As escolas com o melhor resultado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), em 2021, no Espírito Santo, têm características em comum: ficam no interior de municípios capixabas e buscam proximidade com as famílias dos estudantes. Os resultados foram divulgados nesta sexta-feira (16) pelo Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Localizada na comunidade de Alto Pongal, em Anchieta, Litoral Sul, a Emeb Tia Marlene Petri teve a maior pontuação do Estado nas séries iniciais, do 1º ao 5º ano, registrando 8,0 na avaliação. A unidade conta com salas amplas, laboratórios, computadores e uma quadra. Para a diretora Claudia Palaoro, de 49 anos, além da estrutura, o resultado vem de ações pensadas para incluir toda a comunidade escolar.
EMEB Tia Marlene Petri, em Anchieta, Litoral Sul do Espírito SantoCrédito: EMEB Tia Marlene Petri
“Nós fazemos um trabalho desenvolvido com os alunos, as famílias, os professores e servidores. O contexto familiar está sempre presente nas nossas ações. A gente gosta de envolver todo mundo”, conta.
A Escola Tia Marlene Petri tem 81 estudantes na educação infantil e obteve a melhor nota em matemática (271,04) e a segunda melhor em português (267,64). Claudia Palaoro explica que as duas disciplinas estão presentes em outras atividades interdisciplinares. “A gente faz projetos que reúnem essas matérias com outras e temos parceria com as secretarias de Educação e Saúde, sobre vários temas.”
A diretora destaca, por fim, o reforço dado aos estudantes. “Nós fazemos avaliações internas, para saber como o aluno está, o rendimento dele. A partir daí, medimos o desempenho e oferecemos reforço para as maiores dificuldades. Por isso eles conseguem se desenvolver.”
EMEF Fazenda Aparecida, em Alfredo Chaves, na Região Serrana do Espírito SantoCrédito: EMEF Fazenda Aparecida
DESAFIOS EM UM CENÁRIO DE PANDEMIA
Nas séries finais, do 6º ao 8º ano, outra escola municipal e do interior, a Emef Fazenda Aparecida, aparece com o maior Ideb: 7,1. A unidade escolar do município de Alfredo Chaves, na Região Serrana, também teve o melhor desempenho em matemática (321,08) e matemática (304,7) do Estado na categoria.
A diretora Celiane Penha Endlich, de 42 anos, conta, sem esconder a felicidade e o orgulho, o resultado obtido em meio a um cenário pandêmico e de afastamento da relação diária e presencial com os cerca de 40 estudantes das séries finais. O objetivo do corpo docente foi semelhante à escola de Anchieta: se aproximar das famílias.
“Aqui, conhecemos todo mundo, são estudantes que estão com a gente desde a pré-escola e vão até o 9º ano. A gente interrompeu as aulas presenciais, como todo o Estado, mas montamos apostilas. Os pais pegavam toda semana, levavam para casa e devolviam na semana seguinte com as respostas dos filhos. A adesão foi alta, cerca de 90%."
Com o passar do tempo, a prefeitura local disponibilizou plataformas digitais. No entanto, havia uma dificuldade de os estudantes se conectarem. “Mas a gente fazia questão de ir atrás e ajudar aqueles que não estavam participando. Fomos na casa de cada um”, afirma.
“Algumas casas da roça não tinham internet, então usamos focamos em fazer os conteúdos impressos”, completa.
"Quando há determinação, compromisso e amor, nós colhemos resultado, e esse resultado agrega os nossos alunos"
Celiane Penha Endlich - Diretora da EMEF Fazenda Aparecida.
EEEFM Ponto do Alto, em Domingos Martins, na Região Serrana do Espírito SantoCrédito: EEEFM Ponto do Alto
ENGAJAMENTO DE ESTUDANTES
No distrito de Ponto Alto, em Domingos Martins, também na Região Serrana, a EEEFM Ponto do Alto registrou índice 6 no Ideb 2021, ficando à frente na categoria Ensino Médio. Como as outras unidades municipais citadas na reportagem, a escola estadual tem buscado manter uma relação próxima com as famílias dos estudantes, avalia o diretor Marcelo Ribett, de 41 anos.
