Um dos principais elos entre o esquema Telexfree e o financiamento do show de Paul McCartney no Espírito Santo é um jovem especialista em tecnologia da informação que vive em Vila Velha. Ele atuou como testa de ferro dos cabeças da pirâmide, Carlos Costa e Carlos Wanzeler, na empresa de Vitória que viabilizou o show do ex-Beatle em Cariacica.
Mais tarde, acabou preso e condenado em Massachusetts, nos Estados Unidos, por ajudar a Telexfree a operar o que foi identificado como um esquema de lavagem de dinheiro em território norte-americano. Cleber Renê Rizério Rocha admitiu os crimes e recebeu pena de 33 meses de prisão.
A Gazeta analisou processos de pessoas ligadas à Telexfree que tramitaram e tramitam na Justiça americana para mapear a ligação entre elas. A operação que resultou na prisão de Cleber Rocha em 2017, à época com 28 anos, envolveu um "criminoso plantado" pela polícia dentro do esquema, um policial disfarçado e a descoberta de US$ 17 milhões escondidos dentro de uma cama box.
Detalhes do processo, como depoimentos e vídeos, foram enviados à reportagem pelo U.S. Attorney's Office - District of Massachusetts, órgão do governo norte-americano equivalente ao Ministério Público Federal regional no Brasil.
Embora seja apenas uma pequena engrenagem dentro do sistema de crimes contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro dos quais a Telexfree é acusada, o contexto da ação de Rocha é necessário para mostrar a plena relação entre os chefões do esquema e as suspeitas de uso do show para lavagem de dinheiro.
Em 2017, a cúpula da Telexfree pretendia lavar valores enviando-os a Hong Kong e, em seguida, ao Brasil. Em ao menos três viagens aos Estados Unidos, Cleber Rocha, que vivia em uma casa modesta no bairro Santa Mônica, em Vila Velha, entregou dinheiro para ser lavado. Também coube a ele ir ao apartamento onde o dinheiro vivo estava ocultado para verificar se tudo estava sob controle.
Ele chegou aos Estados Unidos pela última vez por Nova York, em 31 de dezembro de 2016. Havia casado em setembro daquele ano e disse às autoridades que passaria uma semana em lua de mel. Alugou uma SUV vermelha no aeroporto JFK e, depois, seguiu com a esposa rumo a Boston, onde tinha missões a desempenhar para a Telexfree.
Uma delas seria entregar uma mala com US$ 2,2 milhões para uma pessoa selecionada por interlocutores de Carlos Wanzeler, um dos cabeças da Telexfree. A entrega foi feita no estacionamento de um restaurante. A meta era embarcar de volta no dia 7 de janeiro de 2017, mas ele só voltou em meados deste ano, após quase três anos preso por lavagem de dinheiro e conspiração.
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AGENTES INFILTRADOS
O indivíduo a quem Cleber entregou o dinheiro seria o responsável por lavá-lo em Hong Kong. Contudo, essa pessoa havia firmado um acordo de cooperação com as autoridades norte-americanas e toda a transação foi monitorada pelas autoridades. Os agentes chegaram a acoplar secretamente um GPS no carro de Rocha.
Antes de prenderem o brasileiro, em 4 de janeiro de 2017, os policiais ainda monitoraram uma segunda entrega. Ele, um ex-antigo funcionário de Carlos Wanzeler, repassou outros US$ 45 mil a Kátia Wanzeler, então esposa do chefe da pirâmide.
Três anos antes de acabar preso em Boston, Cleber Rocha era nada menos do que o dono da empresa de Vitória que trouxe Paul McCartney ao Espírito Santo. O especialista em TI não chegou ao posto por querer enveredar-se no mercado artístico ou por ter expertise no ramo.
Às vésperas do show lendário no estádio Kleber Andrade, em 2014, Wanzeler e seu principal aliado na pirâmide, Carlos Costa, exigiram a admissão de Rocha como sócio majoritário da Capixaba Eventos. Essa empresa foi a que assinou o contrato com a firma que intermedeia as apresentações em toda a América Latina de mega artistas como o ex-Beatle.
