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Imagens de satélite mostram Rio Doce antes e após desastre ambiental

Fotos mostram impacto causado pela lama de rejeitos de mineração, que atingiu o Rio Doce após rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração, em 2015

Vilmara Fernandes

Colunista

vfernandes@redegazeta.com.br

Publicado em 05 de Novembro de 2020 às 09:16

Publicado em

05 nov 2020 às 09:16
No dia 5 de novembro de 2015, um pouco antes das 13 horas, o satélite Landsat, fez um dos últimos registros do Rio Doce antes da tragédia que afetou a sua biodiversidade. Horas depois, houve o rompimento da Barragem de Fundão, da empresa Samarco, na cidade mineira de Mariana.
A imagem abaixo mostra a situação do rio naquele momento, ainda com a cor azulada. Antes do fim do dia chegar, ele foi atingido por cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração que desceram o vale. Posteriormente outros 16 milhões de metros cúbicos continuaram escoando lentamente.
Uma enxurrada de lama que matou 19 pessoas, soterrou o vilarejo de Bento Rodrigues, destruiu outras cidades e afetou dezenas de comunidades ao longo dos mais de 600 quilômetros até chegar ao mar, no Espírito Santo. Levantamento do Ministério Público Federal (MPF) aponta que 41 cidades foram afetadas em Minas Gerais e no Espírito Santo, três reservas indígenas foram atingidas, houve degradação em 240,88 hectares de Mata Atlântica (cada hectare equivale a um campo de futebol). Foram coletados 14 toneladas de peixes mortos.
A enxurrada de lama alcançou a foz do Rio Doce, em Linhares, no dia 21 e novembro, dezesseis dias após o desastre ambiental. A foto abaixo, feita pelo Landsat no dia 7 de dezembro de 2015, mostra o rio completamente tomado pela pluma de rejeitos de mineração.
Informações do Ministério Público Federal (MPF) apontam que o rompimento ocorreu por volta das 15h30. A onda de rejeitos atingiu o Córrego de Fundão e o Córrego Santarém. Em seguida atingiu o Rio Gualaxo do Norte. A enxurrada de rejeitos percorreu 55 km até desaguar no Rio do Carmo, onde andou mais 22 km até atingir o Doce. Todos ainda em Minas Gerais.
Ainda segundo informações do MPF, a lama de dejetos seguiu pela calha do Rio Doce. No trecho do Espírito Santo,  atingiu Baixo Guandu, Colatina e Linhares, onde está a sua foz. “À medida que a lama avançava, sua força inicial foi dissipando, gerando, nesse trajeto, danos associados à poluição hídrica, mortandade de animais e à interrupção do abastecimento e distribuição de água em vários municípios”, diz o texto em seu site.
Cinco anos depois, a imagem registrada pelo satélite Sentinel-2A, no dia 27 de outubro deste ano, mostra que a coloração ou turbidez do Doce já não está tão vermelha como nos momentos logo após o rompimento da barragem.
De acordo com Julio Teixeira, as imagens registradas pelos satélites revelam o que aconteceu com o rio naquele espaço de tempo. “Mostram que houve mudança no aspecto da água”, explica. Analista de dados, ele é proprietário da empresa “Mais que dados”, que utiliza as imagens de satélite para análises de precisão voltadas à agricultura, e realizou a pesquisa do material para a reportagem.

MUDANÇA NA COR DA ÁGUA NÃO É AUSÊNCIA DE CONTAMINAÇÃO

Alex Bastos, geólogo e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), explica que a redução da turbidez (aumento da transparência da água) do Rio Doce não pode ser interpretada diretamente como uma melhora do rio, ou que esteja livre de contaminação ou poluição, ou que a biodiversidade não continua sendo afetada. “A turbidez não chega aos níveis de 2015, quando ocorreu o rompimento da barragem e foi uma situação específica, mas pode ficar elevada em função do que ainda existe de rejeito ao longo dele e por chuva forte”, observa.
O professor é coordenador da Rede Rio Doce Mar (RRDM), que reúne 26 instituições, incluindo universidades federais brasileiras, e que realiza o monitoramento do impacto causado na biodiversidade aquática em ambientes continentais (rios, estuários, lagos) e marinhos (praias, costa e mar), pelo rompimento da barragem. Estudo garantido após decisão judicial, uma vez que a Fundação Renova rompeu o contrato com os pesquisadores.
Ele observa que após o desastre ambiental, a coloração do rio foi afetada pelos dejetos da mineração. Após cinco anos, com as chuvas e cheias do rio, parte do material foi seguindo para o mar e parte dele sedimentou no fundo do rio e em suas margens. “Quando chove, se observa uma mudança na coloração, o que ocorre enquanto tiver rejeito no fundo, ou na margem”.
Segundo Bastos, a lama de dejetos da mineração teve um impacto diferente quando chegou ao mar. “Na foz a lama passa a ter contato com a salinidade, o comportamento dos metais muda, mudam os processos químicos. Muito ferro, por exemplo, no mar, não é muito bom”, pontua. Também se observou, segundo Bastos, uma tendência de transporte do material ao longo da costa Norte, até a região de Degredo.

