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Montagem/Canva: Caroline Freitas
Doenças infecciosas

Varíola, Covid, dengue e zika: por que vivemos a era das epidemias?

Apenas nos últimos 20 anos, foram registradas pelo menos 19 emergências infecciosas regionais ou mundiais, causadas por 13 zoonoses diferentes. Diversas atingiram o Espírito Santo; saiba mais

Caroline Freitas

Repórter

cfreitas@redegazeta.com.br

Publicado em 08 de Agosto de 2022 às 20:22

Publicado em

08 ago 2022 às 20:22
Zoonoses
A era de zoonoses: como as epidemias causadas por vírus transmitidos de animais para humanos têm nos afetado Crédito: Montagem: Caroline Freitas
As últimas décadas foram marcadas por epidemias e pandemias causadas por patógenos infecciosos. Dengue, zika, Covid e, mais recentemente, a varíola dos macacos são apenas algumas das zoonoses que afetaram ou ainda afetam o Espírito Santo e o restante do mundo.
São vírus que surgiram em animais, mas, eventualmente, chegaram aos seres humanos, causando prejuízos à saúde e até mesmo interrompendo vidas. Não são fenômenos inteiramente novos, mas, em um mundo densamente povoado, em que é possível se deslocar de um ponto ao outro com facilidade e rapidez, a tendência, na visão dos especialistas, é de que o surgimento de doenças como essas se torne cada vez mais comum.
Apenas nos últimos 20 anos, foram registradas pelo menos 19 emergências infecciosas regionais ou mundiais, causadas por 13 zoonoses diferentes. Durante esse período, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a decretar seis situações de emergência sanitária global em função dos patógenos.
A mais recente foi em 23 de julho de 2022, quando a entidade convocou os governos em geral a intensificarem as ações de monitoramento e combate à monkeypox (varíola dos macacos). O vírus, inicialmente registrado na década de 1950, voltou a se espalhar pelo mundo nos últimos meses. No Brasil, já são quase mil pessoas infectadas, incluindo dois moradores do Espírito Santo. Outros casos estão sendo investigados.
No início de 2020, antes mesmo de ser caracterizada como uma pandemia, a rápida disseminação da Covid-19 na China levou a OMS a anunciar que a doença constituía um risco à saúde pública também fora daquele país. Atualmente, já são mais de 6 milhões de mortes no mundo. Destas, cerca de 14,6 mil foram registradas no Estado.
Um ano antes, a organização havia decretado situação de emergência em função de um novo surto de ebola, na República Democrática do Congo. Até junho de 2020, quando a emergência global foi suspensa, 3.470 pessoas haviam ficado doentes e 2.280 morreram. Em 2014, a OMS também acionou o alerta máximo para a doença, que se disseminava, então, na África Ocidental e matou mais de 11 mil pessoas até 2016.
Também em 2016, a OMS declarou emergência de saúde global para o vírus da zika, que se espalhou pelas Américas, afetando inclusive o Espírito Santo. O vírus é transmitido pela picada do Aedes aegypti e, embora cause sintomas parecidos com os da dengue, também pode provocar complicações como a microcefalia, ao ser transmitido da gestante para o bebê, e a síndrome de Guillain-Barré.
Também foram decretadas emergências sanitárias globais por causa da poliomelite (2014) - ainda vigente por causa de infecções recentes no Afeganistão e do grande número de crianças não vacinadas - e para a Influenza A (H1N1, em 2009).
Embora causadas por vírus diferentes, as doenças têm em comum o fato de que se originaram em animais e foram posteriormente transmitidas às pessoas, seja porque o vírus saltou para um humano e se adaptou ao organismo, seja porque foi transmitido por um vetor, como é o caso do zika vírus, carregado pelo Aedes aegypti, mosquito que também transmite a dengue, a chikungunya e a febre amarela urbana.
A pós-doutora em Epidemiologia e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Ethel Maciel, observa que esses processos sempre existiram, mas a disseminação de doenças infecciosas com características de zoonoses se intensificou nas últimas décadas, conforme a população cresceu e o espaço ocupado por ela foi se expandindo.
“A gente tem, por exemplo, abertura de rodovias, a gente tem plantação, a gente tem desmatamento. Há uma série de ações humanas que vão nos colocando em contato maior com os animais e a chance maior de transmissão de uma doença que até então não existia na espécie humana. Às vezes, demora até que esse vírus se adapte. A monkeypox, por exemplo, foi identificada em 1958, mas o vírus demorou um pouco a se espalhar.”
A epidemiologista, que foi convidada pelo Ministério da Saúde para compor o Comitê Nacional de Enfrentamento da monkeypox (varíola do macaco), explica que, inicialmente, a doença era transmitida apenas de animais para humanos. Algumas mutações foram necessárias para que a doença pudesse se adaptar ao organismo humano e ser retransmitida.
“Às vezes, não é instantâneo, demora, até vários anos, para fazer esse salto de espécies, mas ele acontece porque a gente tem uma relação muito ruim com o nosso ecossistema. Esses vírus, principalmente os que têm uma capacidade de mutação grande, acabam se adaptando à espécie humana e começam a ser transmitidos de humano para humano, como a gente está vendo agora com a monkeypox, como a gente viu com a Covid, como aconteceu com o zika vírus, como aconteceu com o vírus da imunodeficiência humana, o HIV. É a história natural.”
