Tiros dia após dia, gente correndo armada pela rua e os confrontos com policiais militares tem feito parte da rotina dos moradores de Andorinhas e bairros vizinhos, em Vitória, há 20 dias. Na guerra entre facções rivais, o enfraquecimento de uma das partes levou a muitos traficantes de Andorinhas a procurarem refúgio em território onde tem apoio de outras gangues.
O point é a região onde aliados exercem o comércio de drogas nos bairros Santo Antônio, Divinópolis e Cascata, na Serra, segundo fontes da segurança pública ouvidas pela reportagem de A Gazeta.
Uma das consequências dessa demandada são mais crimes. "Os criminosos que saem de Vitória para esses locais entram com armas para apoiar o tráfico local, entregando arma nas mãos de muitos menores", destacou uma fonte.
Na Serra, os bandidos dos bairros Santo Antônio e Divinópolis já tinham sua própria rivalidade com os do bairro São Marcos I, São Marcos II e Macafé, que recebe apoio de 'soldados' e armas do Primeiro Comando da Capital (PCV). O resultado disso são os crimes nos últimos dois finais de semana.
No dia 23 de abril, dois rapazes foram mortos em São Marcos, um alvo do ataque de traficantes de Santo Antônio e Divinópolis. Já o outro, um jovem de 15 anos que foi ao bairro cerca de uma hora depois e acabou sendo morto. No último final de semana, a área que recebe os criminosos de Andorinhas, Divinópolis, enfrentou policiais militares. Um dos suspeitos morreu e cinco foram detidos.
FACÇÕES
A demonstração de força armada realizada pelo grupo de traficantes com base no Morro do Macaco, em Vitória, e também tem domínio de atuação em parte do bairro Santa Martha e Itararé, nos últimos dias reacendeu uma antiga rivalidade.
O estopim foi a morte de Gabriel Alves de Oliveira, 17 anos, assassinado em uma praça do bairro Itararé no dia 15 de abril. Crime que teria sido de autoria dos traficantes da área de Mangue Seco e Andorinhas, e têm apoio armado de traficantes de Cariacica. Como já publicado por A Gazeta, em setembro de 2019, eles formam o Terceiro Comando Puro, o TCP.
Essa facção se originou após um racha dentro do grupo rival, apoiado pelo Primeiro Comando de Vitória (PCV). “A disputa não é por um ponto de venda em si, mas sim pela resistência. Andorinhas não se alinha com o comando do PCV, não aceita as ordens”, explicou o Tenente Almeida na época que atuava na região.
O PCV é uma organização criminosa mantida pelo tráfico de drogas que domina todo o Complexo da Penha. Entre os bairros compreendidos nessa área estão o Bairro da Penha, Gurigica, São Benedito, Bonfim e Itararé. Atualmente, o gerenciamento do PCV está nas mãos de Fernando Moraes Pimenta, o Marujo, que está foragido. Ele é o segundo na linha de chefes da organização criminosa, ficando atrás apenas de Carlos Alberto Furtado da Silva, o Beto, detido no Presídio de Segurança Máxima II.
Marujo oferece apoio aos chefes do tráfico de Itararé e do Morro do Macaco, os chamados “Irmãos Vera”, que fazem o comércio de drogas com o PCV.
Encabeçando o TCP de Andorinha como uma espécie de resistência ao PCV, estava Rhaony Hansen Cordeiro Soares, 29, encontrado pelos policiais no dia 28. Ele estava escondido num sítio em Marechal Floriano, que foi adquirido por R$ 280 mil em dinheiro em espécie. A prisão fez com que os comparsas migrassem para a Serra em busca de apoio e refúgio.
POLÍCIA
No meio desse bang-bang sobra para os demais moradores desses bairros tentar viver da forma mais segura possível. "Dentro de casa, você acha que está seguro pois fechou as janelas e as portas. Mas além de não dormir à noite com barulho de tiro, durante o dia você tem que se arriscar já que essas coisas não escolhem a hora de acontecer. Para gente tomar um tiro pouco custa", conta uma aposentada de Andorinhas.
O Secretário de Segurança Pública, Coronel Alexandre Ramalho, afirma que a briga pelo poder na região se acirrou após a prisão de lideranças.
"É uma guerra conflagrada ali. Então, sempre que cai uma liderança é o momento que a outra organização criminosa entende de dar o ataque para tomar definitivamente os pontos de vendas de entorpecentes naquele bairro. Efetivamente isso aconteceu. Estamos guarnecendo os bairros, realizando operações, mas a Polícia Militar se desloca e cria janelas de oportunidades", observou Ramalho.
Somente no último mês, a Polícia Militar informou ter detido 17 pessoas, apreendeu seis armas e 450 unidades de drogas. O comandante Geral da PM, Coronel Douglas Caus, enfatizou que os militares enfrentarão igualmente os criminosos.
"Todo bairro onde houver traficante portando arma em via pública, trocando tiros com a Polícia Militar e em guerra pelo tráfico, a PM usará a Operação 'Saturação Qualificada" no sentido de prender esses indivíduos. Não tem conversa. Para os criminosos que enfrentam a Polícia Militar, nós iremos utilizar o uso progressivo da força, inclusive com desfechos mais pesados para a criminalidade", prometeu o comandante.
LINHA DO TEMPO DOS ATENTADOS
No dia 16 de abril, um dia após o assassinato de Gabriel, cerca de 10 homens armados percorrem a rua principal de Andorinhas, passaram por Mangue Seco e adentraram por Santa Martha, por volta das 3 horas, dando tiros para o alto, em casas e até carros de moradores. A ação foi uma tentativa de intimidar os rivais a quem creditavam a autoria do assassinato.
A Polícia Militar precisou usar bala de borracha para dispersar protesto no bairro, no dia 19. Uma mulher grávida chegou a ser detida após desacatar policiais que fazem buscas por suspeitos.
No início da tarde do dia 30, uma sequência de tiros foi ouvida na região e assustou moradores. Policiais militares realizavam patrulhamento no local quando ouviram os disparos de arma de fogo. Alunos e praticantes de atletismo que treinavam na pista da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), nesta manhã, tiveram que deitar para não serem atingidos pelos disparos
Na segunda-feira (3), cinco dias após a prisão de Rhaony Hansen, apontado como chefe do tráfico de Andorinhas, houve um novo confronto entre bandidos pelas ruas do bairro durante a amanhã. A situação levou a uma operação de repressão da PM na área do Bairro da Penha, onde estariam os autores dos tiros. Três pessoas foram detidas, entre elas Jean Finamore Bento, 21, apontado como um integrante do PCV.
O episódio mais recente foi nesta terça-feira (4), quando foram colocadas barricadas na principal rua do bairro Andorinhas, e que dá acesso à Mangue Seco, impedindo o acesso de policiais, guardas e também de quem mora no bairro. O material foi retirado pela Guarda Municipal.