CONTAMINAÇÃO E TOXICIDADE ACIMA DOS PADRÕES

A  Nota Técnica 15/2020, da Câmara Técnica de Conservação e Biodiversidade (CTBio), com data de agosto e divulgada nas últimas semanas, aponta que nos diversos ambientes pesquisados no Doce, “os índices de contaminação e/ou toxicidade ultrapassaram, nas diversas matrizes ambientais, os valores preconizados nas legislações específicas”.
A CTBio é subordinada ao Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio) e ao Comitê Interfederativo (CIF). A nota técnica foi produzida a partir da avaliação do relatório anual (2018 a 2019) do Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA), da área ambiental I, na porção capixaba do Rio Doce e região marinha e costeira adjacente.
A nota foi feita a partir do relatório apresentado pelos pesquisadores da Rede Rio Doce Mar, no final do ano passado. De acordo com o documento, foram analisados os três ambientes: dulcícola (água doce), costeiro e marinho. Sobre os resultados, informaram: “Apresentaram transformações negativas significativas em relação à situação pré-rompimento da barragem de Fundão, nos diferentes compartimentos ambientais (sedimentos, água, biota associada)”.
Foram relatados indícios e/ou evidências de estresse ambiental nestes três compartimentos, alterações nas suas composições, bem como a prevalência de espécies oportunistas.
O documento aponta ainda que é “extremamente necessária a continuação dos estudos do para acompanhamento da evolução espacial e temporal destes impactos identificados.” Acrescenta ainda que, em muitos pontos amostrais e períodos de avaliação, foi evidenciado “importantes variações espaciais e temporais, que exigem um monitoramento constante, permanente e aprimorado”.

RENOVA: ÁGUA PODE SER CONSUMIDA

Por nota a Fundação Renova informa que a água do rio Doce pode ser consumida após passar por tratamento convencional em sistemas municipais de abastecimento. “É o que indicam os mais de 3 milhões de dados gerados anualmente pelo maior sistema de monitoramento de cursos d’água do Brasil”.
Acrescenta que o sistema foi criado pela Fundação Renova em 2017 para monitorar a bacia do Rio Doce, além de zona costeira e estuarina. “Todas as informações geradas sobre as condições do rio são compartilhadas com os órgãos públicos que regulam e fiscalizam as águas do Brasil.”
Destaca ainda que a “análise de amostras de água e sedimento de diferentes pontos do rio Doce aponta que a turbidez e a presença de metais na água registram médias semelhantes às do início de 2015 e que as condições da bacia são similares às de antes do rompimento da barragem de Fundão”. Diz ainda que a “comparação é possível porque, anteriormente, a qualidade das águas era analisada pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), que iniciou o monitoramento em 1997”
Em relação ao rejeito existente no fundo do rio, a Renova relata que mais de 80 especialistas foram reunidos para desenvolver o Plano de Manejo de Rejeitos. “Um conjunto das soluções que prioriza o tratamento do rejeito no rio e seu entorno, sem que ele seja retirado, o que causaria um impacto ambiental ainda maior”.
Assinala ainda que o “rejeito não é tóxico, contendo essencialmente elementos do solo (rico em ferro, manganês e alumínio), sílica (areia) e água. O sedimento foi caracterizado como não perigoso em todas as amostras, segundo critérios da Norma Brasileira de Classificação de Resíduos Sólidos”, diz em nota.
E que as pesquisas que monitoram o solo diretamente atingido pelo rejeito desde 2015 “mostraram que não há limitações ou riscos para o plantio em propriedades atingidas pelo rejeito da barragem de Fundão e que receberam ações de reparação”.
Foz do Rio Doce, em Linhares, feita pelo Satélite Landsat/Nasa, no dia 13.10.2015. Mostra a situação do rio antes do rompimento da barragem de Fundão, da empresa Samarco, em Mariana (LSC8_215-74_2015-OCT-13_RGB_432)
Foz do Rio Doce, em Linhares, em  13.10.2015, antes do desastre ambiental  Crédito: Satélite Landsat/Nasa

Imagens de satélite

Foram usadas nesta reportagem imagens do Landsat, satélite da Nasa. A órbita deste satélite é quinzenal, o que significa que ele retornar ao mesmo ponto a cada 15 dias. Registra fotos com dimensões de 170km x 170km. Também foram utilizadas imagens do Sentinel 2a, satélite de observação da União Europeia. Lançado no final de 2015, as imagens dele começaram a ser disponibilizadas em 2016. Tem órbita de 5 dias e fotos com dimensão de 100km x 100km. Para os dois satélites, houve correções para reduzir efeitos da atmosfera, informa o analista de dados Julio Teixeira. Além das imagens tradicionais, foram feitas ainda versões utilizando false color com infravermelho, técnica utilizada dentro do sensoriamento remoto para ressaltar detalhes da superfície como a vegetação, rios e lagos. É a imagem em que a terra aparece avermelhada.

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