Até esta quarta-feira (10), mais de 156 mil pessoas dos grupos prioritários já tinham recebido a primeira dose da vacina contra a Covid-19 no Espírito Santo, e em pouco mais de 45 mil havia sido aplicada a segunda dose. Mas as contribuições desta imunização, com impactos no número de internações e mortes causadas pelo novo coronavírus, só devem começar a ser observadas a partir do final do mês de abril ou maio.
Pablo Lira, diretor de Integração e Projetos Especiais do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), pondera que após a aplicação da vacina, o corpo leva de duas semanas até três semanas para desenvolver os anticorpos que vão lutar contra a contaminação pelo vírus. E ainda é necessária a segunda dose, com pelo menos mais duas semanas para o reforço dos anticorpos. “Quanto mais o tempo passar, a tendência é de se confirmar a redução de internações e óbitos em decorrência da imunização”, explica.
Um exemplo vem do grupo de idosos acima de 90 anos e que corresponde a 18.041 pessoas no Estado. A primeira dose já foi aplicada a 100% deste grupo e 65% recebeu a segunda dose. Um trabalho que os municípios deverão concluir nas próximas semanas.
A vacinação no Espírito Santo teve início em 18 de janeiro, com a técnica de enfermagem Iolanda Brito. Logo depois os municípios começaram a vacinar os idosos que vivem em instituições de longa permanência. Na sequência, a partir do dia 4 de fevereiro, foi a vez dos idosos com 90 anos ou mais.
Segundo os dados do Painel Covid-19, ferramenta da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) com informações estatísticas sobre a doença e a vacinação, entre os meses de janeiro e fevereiro deste ano - mesmo período da vacinação - houve uma queda no número de óbitos nesta faixa etária (acima de 90 anos) de 39%, saindo de 64 registros para 39.
Porém, como observa Pablo Lira, a redução nos óbitos pode ser um reflexo do próprio ciclo da pandemia, já observado na primeira fase, entre julho e agosto de 2020, nesta mesma faixa etária, quando houve uma redução maior do que a registrada este ano. Naquele período a queda nos óbitos de 50,6%, com registros saindo de 79 para 39.
Lira destaca que não se pode, neste momento, descartar as contribuições da vacina. “Ainda é cedo para afirmar que é efeito da imunização, mas é uma tendência que vamos começar a perceber, com a redução da infecção e, o mais importante, com a redução dos casos graves e óbitos neste grupo etário”, assinala.
Até esta quarta-feira (10) o Espírito Santo tinha registrado um total de 6.642 óbitos causados pelo novo coronavírus, destes 478 foram de pessoas acima de 90 anos. Uma letalidade de 34,9%. Nesta faixa etária foram 1.371 casos confirmados da doença dentro. Um total de 824 deles conseguiram se curar da doença.
SEM MORTES ENTRE OS VACINADOS, SEGUNDO A SESA
Por nota, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) informa que a variação de óbitos entre os meses de janeiro e fevereiro apresentou uma redução equivalente a 39,06% nos pacientes com 90 anos ou mais, e 36,69% nos pacientes com 89 anos ou menos, “não representando uma redução significativa em ambos grupos etários”, diz o texto.
É informado ainda que até o dia 7 de março não foi registrado nenhum óbito em idosos com mais de 90 que se vacinaram há mais de 28 dias.
IÚNA APONTA REFLEXOS DA VACINA
Um estudo realizado pelo enfermeiro Ricardo Evangelista, responsável pela direção da atenção primária no município de Iúna, aponta que entre os profissionais de saúde que a cidade vacinou, com as duas doses, houve uma queda de casos confirmados da Covid-19 de 75%.
“A eficácia da vacina entre os que tomaram as duas doses foi de 100%. Os dois únicos profissionais que desenvolveram a doença, assim como os dois idosos com mais de 90 anos, só tinham tomado a primeira dose. O que mostra que uma só dose não imuniza”, explica Evangelista.
Ele relata que o registro de casos da doença entre os profissionais de saúde desde o início da pandemia, na cidade, era de 8,53%. No mesmo período, o Estado registrava 8,09% de casos. “Em Iúna, após a vacinação, o número de profissionais contaminados caiu para 1,85%, enquanto no Estado o percentual caiu para 3,28%”, relatou.
O estudo feito por Evangelista considerou duas semanas de 2020 (22/11/2020 à 05/12/2020) quando foram constatados 8 casos de profissionais da saúde doentes e 2 idosos com mais de 90 anos também com a Covid-19.
Este período foi comparado com outras duas semanas em 2021 (21/02/2021 à 06/03/2021), após a vacinação, quando agora só dois servidores da saúde foram infectados e 2 idosos com mais de 90 anos também apresentaram a doença.
Em Iúna 3,66% da população já foi vacinada com 1.103 doses da vacina até esta terça-feira (09). Um total de 612 profissionais de saúde receberam a primeira dose e a outros 508 foi aplicada a segunda dose. “Temos quase 100% dos profissionais de saúde imunizados", comemorou Evangelista.
NOVO CRESCIMENTO DE CASOS DA DOENÇA
A preocupação, segundo Pablo Lira, é com a estabilização da média móvel de óbitos, que vinha apresentando queda, e que agora se estabilizou. Nesta terça-feira (09) ela estava em 18.
Em paralelo, tem aumentado a demanda pela ocupação de leitos hospitalares, principalmente os de UTI, chegando nesta quarta-feira (10) a 80,11%. “Temos observado um aumento do contágio nos grupos etários mais jovens, apresentando casos graves da doença por conta de uma maior exposição”, explica Lira
E a expectativa é de um aumento do número de casos em março e abril, não só pela situação semelhante em outros estados brasileiros, mas também porque este é o período de sazonalidade das síndromes respiratórias mais graves.
“Os indicadores sinalizam um estado de alerta para o que pode acontecer em março e abril por conta da sazonalidade das síndromes respiratórias mais graves e possíveis efeitos das aglomerações do carnaval que ainda podem impactar na curva do contágio e dos óbitos. Mas a situação no Espírito Santo ainda é menos problemática do que nos demais estados da federação”, explica Lira.