Um laudo psiquiátrico e psicológico encomendado pela defesa do pastor Georgeval Alves Gonçalves, acusado de matar o filho e o enteado em um incêndio em Linhares, apontou que ele não é psicopata e também não tem “perfil pessoal de autor dos crimes de homicídio, tortura e abuso sexual”.
O laudo é assinado pelo psiquiatra forense Hewdy Lobo Ribeiro, responsável por análises de outros acusados “famosos”, como a ex-deputada federal Flordelis, condenada por matar o marido; e Adélio Bispo, responsável pela facada que feriu gravemente o ex-presidente Jair Bolsonaro durante a campanha em 2018.
No caso de Flordelis, ele detectou cinco transtornos mentais, mas descartou a psicopatia. Já em Adélio foi identificado que ele é acometido por um quadro "distúrbios que alteram sua percepção da realidade".
O documento encomendado pelos advogados de Georgeval tem o objetivo de analisar se o pastor tem características psicológicas compatíveis com uma pessoa que cometeria os crimes pelos quais ele é acusado. No caso de Georgeval, esses crimes são: estupro de vulnerável, tortura e assassinato cometido contra o filho, Joaquim Alvez Sales, e contra o enteado, Kauã Sales Butkoviski.
Kauã e Joaquim: psiquiatra dos casos Adelio e Flordelis avaliou Georgeval
É importante ressaltar que esse laudo não foi incluído no processo. O advogado Pedro Ramos tentou incluir o documento nos autos na terça-feira da última semana, junto com 89 links de reportagens e um CD com um filme. Mas o pedido foi recusado pelo juiz por conta da aproximação do dia do Júri Popular.
Georgeval foi entrevistado pelo médico e a equipe durante quatro horas em dois dias diferentes, em 10 e 23 de março desde ano. A última entrevista aconteceu oito dias antes da data agendada para o júri popular, que estava marcado para esta segunda-feira (3), mas foi adiado. As entrevistas foram feitas de forma online, já que Georgeval está preso no Centro de Detenção Provisória 2, em Viana, e a clínica de perícia tem sede em São Paulo.
“De acordo com os dados objetivos levantados através dos testes psicológicos e escalas, foi possível constatar que o Sr. Georgeval não apresenta transtornos de personalidade e, tampouco características positivas e compatíveis com psicopatia, narcisismo e histrionismo”, diz o laudo.
Durante as entrevistas, Georgeval falou sobre o dia do incêndio e deu uma versão diferente do que havia relatado na ocasião. Aos especialistas, revelou que não tentou salvar o filho e o enteado das chamas, segundo ele, por “covardia” ou medo de morrer queimado.
O médico psiquiatra e a psicóloga forense que também assina o documento, Elise Karam Trindade, apontam que ele tem humor estável e que chora ao falar da morte dos meninos.
Nas entrevistas, é apontado como sendo colaborativo, dando respostas coerentes, mesmo quando formuladas de maneira diferente.
“Funções cognitivas de memória, atenção, concentração e capacidade de interpretação preservadas e compatíveis com o nível cultural. Respostas objetivas que contemplam os conteúdos das perguntas, sem características de evasão ou desvio do tema abordado”, apontam os especialistas.
Eles avaliaram, porém, que ele tem traços de impulsividade “acima da média”, mas, segundo eles, sem que isso signifique que ele tenha algum transtorno.
Teste para identificar psicopatia
O pastor também foi submetido a teste para ver se tem indícios de psicopatia e outros distúrbios de personalidade.
O teste é feito com base em 20 critérios, cada um valendo 2 pontos no máximo. Dessa forma, é considerado psicopata quem tem pontuação maior que 23. Georgeval obteve 6 pontos no total.
Sobre as críticas que sofreu na época da morte dos meninos de que não demonstra tristeza e que realizou atividades que seriam “incompatíveis com demonstrações de luto”, o psiquiatra afirma que, na ocasião, ele podia estar sofrendo de “Transtorno Dissociativo de manifestação transitória”, ou seja, já não sofre mais do transtorno.
Registros da Sejus também não apontam transtornos mentais
Registros de atendimento psicológico de Georgeval na prisão dos últimos cinco anos também não fazem menção a qualquer transtorno mental. Sempre é descrito como calmo, lúcido e cooperativo.
“Paciente apresentou quadro psíquico estável durante atendimento. Sem histórias de traumas, sem sinais de psicopatologia e sem queixas dignas de nota. Adaptado ao cotidiano da unidade”, diz uma das avaliações.
Sobre o dia-a-dia na prisão, as notas apontam que ele tem bom comportamento, nunca se envolveu em ocorrências graves e tem boa relação com os outros internos.