É só o tempo esquentar que falta espaço nas praias em Vitória. Nelas, uma placa recebe os banhistas, indicando se o local está ou não próprio para mergulho. Em alguns pontos, contudo, a presença de poluentes é tão elevada que são interditados para o banho de mar.
Essa é a realidade de quatro pontos na Capital. Em cada um deles foram feitas mais de 380 análises ao longo dos últimos oito anos e, apesar dos avanços na cobertura e no tratamento do esgoto nesse período, esses locais nunca estiveram próprios para um mergulho.
PONTOS INTERDITADOS PARA BANHO:
- Camburi, a 50 metros do Píer de Iemanjá, próximo à saída do Canal de Camburi;
- Prainha de Santo Antônio, na altura da academia popular;
- Canal da Passagem, próximo à Ponte da Passagem;
- Praia de Jesus de Nazareth.
“Se um determinado ponto tem uma série histórica muito grande de contaminação por esgoto, a gente interdita. A diferença (para a bandeira vermelha) é que a bandeira vermelha é uma orientação. A sinalização de interditado é uma proibição: não é para tomar banho ali”, alerta o secretário de Meio Ambiente de Vitória, Tarcísio Foeger.
Veja pontos interditados para banho na Capital
A prefeitura atribui a má qualidade da água nesses pontos à poluição vinda de outras cidades.
O Canal de Camburi e o Canal da Passagem, por exemplo, são dois pontos de uma das saídas do Rio Santa Maria da Vitória para o mar. O curso de água, que abastece os moradores da Capital, é conhecido por receber esgoto doméstico em toda a sua extensão.
Quatro pontos em Vitória não estão próprios para banho pelo menos desde 2015
Os outros dois pontos interditados ficam na baía de Vitória. Por lá é despejado esgoto de Vitória, Vila Velha e Cariacica.
“Como estamos dentro de uma Região Metropolitana, todos os municípios contribuem de forma direta e indireta para a balneabilidade de toda a nossa orla”, destaca o secretário.
Ele cita ainda que as praias da Ilha do Boi, Curva da Jurema e Guarderia alternam entre momentos de placa verde e placa vermelha, mas são diretamente influenciadas pela emissão de esgoto em Vila Velha.
Já em Camburi, por conta da geografia do local, com o mar mais aberto, os eventuais lançamentos de esgoto tendem a se “dissipar” com mais facilidade.
Outra grande influência na qualidade da água do mar é a chuva. Sempre que chove, as galerias pluviais se enchem, expulsando o esgoto despejado lá irregularmente por residências e comércios. Toda a sujeira vai parar no mar e pode permanecer por semanas, dependendo da dinâmica da maré em cada local.
A Gazeta analisou dados de balneabilidade das praias da Capital desde 2009. A quantidade de coletas era menor no passado e foi aumentando gradativamente até chegar em 2017 com uma análise por semana (cerca de 52 no ano) em cada um dos 26 pontos.
Para as análises feitas nesta matéria foram considerados os resultados de 2015 a 2022 (até novembro).
Como é feita a análise
Cada um dos pontos de coleta é analisado uma vez por semana com amostras de 100 ml. Segundo a resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), publicada em 2000, as prefeituras podem usar um ou mais entre três parâmetros para definir a qualidade da água.
- Quantidade de coliformes fecais termotolerantes (grupo de bactérias encontradas normalmente no intestino de pessoas e animais);
- Presença de Escherichia coli (bactéria que habita o intestino das pessoas e de alguns animais);
- Quantidade de enterococos (bactérias normalmente encontradas no intestino e no trato urinário de humanos).
Todos eles indicam a presença de esgoto na água, já que estão relacionados à urina e às fezes. No caso de Vitória, são medidos os coliformes fecais termotolerantes. Grosso modo, se houver mais de mil coliformes por amostra de 100 ml, o local da coleta é considerado impróprio para banho.
É possível acessar o resultado mais recente de cada medição no site da Prefeitura de Vitória.
Medições
Os dados históricos de balneabilidade mostram que houve melhora global na quantidade de medições em que houve resultados negativos — quando há presença de esgoto na água.
Em 2015, 61% das amostras tinham resultados que permitiram a classificação do ponto como "próprio" para banho. Já em 2022, essa proporção está em 73%, ou seja, de 100 amostras, 73 deram resultado positivo naquele ano.
Nesse período, houve aumento da cobertura de esgoto em diversas cidades da Região Metropolitana.
Analisando pontos específicos, também é possível observar que ações pontuais têm efeito positivo em evitar o lançamento de poluentes e melhorar a qualidade da água do mar. Um exemplo é o último ponto em Camburi, no final da praia, próximo ao Viaduto da Araceli. No local, deságua o Rio Camburi, do qual A Gazeta já falou recentemente.
"Por ocupações desordenadas, por muitos anos tinha esgoto. Hoje tem praticamente todo esse rio canalizado e debaixo do bairro. Só em 2021 a prefeitura fez vistoria em mais de 200 imóveis ali. Isso fez com que eliminasse grande parte de emissão de esgoto, e o resultado a gente vê agora", aponta o secretário.
Os dados mostram que, naquele ponto, até 2019, eram registradas entre 10 e 13 semanas de bandeira vermelha no ano, sinalizando que o local estava impróprio para banho. Desde então, a média é de três semanas no ano.
Outro exemplo é o trecho da Curva da Jurema conhecido como Guarderia. Havia no local um ponto de emissão de esgoto vindo da Praia do Canto e, em 2021, a prefeitura fez uma ação com moradores da região para promover a ligação correta à rede de coleta Antes da ação, a praia tinha uma média de 17 bandeiras vermelhas por ano. Depois, passou para cinco.