Algumas das doenças que ameaçam a saúde atualmente de (Núcleo de Reportagem de A Gazeta)
De fato, a próxima grande ameaça já vem sendo monitorada por diversos estudiosos ao redor do globo. Neste contexto, em outubro de 2021, os três principais líderes da OMS, incluindo o diretor-geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus, anunciaram a criação do Grupo de Aconselhamento Científico Sobre as Origens de Novos Patógenos (ou Sago, na sigla em inglês).
Em carta publicada na revista Science naquela época, destacaram que, nos últimos 30 anos, a emergência de patógenos infecciosos com potencial epidêmico e pandêmico expuseram e ameaçaram a saúde global e a economia, e que a próxima “doença X”, com capacidade para afetar grandemente a humanidade, poderia surgir a qualquer instante.
“Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), influenza, ebola, Marburg, Lassa, Nipah, zika, e agora a Covid (SARS-CoV-2) foram todas a ‘Doença X’ do seu tempo’. O risco de futuras emergências é resultado de forças diversas, incluindo mudanças climáticas, mudanças no ecossistema e a crescente urbanização. A próxima Doença X pode aparecer a qualquer momento, e o mundo precisa estar preparado”, alertaram.
Em 23 de julho, menos de um ano depois, a organização decretou uma emergência global em saúde por causa da varíola dos macacos (monkeypox). Para a infectologista Ethel Maciel, impedir o surgimento de zoonoses é uma tarefa quase impraticável. Pelo modo como a sociedade atual é construída, o contato com os animais e as doenças que carregam é inevitável.
Os esforços, ela frisa, devem estar focados em impedir que as doenças se espalhem. O zika vírus, por exemplo, é diferente porque depende, inicialmente, de um vetor (mosquito). Onde ele não existe, a transmissão é mais difícil. É o mesmo caso da dengue e da febre amarela.
“É diferente das outras doenças, que dependem do contato entre humanos. Existem métodos de controle que, infelizmente, nós falhamos vergonhosamente em utilizar. Por exemplo, quando os primeiros casos (de monkeypox) surgiram, se a gente tivesse feito o diagnóstico correto, o isolamento imediato, a doença poderia não ter se espalhado, mas faltam informações, os países não têm diagnóstico, não têm vacina para fazer bloqueio.”
O saldo de vírus entre as espécies
O saldo de vírus entre as espécies Crédito: Arte A Gazeta
Um motivo para isso, Ethel observa, são as desigualdades sociais em nível global. Quando as doenças estão centradas exclusivamente em países menos desenvolvidos e com menor acesso a recursos e tecnologia, usualmente as patologias tendem a receber menos atenção, ainda que possam afetar seriamente a população. Apenas quando chegam a um país desenvolvido é que surge a preocupação em criar vacinas e medicamentos.
Ela cita como exemplo a monkeypox, que, embora já tivesse sido identificada há várias décadas, tem apenas uma única vacina desenvolvida por uma empresa da Dinamarca, um país que, até recentemente, nem mesmo tinha a doença.
“Esses países investem de forma contínua na descoberta de medicamentos e de vacinas. Essa vacina da monkeypox já está aprovada desde 2019, então antes da Covid. Já tinha sido descoberta, já tinha passado por todas as fases de pesquisa, e agora temos um problema de produção porque só uma empresa tem a vacina. Só uma no mundo. As doenças infecciosas vão ter sempre importância, por isso é fundamental que a gente mantenha os investimentos contínuos em pesquisa para desenvolvimento de novos medicamentos, novas tecnologias para as doenças que nós conhecemos, assim que nós a identificamos.”
O médico Crispim Ceruti Júnior, professor do programa de pós-graduação em Doenças Infecciosas da Ufes, pondera que também é necessário um reposicionamento na forma como as atividades econômicas são desenvolvidas.
“Ao longo do tempo, houve mudanças profundas no uso da terra e no espaço que ocupamos. A gente ‘roubou’ ambientes que eram exclusivos dos animais e isso trouxe algumas doenças para mais perto do ser humano. Você derruba florestas para fazer plantações, constrói casas em áreas que antes eram natureza. Tudo isso, somado à facilidade e rapidez de deslocamento das pessoas de um ponto a outro, a exemplo do que acontece com o transporte aéreo, e ao aquecimento global, que favorece a proliferação dos agentes transmissores de doenças, torna a proliferação das zoonoses mais fácil.”
O especialista considera que é preciso encontrar um equilíbrio: encontrar uma forma de desenvolver as atividades econômicas com os devidos cuidados ambientais, a exemplo de plantações que respeitam o espaço natural, o uso das florestas de modo que não implique em derrubá-las, entre outras ações.
“Temos que respeitar o ambiente na nossa forma de explorar a economia. Vários locais do mundo já vêm tentando fazer isso, porque é uma forma de não sofrermos agressão ao nosso modo de vida (com a disseminação das zoonoses).”

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