Internada desde novembro, a professora Aristênia Torres Mancini Martins, de 51 anos, uma das sobreviventes do atentado a escolas em Aracruz, já ganhou um dos melhores presentes de Natal possíveis: a própria vida. Embora precise comemorar a data no hospital este ano, longe da família, ela afirma se sentir grata por ter "nascido de novo".
"Gostaria muito de estar com minha família amada, mas sei que não é possível. Então, estou feliz por estar sendo bem cuidada, com a 'família' que construímos aqui. Muitíssimo feliz porque Deus é perfeito o tempo todo e me presenteou com a Vida", afirmou.
Durante o ataque, que completa um mês no próximo domingo (25), Aristênia levou pelo menos seis tiros: dois no pulso direito, no pé, um na barriga, nas costas e clavícula. Apesar de não ter ficado com nenhum órgão comprometido, ela está com dificuldades de andar, devido ao disparo no pé.
"Eu não tive coragem até agora de perguntar quantos tiros levei. Na clávicula ainda tá alojado. Acho que também levei um tiro de raspão"
A docente chegou a ficar internada cinco dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Estadual Dr. Jayme dos Santos Neves, na Serra, em estado grave, mas evoluiu para o quadro estável.
"Quando vi minha filha e meu marido, foi uma alegria muito grande. Eu não podia falar, porque estava com um tubo na boca. Eu ouvia eles falando 'vai ficar tudo bem'. Cada conquista, cada evolução, um momentinho que eu melhorava, era uma comemoração muito grande", destacou Aristênia.
Saudade que aperta
Além da família, a professora de Língua Portuguesa afirmou à reportagem do g1 ES sentir muita falta do cachorro, o pastor alemão Kenai. Por serem muito grudados, segundo ela, o animal mudou de comportamento no mesmo dia do ataque, como se presentisse que algo tivesse acontecido com Aristênia.
"Meu marido disse que, no dia do ataque, ele entrou na varanda e deitou perto da cadeira onde eu sento para fazer crochê, um tempinho, quando eu estou lá", comentou.
"No dia seguinte, ele começou a passar mal, não comia nada. Meu marido disse que isso foi a semana toda. Depois, eu consegui mandar um áudio que o meu marido colocou alto perto do Kenai. Eu dizia 'Pega a bolinha, meu filho'. E meu marido disse que ele, em casa, foi lá e pegou a bolinha, ficou mais feliz", disse.
Dia do ataque
No dia 25 de novembro, ainda no local do crime, duas professoras e uma estudante perderam a vida. Depois, durante a tarde de sábado (26), a quarta vítima, também docente, morreu. Ela chegou a passar por uma cirurgia no Hospital Estadual Doutor Jayme dos Santos Neves, na Serra, mas não resistiu.
"As coisas que lembro são um pouco confusas. Misturas de várias coisas que ainda não são tão claras. Lembro do impacto, do choro. Foi um momento de muito desespero. Também lembro de sangue, muito sangue. Uma coisa muita ruim que ainda está na minha mente ainda é o cheiro do sangue", relembrou.
Conforme lembra, Aristência tentou se manter acordada durante todo o momento do socorro, mas acabou desmaiando dentro da ambulância e acordando apenas dias depois.
"Teve um momento que eu falei 'para, pelo amor de Deus'. Depois disso tudo, lembro do barulho do silêncio, por mais que pareça um contraste impossível de existir. Tudo isso foi muito rápido, a correria dos outros professores, dos outros funcionários"
Natal diferente
Distante de casa, mas com o coração cheio de esperança, a professora pediu por mais respeito e amor entre as pessoas neste Natal e que mais nenhuma outra vida seja perdida de forma brutal. Para ela, o verdadeiro significado da data é a aproximação com Deus e com as mensagens de fé e renovação.
"Que seja um Natal de valorização à vida, a todas as vidas, independente de raça, cor, religião, idade. Todas as vidas são importantes. Que seja um Natal de reflexão e que o ser humano tenha mais humanidade, que parece que tá sendo perdida, endurecida. Que não se tire a vida injustamente de ninguém e nem da forma como foi tirada", completou.
Com informações de Viviann Barcelos, do g1 ES