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G.Dados

A cada emprego da educação fechado na crise, um foi aberto na saúde no ES

A pandemia afetou de forma desigual os diferentes setores da economia. Veja onde foram criadas mais vagas e onde o mercado encolheu

Publicado em 06 de Janeiro de 2021 às 05:00

Natalia Bourguignon

Publicado em 

06 jan 2021 às 05:00
O enfermeiro José Lucas Souza Ramos, de 25 anos, foi contratado em abril
O enfermeiro José Lucas Souza Ramos, de 25 anos, foi contratado em abril Crédito: Arquivo pessoal
A pandemia de Covid-19 e as consequentes medidas de contenção do novo coronavírus deixaram sequelas no mercado de trabalho. No Espírito Santo, a cada vaga de emprego formal criada na área da saúde, uma foi fechada no setor de educação. A mesma tendência foi observada entre os trabalhadores da construção civil e aqueles que atuam com alimentação e hotelaria.
A Gazeta analisou os microdados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia entre março, mês do início efetivo da pandemia no Brasil, até outubro. Os número se referem apenas ao emprego formal, ou seja, com carteira assinada.
Nesse período, o Espírito Santo perdeu 6,4 mil vagas de empregos formais. Esse é o número de pessoas demitidas a mais do que as contratadas, chamado de saldo do emprego.
Contudo, o fechamento e a abertura de postos de trabalho não afetou os diferentes setores econômicos da mesma forma. Com hospitais lotados e uma grande busca por exames e testes de Covid-19, os trabalhadores da saúde tiveram uma grande oferta de emprego.
No período analisado, o saldo do emprego no setor da saúde foi de 1.850 vagas criadas. Parte da oferta veio do poder público que, para preparar a rede de atenção e cuidados da doença, fez milhares de contratações.
Um desses trabalhadores foi o enfermeiro José Lucas Souza Ramos, de 25 anos. Ele hoje é responsável por treinar os profissionais que atuam no atendimento de pacientes com Covid-19. O jovem, que é formado há três anos, foi contratado pela Unimed em abril, logo no começo da pandemia no Estado.
“Trabalhava em outro hospital, na parte de assistência, até que surgiu a oportunidade de atuar na formação da equipe de profissionais aqui. Tudo acontecia muito rápido e precisei ser ágil para passar para os demais a melhor forma de se proteger contra o coronavírus. Precisei me familiarizar com tudo muito rápido e com segurança para tranquilizar os demais. O desafio foi gigantesco”, comenta.
Já o setor da educação foi afetado pelo vírus de outra forma. Por conta do risco de contágio, as escolas foram fechadas no Espírito Santo por decreto em 17 de março e retornaram só no fim de setembro no ensino estadual e particular. Com isso, o saldo do emprego nesse setor foi negativo entre março e outubro, com 1.770 postos fechados.
Uma das pessoas da área da Educação que perdeu o emprego, por conta da pandemia, foi Sirlene Lima Barbosa, de 57 anos. Ela trabalhava na coordenação do curso de Direito de uma faculdade particular em Vitória. Segundo ela, a instituição concedeu férias coletivas aos funcionários em março e acabou dispensando grande parte deles posteriormente.
“O setor privado foi muito impactado pela pandemia. Sempre fui muito dedicada e fiquei muito frustrada por ter sido dispensada. Foram tempos muito difíceis. Depois de nove meses desempregada, consegui me recolocar há duas semanas e fui contratada para trabalhar na área de vendas”, destaca.
Sirlene Lima Barbosa, de 57 anos, trabalhava em uma faculdade de Vitória e perdeu o emprego
Sirlene Lima Barbosa, de 57 anos, trabalhava em uma faculdade de Vitória e perdeu o emprego Crédito: Arquivo pessoal
Outro setor que sofreu com as medidas restritivas necessárias para frear o contágio da doença foi o de alimentação e alojamento, que encerrou 5,8 mil vagas formais no Estado desde março.
O mapa de classificação de risco impôs horários e protocolos de segurança rígidos para bares e restaurantes. Já o setor de alojamento, que engloba hotéis e pousadas, é impactado pelo turismo que também sofreu um grande baque durante a pandemia. Segundo dados do IBGE, a receita desse setor no Espírito Santo caiu 41,6% no acumulado do ano até setembro.
Por outro lado, a construção civil empregou 4,6 mil pessoas a mais do que demitiu durante a pandemia. A maior parte dessas vagas foram abertas a partir de julho. Os principais motivos para o crescimento do setor são a redução dos juros para contratação de financiamento e a queda do retorno de investimentos em renda fixa, que estimulou a busca por imóveis. Durante o ano chegou a faltar matéria-prima no mercado e, consequentemente, o preço do material de construção disparou.

EFEITOS DEVEM PERDURAR EM 2021

Especialistas afirmam que os efeitos do coronavírus no mercado de trabalho ainda vão seguir em 2021. Segundo o professor de estratégia e gestão de pessoas da Fucape Bruno Felix, um dos motivos é o fato de que é possível que a pandemia ainda continue ativa por boa parte do ano. Paralelamente, as perdas sofridas por algumas empresas em 2020 podem levar tempo para serem compensadas.
“Vamos pegar o ensino superior, por exemplo. Ao terem matriculado menos alunos em 2020, eles vão ter três ou quatro anos de uma receita menor em decorrência do que aconteceu. Por outro lado, empresas que cresceram durante a pandemia, também tem previsão de receita superior para os próximos anos”, aponta.
Para quem perdeu o emprego e precisa se recolocar, ele orienta prestar atenção nos setores menos afetados e até naqueles beneficiados pela pandemia, em busca de oportunidades.
“De repente a pessoa tem uma função que pode atuar tanto em uma escola quanto em um hospital. Um gerente de projetos ou auxiliar de serviços, por exemplo. Às vezes, buscar vagas de trabalho em segmentos onde houve crescimento pode ser uma estratégia inteligente para os próximos anos”, aconselha.
A economista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Ana Paula Fregnani Colombi lembra que a pandemia chegou ao Brasil em um momento em que o mercado de trabalho ainda se arrastava para recuperar os postos perdidos durante a crise econômica de 2015/16.
Para ela, o cita que o fim do Benefício Emergencial (BEm) em dezembro pode reverter a tendência aparentemente positiva do emprego formal nos últimos meses do ano passado.
“Se a economia não reagir com mais força neste ano talvez os dados do mercado formal de trabalho voltem a piorar. Porque tínhamos esse incentivo do BEm e não teremos mais a partir de 2021. Vai levar mais tempo pra se recuperar não só pela pandemia mas porque o crescimento do Brasil está se arrastando”, avalia.

DADOS DE POSTOS FECHADOS PODEM SER MAIORES

Ela lembra ainda que será preciso esperar o ano terminar para avaliar precisamente o impacto da pandemia no emprego, já que há a possibilidade de os números do Caged estarem defasados.
Uma das evidências é o desalinhamento entre os números do Caged em relação aos da Pesquisa Nacional por Amostra do Domicílios (Pnad), feita pelo IBGE. Segundo ela, ainda que as metodologias sejam distintas, o que explica os números diferentes, este ano eles estão muito discrepantes, o que não acontecia anteriormente. Assim, isso pode apontar uma subnotificação nas demissões.

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