O grupo deu entrada na papelada com mudanças societárias e na natureza jurídica da empresa em agosto de 2014. Rocha assinou como sócio administrador da firma e dono de 99% das cotas do negócio. O outro 1% ficou com o produtor Flávio Salles, que até então era o dono da empresa. Para o público e para o mercado, Salles era o único dono.
Apesar de o documento apresentado pelos empresários em agosto daquele ano ser datados de 2008, a Junta Comercial do Espírito Santo oficializou a entrada de Rocha em 4 de setembro de 2014. Paul McCartney subiria ao palco em Cariacica pouco mais de dois meses depois.
Flávio Salles confirmou à reportagem que Rocha não tinha qualquer relevância no negócio e que a entrada dele ocorreu por solicitação de Wanzeler e Costa. “Na negociação com o investidor aconteceu essa colocação de uma pessoa na sociedade que, se sentar aqui, nem sei quem é (...) Eu aceitei”, contou Salles.
Cleber Rocha foi escolhido por Wanzeler e Costa para representá-los na empresa por conta da confiança que desfrutava de ambos. O trio jamais apareceu em nenhum anúncio, entrevista ou evento associado ao show de Paul McCartney no Estado. Na época do show, o dinheiro da Telexfree e dos sócios estava bloqueado. Há suspeitas de que tenham agido para lavar dinheiro. O advogado da empresa nega.
Até A Gazeta começar a publicar as reportagens sobre as suspeitas em torno do evento histórico, a atuação de Rocha como testa de ferro de Carlos Costa e Carlos Wanzeler era mantida com absoluta discrição.
Ainda hoje, segundo os registros oficiais na Receita Federal e na Junta Comercial, a Capixaba Eventos segue ativa e tem Cleber Renê Rizério Rocha como sócio único. Flávio Salles deixou a sociedade em 2015.
DE VOLTA A MASSACHUSETTS
A prisão de Cleber Rocha ocorreu muito tempo depois de Paul McCartney passar pelo Espírito Santo e não teve nenhuma relação direta com as negociações para o show. A pena foi cumprida na Donald W. Wyatt Detention Facility, no Estado de Rhode Island.
No mesmo dia em que foi preso, demonstrou às autoridades, em depoimento, ter conhecimento sobre o funcionamento ilícito da Telexfree. Após mostrar-se abatido e ir às lágrimas, guiou as autoridades, até o endereço na cidade de Westborough, próxima a Boston, onde estavam escondidos US$ 17 milhões sob um colchão. O imóvel era de uma ex-mulher de Carlos Costa.
Também citou o esquema de geração manual de créditos que eram vendidos por líderes da fraude em troca de dinheiro vivo. Essa teria sido a origem dos milhões sob o colchão obtidos por Wanzeler. Trata-se de algo que o Ministério Público Federal do Brasil avalia ser ilícito.
"Apesar de se dizer um jovem e inocente programador de computadores que conhecia Wanzeler, o que Rocha descreveu para os agentes foi seu papel como longevo membro de uma substancial conspiração para lavar dinheiro"
As autoridades perguntaram por qual razão aquilo foi pedido a ele, um ex-prestador de serviços de Carlos Wanzeler. "Eu acredito que foi por causa da confiança porque quando eu trabalhei para ele eu mostrei um ótimo trabalho. Ele deixou a empresa para eu tocar porque eu sou um bom funcionário", disse, sem especificar a empresa.
Embora tenha dito às autoridades que não fazia o "favor" por dinheiro, afirmou que recebia R$ 10 mil ou R$ 20 mil para fazer o que Carlos Wanzeler pedia.
No início, argumentou não saber que estava fazendo nada errado. "Ele perguntou, pediu, se era possível eu vir aqui nos Estados Unidos guardar esse dinheiro, que era uma prática nos Estados Unidos de americanos ou brasileiros guardar dinheiro em casa para não pagar impostos, essas coisas", disse.
Rocha não falava inglês fluentemente. O oficial fez as perguntas em inglês e outro policial funcionou como tradutor. Além disso, os chamados Avisos de Miranda foram lidos e apresentados por escrito na língua materna. Esses avisos são aqueles em que, como nos filmes, a autoridade lembra que o preso tem o direito de permanecer calado, de requerer um advogado e que tudo o que for dito poderá ser usado contra ele nos tribunais.
