O alto potencial de disseminação da variante Delta do Sars-Cov-2 (coronavírus) suscita questionamentos sobre a eficácia das vacinas disponíveis no Brasil contra a Covid-19 frente à nova cepa. O país adota quatro imunizantes - Coronavac, Astrazeneca, Pfizer e Janssen - e, segundo especialistas, todos têm capacidade de conter a circulação da mutação que, agora, tem casos confirmados no Espírito Santo.
O presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), pesquisador e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Flávio Guimarães da Fonseca, ressalta que as quatro vacinas são eficazes contra a Delta e as outras variantes já identificadas, mas reconhece que pode haver a redução do efeito protetor.
"Obviamente há um comprometimento da eficácia global inicialmente mensurada, e nem sempre sabemos o tamanho desse comprometimento. Então, uma vacina que tinha 95% de eficácia contra outras variantes, pode ter uma queda para 90%, 85% com a Delta. Não está tudo mensurado", pontua o professor, também integrante do Comitê Permanente de Enfrentamento do Novo Coronavírus da UFMG.
Entretanto, Flávio Guimarães frisa que a mensagem mais importante é que as pessoas devem seguir se imunizando, com qualquer uma das vacinas disponíveis no país.
"Mesmo com queda da eficácia global aferida, as vacinas são capazes de impedir as evoluções piores da infecção pelo Sars-Cov-2, mesmo pela Delta, seja a morte, seja infecção grave. Então, as pessoas devem continuar se vacinando"
Questionado se, diante da diminuição da eficácia, seria recomendada uma dose de reforço, Flávio Guimarães afirma que há estudos sobre o tema, mas sem resultados conclusivos. São projetos que analisam a necessidade de incluir no esquema vacinal uma dose complementar tanto para os imunizantes com menor eficácia aferida até o momento quanto para os que apresentam maiores taxas de resposta imunológica.
"E até para impedir análise incorreta das vacinas, preconceito contra essa ou aquela, mesmo as que têm maiores taxas de eficácia também está sendo estudada a possibilidade de aumentar mais uma dose para garantir ou reforçar a imunidade contra essas variantes que apresentam potencial epidemiológico mais severo, como a Delta", conta.
O biomédico imunologista Jefferson Russo Victor, professor do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa), acrescenta que, como a vacinação no país começou há menos de um ano, ainda não é possível assegurar que as vacinas vão controlar a Covid-19 a longo prazo ou se a doença, assim como a gripe, vai exigir doses anuais para garantir a proteção.
"Talvez, uma nova dose seja necessária só por esse fato", constata. A nova cepa também é uma variável a ser considerada, segundo ele, podendo exigir a formulação de novas vacinas ou atualização do produto existente, como avalia a fabricante Pfizer.
VARIANTES
Jefferson Russo explica que as variantes resultam de um processo aleatório e imprevisível e que, para surgirem, dependem da existência de pessoas contaminadas pelo vírus. Assim, quanto mais infectados, maior o risco de mutação.
As variantes que entraram em circulação antes da Delta - Alfa, Beta e Gama - não apresentavam o potencial de transmissão da nova cepa, afirma Jefferson, e é essa a razão para haver redução na eficácia das vacinas. Esses índices de queda também variam conforme os grupos estudados. Mas o fato é que a situação pode se agravar se a campanha de imunização não alcançar rapidamente toda a população adulta com as duas doses.
"Não podemos esquecer que, quanto mais rápido vacinar, haverá menos pessoas infectadas e, portanto, menor a chance de nova variante"
Para Jefferson, esse é um ponto que precisa ser constantemente reforçado. Ele acredita que o país terá condições de superar a Delta, apesar de seu alto poder de transmissão, mas não se mostra confiante no caso de surgimento de nova mutação do Sars-Cov-2.
VACINAÇÃO
Os dois especialistas sustentam que, para a proteção da população, a vacinação é fundamental - e com o ciclo completo (duas doses ou, no caso da Janssen, dose única).
"Os governos deveriam investir na aplicação da D2 (segunda dose) e garantir o ciclo completo da vacinação. Apenas com a D1, a pessoa não tem a proteção total conferida por aquela vacina, e abre a possibilidade para que os vírus circulem em pessoas vacinadas como uma só dose e aí, sim, surjam novas mutações em resposta a essa imunidade incompleta. O resultado pode ser mutantes cada vez mais resistentes à vacinação. É importante completar o ciclo para que as vacinas ofereçam o máximo de imunidade que podem. São vacinas em regime de duas doses exatamente porque esse máximo só é conferido após a segunda dose", argumenta Flávio Guimarães.
Ele diz que a adoção dessa estratégia não é consenso, porém encontra respaldo entre outros virologistas que compõem a SBV.
Também na avaliação de Jefferson Russo, é importante priorizar o sistema vacinal completo, sobretudo nos grupos mais suscetíveis à infecção e agravamento.
O secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes, destaca que, no Espírito Santo, mais de 70% da população adulta foi alcançada com a primeira dose e que 90% do público idoso, um dos mais vulneráveis à Covid-19, já recebeu a D2. Ele estima que até o final de agosto, a população de 45 a 59 anos também estará quase toda com o esquema vacinal completo.
"Ainda neste mês, vamos concluir o calendário da D2 nessas faixas etárias mais suscetíveis à Covid-19. Das remessas de Astrazeneca que vão chegar, a ampla maioria é para a segunda dose", antecipa o secretário.
Diante dessa projeção, Nésio Fernandes não avalia que seja necessária a redução do intervalo entre a D1 e a D2. Além de a campanha de imunização no Estado caminhar para completar o ciclo vacinal de grupos etários mais vulneráveis, o secretário afirma que, paralelamente, vai poder avançar na imunização da população mais jovem. A expectativa é que, também em agosto, as pessoas com mais de 18 anos comecem a ser vacinadas no Espírito Santo.
No Estado, até esta terça-feira (10), 2.094.210 pessoas receberam a D1, enquanto 971.588 já estão com o esquema vacinal completo com a D2 ou dose única. A Astrazeneca representa quase 50% das aplicações na população capixaba, seguida pela Coronavac, Pfizer e Janssen.