A bióloga Tatiana Sampaio, professora doutora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e líder das pesquisas com polilaminina para tratamento de pessoas com lesão medular, foi homenageada nesta quinta-feira (26), no Palácio Anchieta, em Vitória, com a comenda Jerônymo Monteiro — a mais alta honraria concedida pelo governo do Espírito Santo. Integrantes da equipe, incluindo dois capixabas, e do laboratório Cristália, que investe no desenvolvimento do medicamento, também foram condecorados.
Além da medalha, entregue pelo governador Renato Casagrande (PSB), a pesquisadora recebeu flores das mãos da primeira-dama Virginia Casagrande e uma obra, representando a polilaminina, feita pelo artista Hugo Siman Madeira. Durante o momento de agradecimento, Tatiana refutou as análises pessimistas sobre a patente da polilaminina e celebrou a pesquisa nacional, feita em universidade pública.
"O que interessa é que a gente conseguiu ficar no Brasil, conseguiu fazer isso aqui, com pesquisadores brasileiros, na universidade. Nunca ninguém vai poder dizer que a polilaminina não é nossa. Outros grupos e países já até usaram a polilaminina, mas reconheceram como nossa, criada no laboratório da UFRJ", frisou.
'Ninguém vai poder dizer que a polilaminina não é nossa', diz pesquisadora no ES -
Tatiana também dedicou agradecimento ao presidente da Cristália, Ogari Pacheco, que decidiu investir nas pesquisas — algo em torno de R$ 150 milhões nos últimos oito anos.
"Assim como não tem como tirar de nós a criação, não é possível retirar a parte de desenvolvimento da Cristália. É uma construção brasileira e todo mundo pode ter orgulho disso", completou.
Veja os homenageados com a comenda Jerônymo Monteiro:
Ordem Grã-Cruz:
Dra. Tatiana Coelho Lobo de Sampaio, bióloga, professora e pesquisadora da UFRJ
Ordem Cavaleiro:
- Dr. Olavo Borges Franco, médico e professor
- Dr. Bruno Alexandre Cortes, médico neurocirurgião
- Dr. Marco Aurélio Braz de Lima, médico neurocirurgião
- Dr. Ogari de Castro Pacheco, médico, empresário, fundador do Laboratório Cristália e senador suplente
- Mitter Mayer Volpasso Borges, assessor especial do Governo do Estado e coordenador do grupo de trabalho da polilaminina
A solenidade foi precedida da formatura de alunos de residência médica do Instituto Capixaba de Ensino, Pesquisa e Inovação em Saúde (Icepi), que lotaram o Salão São Tiago e participaram da homenagem a Tatiana Sampaio e equipe.
Ciência mais próxima
Mais cedo, em entrevista coletiva, a bióloga pontuou que a ciência não tem feito, ao longo dos anos, parte do cotidiano das pessoas e, por isso, pode-se acreditar num certo distanciamento.
"Acho que esse caso da polilaminina está ajudando a aproximar, a dar visibilidade e trazer para a vida comum. A sensação que tenho é que está sendo muito bem-vinda, todo mundo parece tão feliz, tão animado com isso e dá a ideia de que havia demanda, de que as pessoas tinham desejo de ver a ciência se conectando com a realidade de todo mundo", avaliou.
Questionada sobre a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a fase um dos estudos clínicos com a polilaminina, Tatiana abriu espaço para o vice-presidente da Cristália, Rogério Almeida, manifestar-se sobre os próximos passos da pesquisa. Ele disse que o comitê de ética do Hospital das Clínicas de São Paulo aprovou, na quarta-feira (25), o protocolo para o início dos testes.
"Então, a partir de hoje (quinta-feira, 26), a gente já começa a possibilidade de iniciar o treinamento dos neurocirurgiões, tanto do Hospital das Clínicas de São Paulo quanto da Santa Casa, e o recrutamento dos pacientes que se encaixem nos critérios para que a gente possa colocar cinco pacientes no estudo clínico de fase um", afirmou.
Almeida disse que esses pacientes serão acompanhados por seis meses e, no final desse período, um relatório será entregue à Anvisa com um pedido do estudo clínico de fase dois.
"O estudo clínico de fase 1 é para avaliação de segurança, o estudo clínico de fase 2 é para avaliação de eficácia. Finalizado o estudo clínico de fase 2, que também vai ser um acompanhamento de seis meses, nós podemos entrar com o pedido de registro definitivo na Anvisa", acrescentou o vice-presidente.
Os critérios de seleção dos pacientes são: ter entre 18 e 72 anos, lesão medular completa na altura torácica e que o trauma esteja na janela de 72 horas.
Durante a coletiva, o secretário estadual da Saúde, Tyago Hoffmann, reforçou que o governo capixaba vai disponibilizar o Hospital Estadual de Urgência e Emergência (HEUE) — o antigo São Lucas, referência em trauma — para a próxima fase das pesquisas, conforme A Gazeta antecipou em reportagem na quarta-feira (25).
Mas o governo já vem sendo parceiro dos estudos da polilaminina desde o momento em que a Justiça liberou o teste em pacientes, antes da autorização da Anvisa, viabilizando o atendimento no Estado. Cinco pessoas foram contempladas — duas morreram depois, mas por comorbidades sem relação com a substância.
"Nosso trabalho de pesquisa já estava avançado — são 28 anos —, mas a fase iniciada mais recentemente, nessas iniciativas do uso compassivo de polilaminina (por via judicial), que foram difíceis de se organizar, eu não sabia muito bem como fazer. Então, acho que a postura, o apoio que a gente teve do governo do Espírito Santo para operacionalizar isso foi essencial. Foi como se a gente tivesse mais um laboratório para botar isso para funcionar e depois acabou se propagando como exemplo para outras iniciativas. Então, é um prazer estar aqui na origem", reforçou Tatiana Sampaio.
Após deixar o Palácio Anchieta, Tatiana Sampaio seguiu para a Assembleia Legislativa, onde também foi homenageada ao lado de sua equipe. Ela recebeu a Ordem do Mérito Domingos Martins, no grau comendador.