"A relação com as famílias dos estudantes é bem próxima, é uma das diretrizes da Sedu (Secretaria de Estado da Educação), ser aberta para a família, ter a participando dela nas decisões, fazer uma gestão democrática envolvendo os familiares", destaca.
Ribett levanta ainda outra premissa da unidade: engajar os 354 estudantes, sendo 134 do ensino médio. "O trabalho que a gente desenvolve é de equipe, de engajamento dos professores, mas focamos muito nessas avaliações externas. Temos simulados para treinar os estudantes no decorrer do ano, acreditamos muito no potencial de cada um deles."
"Tentamos engajar os estudantes. O nome da nossa escola é Ponto do Alto e fazemos um trocadilho, dizemos que 'juntos somos alto nível', para plantar a semente de um ambiente acolhedor, para o estudante se sentir bem e querer estar aqui", enfatiza o diretor.
Sobre a estrutura, ele explica que o prédio conta com computadores e internet. Afirma ainda que há uma grande reforma prevista para a unidade.
IDEB 2021
Os números divulgados nesta sexta-feira (16) dizem respeito ao ano pedagógico de 2021, quando a maioria das escolas brasileiras ainda estava fechada ou funcionando de forma híbrida devido à pandemia do coronavírus.
Até o momento, foram divulgados os resultados somente da rede pública das séries iniciais (1° ao 5° ano), das séries finais (6° ao 9° ano) e também do ensino médio. Os dados referentes às escolas particulares ainda não foram informados.
O Ideb é um índice que vai de zero a dez e mensura aspectos da qualidade na educação por meio de duas frentes: desempenho em prova de português e matemática e fluxo escolar, isto é, se os alunos estão permanecendo e avançando de série na escola. O Ideb passou a ser adotado em 2005, sendo calculado pelo Inep, autarquia vinculada ao Ministério da Educação, incluindo escolas públicas e privadas.
Algumas escolas não tiveram a nota final divulgada devido ao número insuficiente de participantes na avaliação.
COMO O IDEB É CALCULADO?
A nota do Ideb para cada localidade inclui dois componentes:
Taxa de insucesso: mede o fluxo escolar ao combinar abandono e desaprovação, isto é, se alunos estão permanecendo na escola e se estão passando para as próximas séries;
Desempenho: medido via resultados do Saeb, uma prova aplicada no final de cada etapa escolar (por exemplo, alunos do 5º ano fazem o Saeb para medir o que foi aprendido ao longo dos anos iniciais do fundamental, e esse resultado será parte do Ideb desta etapa). O exame testa conhecimentos sobretudo de português e matemática.
Cada escola tem sua nota e uma meta própria a ser seguida, assim como cada cidade, cada Estado e, por fim, a média geral do Brasil. O índice geral inclui escolas públicas e particulares, mas o Inep também separa, na divulgação, os resultados específicos da rede pública e da privada.
Como o Ideb é calculado e por que resultado deste ano pode ser 'enganoso':
Em uma escala de 1 a 10, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) cruza duas informações:
- Taxa de aprovação/fluxo escolar: a porcentagem de alunos que não repetiram de ano em uma escola ou rede de ensino); - Notas do Saeb: uma prova de português e de matemática feita por alunos do 2º, 5º e 9º ano do ensino fundamental e por estudantes do 3º do ensino médio. No caso do 9º ano, para uma amostra específica, houve também questões de ciências da natureza e ciências humanas.
Só que, neste ano, esses dois “ingredientes” foram comprometidos, porque: - Parte das redes de ensino adotou a aprovação automática na pandemia (e terá, portanto, um Ideb artificialmente mais alto). - Pela primeira vez, também por causa da Covid-19, a porcentagem de alunos que fizeram a avaliação (Saeb) foi muito mais baixa em alguns Estados, fornecendo dados estatisticamente pouco confiáveis. Comparações e rankings não serão fiéis à realidade.