal orientado naquele momento.
Joaquim e Kauã, de 3 e 6 anos, que morreram num incêndio na casa onde moravam, em LinharesCrédito: Arquivo Pessoal
Versão inicial do pastor foi confrontada por evidências periciais
Poucos dias depois do incêndio, Georgeval contou à polícia e também em entrevistas concedidas à imprensa que por volta das 2 horas da madrugada acordou ouvindo gritos de “Pai! Pai!” pela babá eletrônica.
Ele afirmou, até então, que tinha visto as chamas pelo visor da babá eletrônica e corrido até o quarto dos meninos. Lá, ele dizia ter empurrado a porta e tateado no escuro até encostar na beliche onde dormiam as crianças. Sem conseguir alcançá-las, correu para a rua para buscar ajuda.
No novo relato, ele muda outro detalhe em relação ao primeiro depoimento. Agora, diz não saber se o que o despertou foi a voz das crianças na babá eletrônica ou o cheiro da fumaça.
A Gazeta colocou lado a lado as versões do dia do incêndio contadas por Georgeval na época dos fatos e aquela montada pelas autoridades policiais através das perícias. Veja no infográfico abaixo.
Procurada, a defesa de Georgeval enviou outro laudo do psiquiatra forense Hewdy Lobo Ribeiro sobre os eventos ocorridos na madrugada de 21 de abril de 2018.
Veja o que diz o laudo médico
“O acusado está sendo julgado pela conduta, eis que alguns esperavam, que ele entrasse no quarto e, num ato heroico, salvasse as crianças; ou que com elas morresse queimado tentando salvá-las.
Segundo uma corrente da psicologia, existem quatro reações em casos semelhantes: a fuga; a inércia; a ação; o desmaio.
Nesse caso, sendo perigo extremo, diante do fogo que tudo consumia, a resposta do Sr. Georgeval foi a fuga, pois sabia que era incapaz de salvar os filhos e, ainda, temeu pela sua própria vida, em situação também de inviabilidade de enfrentamento mínimo, pelo fato de ter doença respiratória, continuamente tratada, com sensibilidade extrema, pela inspiração de fumaça, fuligem e demais produtos inaláveis do incêndio.”
Os advogados do pastor acrescentam: "Dessa forma, subscrevemos e ratificamos integralmente o laudo médico do Dr. Hewdy Lobo Ribeiro, cientes de que toda e qualquer controvérsia será exaurida pela Defesa em plenário, a respeito do caso posto em julgamento".