As imagens impressionam e lembram um cenário do pós-guerra: em meio à mata, lado a lado, dezenas de vagões e restos de maquinário de trens espalhados, sendo destruídos pela ação do tempo. A ferrugem toma conta das estruturas, que no passado serviram para o transporte de minério de ferro, outras cargas e até de passageiros. Juntas formam um cemitério de vagões, localizado na região de Aroaba, zona rural da Serra.
Alguns vagões permanecem engatados, ainda em uma linha férrea, como se estivessem prontos para iniciar uma viagem, cujo destino se perde em meio à vegetação, rumo ao descarte e ao abandono. Outros estão descarrilados e tombados, envoltos pelo mato.
Há ainda composições, que eram destinadas ao transporte de cargas, e que ainda estão carregadas com restos de ferro e de material que um dia foi utilizado na ferrovia. Peças pequenas e maiores também estão espalhadas por todo canto.
Relatos feitos à reportagem apontam que, provavelmente, alguns vagões se envolveram em acidentes, ou foram danificados. Quando não foi possível consertá-los, seus componentes foram aproveitados em outras unidades e o restante virou sucata, para ser vendida posteriormente.
Em meio ao verde, a ferrugem se destaca e, pouco a pouco, vai apagando até o nome da empresa que estava pintado nos vagões. Não há muitas casas ou trânsito de pessoas e de carros pela região, mas uma placa alerta para a presença da linha férrea.
Ao caminhar pelo local, só se escuta o vento. O silêncio nem de longe lembra o barulho típico dos trens. Mas os registros de pichações nas unidades que fizeram o transporte de passageiros dão sinais de que o local vem sendo frequentado, mesmo que de forma clandestina.
Além de atrair a atenção, o cenário desperta a curiosidade sobre o motivo do descarte e do abandono. Perguntas que intrigaram a fotógrafa Karla Rodrigues, uma das primeiras a fazer o registro de imagens do local. Moradora de Vila Velha, ela conta que levou alguns meses para encontrar o ponto exato do cemitério de vagões.
Karla fez o percurso de moto, assim pôde entrar em áreas fora da estrada, e se surpreendeu quando encontrou o local. “Tem muito material espalhado pela área e dentro da mata. À medida que você vai percorrendo, vai fazendo novas descobertas. O cenário é impressionante e tem sido utilizado até para alguns ensaios fotográficos”, relata.
Ela chegou a acompanhar um grupo de amigos paulistas que visitou os 78 municípios capixabas dentro do projeto “Viagem Infinita”. A fotógrafa diz que eles ficaram maravilhados com o que encontraram. Logo depois a equipe de A Gazeta encarou o desafio e também foi conferir de perto o misterioso espaço.
Relatos dão conta de que o descarte de vagões na região ocorre há mais de 20 anos, e que eles ficam no local até serem vendidos como sucata. Mas esse não é o único cemitério de trens e vagões do país. Há espaços semelhantes em várias cidades com operação de linha férrea. Locais onde a maioria das locomotivas definha com o passar do tempo.
Cemitério de vagões
DONOS DA ÁREA
O cemitério de vagões está em área privada. A maior parte da terra pertence à mineradora Vale e é onde está sendo feito o descarte de um volume maior de composições. O restante é uma propriedade privada onde também está depositada parte do material. Próximo ao local, há um pátio de armazenamento de ferro-gusa.
Por nota, a mineradora informou que a área pertence à faixa de domínio ferroviária e que o local é utilizado para estocagem provisória de vagões em fase final de vida útil. Informou ainda que os “equipamentos nessa condição passam por um processo de inspeção e higienização, não oferecendo, portanto, risco ao meio ambiente”, diz o texto da nota.
O descarte dos vagões, segundo a Vale, foi suspenso temporariamente, em razão da pandemia do novo coronavírus, e será retomado no próximo mês, novembro. “O processo é realizado por uma empresa especializada, contratada para dar destinação aos materiais, observando exigências ambientais e visando a segurança operacional”, diz a nota, acrescentando que a sinalização na região “será restaurada”.
Já a VLI, empresa controladora da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) informou também por nota que mantém, em caráter temporário, nove vagões não-operacionais na faixa de domínio da ferrovia, na Região Metropolitana de Vitória. “Esses ativos serão destinados para reciclagem nas próximas semanas”, informou. A VLI é uma empresa organizada em forma de holding, que tem em sua composição acionária a mineradora Vale.