Uma enxurrada de lama que matou 19 pessoas, soterrou o vilarejo de Bento Rodrigues, destruiu outras cidades e afetou dezenas de
comunidades ao longo dos mais de 600 quilômetros até chegar ao mar, no Espírito Santo. Levantamento do Ministério Público Federal (MPF) aponta que 41 cidades foram afetadas em Minas Gerais e no Espírito Santo, três reservas indígenas foram atingidas, houve degradação em 240,88 hectares de Mata Atlântica (cada hectare equivale a um campo de futebol). Foram coletados 14 toneladas de peixes mortos.
Informações do
Ministério Público Federal (MPF) apontam que o rompimento ocorreu por volta das 15h30. A onda de rejeitos atingiu o Córrego de Fundão e o Córrego Santarém. Em seguida atingiu o Rio Gualaxo do Norte. A enxurrada de rejeitos percorreu 55 km até desaguar no Rio do Carmo, onde andou mais 22 km até atingir o Doce. Todos ainda em Minas Gerais.
Ainda segundo
informações do MPF, a lama de dejetos seguiu pela calha do Rio Doce. No trecho do Espírito Santo, atingiu Baixo Guandu, Colatina e Linhares, onde está a sua foz. “À medida que a lama avançava, sua força inicial foi dissipando, gerando, nesse trajeto, danos associados à poluição hídrica, mortandade de animais e à interrupção do abastecimento e distribuição de água em vários municípios”, diz o texto em seu site.
Cinco anos depois, a imagem registrada pelo satélite Sentinel-2A, no dia 27 de outubro deste ano, mostra que a coloração ou turbidez do Doce já não está tão vermelha como nos momentos logo após o rompimento da barragem.
De acordo com Julio Teixeira, as imagens registradas pelos satélites revelam o que aconteceu com o rio naquele espaço de tempo. “Mostram que houve mudança no aspecto da água”, explica. Analista de dados, ele é proprietário da empresa “Mais que dados”, que utiliza as imagens de satélite para análises de precisão voltadas à agricultura, e realizou a pesquisa do material para a reportagem.
Alex Bastos, geólogo e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), explica que a redução da turbidez (aumento da transparência da água) do Rio Doce não pode ser interpretada diretamente como uma melhora do rio, ou que
esteja livre de contaminação ou poluição, ou que a biodiversidade não continua sendo afetada. “A turbidez não chega aos níveis de 2015, quando ocorreu o rompimento da barragem e foi uma situação específica, mas pode ficar elevada em função do que ainda existe de rejeito ao longo dele e por chuva forte”, observa.
Ele observa que após o desastre ambiental, a coloração do rio foi afetada pelos dejetos da mineração. Após cinco anos, com as chuvas e cheias do rio, parte do material foi seguindo para o mar e parte dele sedimentou no fundo do rio e em suas margens. “Quando chove, se observa uma mudança na coloração, o que ocorre enquanto tiver rejeito no fundo, ou na margem”.
Segundo Bastos,
a lama de dejetos da mineração teve um impacto diferente quando chegou ao mar. “Na foz a lama passa a ter contato com a salinidade, o comportamento dos metais muda, mudam os processos químicos. Muito ferro, por exemplo, no mar, não é muito bom”, pontua. Também se observou, segundo Bastos, uma tendência de transporte do material ao longo da costa Norte, até a região de Degredo.
A CTBio é subordinada ao Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio) e ao Comitê Interfederativo (CIF). A nota técnica foi produzida a partir da avaliação do relatório anual (2018 a 2019) do Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA), da área ambiental I, na porção capixaba do Rio Doce e região marinha e costeira adjacente.
O documento aponta ainda que é “extremamente necessária a continuação dos estudos do para acompanhamento da evolução espacial e temporal destes impactos identificados.” Acrescenta ainda que, em muitos pontos amostrais e períodos de avaliação, foi evidenciado “importantes variações espaciais e temporais, que exigem um monitoramento constante, permanente e aprimorado”.
Destaca ainda que a “análise de amostras de água e sedimento de diferentes pontos do rio Doce aponta que a turbidez e a presença de metais na água registram médias semelhantes às do início de 2015 e que as condições da bacia são similares às de antes do rompimento da barragem de Fundão”. Diz ainda que a “comparação é possível porque, anteriormente, a qualidade das águas era analisada pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), que iniciou o monitoramento em 1997”
Assinala ainda que o “rejeito não é tóxico, contendo essencialmente elementos do solo (rico em ferro, manganês e alumínio), sílica (areia) e água. O sedimento foi caracterizado como não perigoso em todas as amostras, segundo critérios da Norma Brasileira de Classificação de Resíduos Sólidos”, diz em nota.