As autoridades perguntaram quantas vezes ele foi aos Estados Unidos transportar o dinheiro suspeito. "No início, não havia transferências. Eu vinha e ficava no apartamento para olhar, não para fazer transferências. Se eu não estou errado, essa é a terceira vez ( em que há transferências)", disse. Foram 11 vezes, ao todo, sendo nove sob orientação da Telexfree.
Em seguida, foi perguntado sobre quanto em dinheiro Cleber Rocha entregou nas duas primeiras oportunidades. "Foi sempre a mesma quantidade. Costumava variar um pouco. Dois, dois e pouco (em milhões de dólares)", contou. Quando perguntado se o objetivo era fazer o dinheiro chegar ao Brasil, respondeu não ter a informação. "Eu não sei, sinceramente, porque depois que eu entrego eu não pergunto. Só digo que foi entregue. É isso".
A movimentação derradeira de dinheiro oculto, em janeiro de 2017, ocorreu, não custa lembrar, após a Justiça brasileira bloquear as atividades da Telexfree no Brasil, em junho de 2013; após a Justiça norte-americana também determinar o bloqueio, em abril de 2014; após Wanzeler deixar os Estados Unidos via Canadá em direção ao Brasil com o status de fugitivo; e James Merril, o sócio norte-americano do esquema, ser indiciado por fraude, em julho de 2014.
A Procuradoria de Massachusetts, porém, concluiu que Cleber Rocha, ao contrário do que a defesa descrevia, não era "um cordeiro inocente". Um memorando assinado antes da sentença pelo responsável pelo caso, Andrew Lelling, diz que Rocha era investidor da Telexfree, conhecia o esquema de geração manual de créditos para líderes da pirâmide e, ainda, chegou a transportar os milhões de dólares do colchão de um apartamento para outro.
"Rocha não estava alheio a nenhum detalhe da operação - ele sabia que estava movendo enormes quantidades de dinheiro dos Estados Unidos (ele tinha que contar em cada ocasião), e sabia que estava ajudando a mover dinheiro para fora dos Estados Unidos ilegalmente. Ou seja, ele sabia que o dinheiro vinha de uma fraude", escreveu Lelling.
Após reconhecer as acusações, Rocha, por meio da defesa, chegou a pleitear uma pena de 14 meses alegando que seria mais do que suficiente, uma vez que James Merril, integrante da cúpula do esquema, havia sido condenado a 72 meses de prisão. A sentença foi de 33 meses.
QUEM É CLEBER RENÊ RIZÉRIO ROCHA?
Reiteradamente procurado pela reportagem para comentar sua participação na empresa que trouxe Paul McCartney ao Estado, Cleber Rocha não quis dar entrevista. Segundo o site do Bureau of Prisons, ele deixou a prisão em maio deste ano. Rocha já está no Estado, mas não mais no mesmo endereço que aparecia nos registros de 2014. Por e-mail, ele disse que não se pronunciaria.
Cleber Renê Rizério Rocha, hoje com 30 anos, é de Brumado, na Bahia. Veio para o Espírito Santo após concluir o Ensino Médio e fez a faculdade de Tecnologia da Informação em Vila Velha. Conforme narrado pelos advogados dele no processo que tramitou nos Estados Unidos, a carreira de Rocha começou em empresa comandada por Carlos Wanzeler, com quem depois construiria relação de confiança.
Nas alegações, a defesa pontuou que ele se viu forçado a prestar um favor para alguém que considerava amigo, sem entender profundamente as leis norte-americanas, nem as circunstâncias ou as consequências da decisão.
"Ele perdeu seus negócios e agora enfrenta uma ruína financeira", escreveram os advogados, em 19 de dezembro de 2017. Segundo eles, Rocha era um homem íntegro, talentoso, trabalhador e querido pela família. Conforme sustentaram os representantes, foi sugado, sem saber, para o meio de um esquema de fraudes sobre o qual não tinha conhecimento.
O memorando da defesa trouxe uma descrição sobre toda a vida do jovem. Narrou uma infância sem luxos na Bahia e um ótimo desempenho nos estudos. Nos últimos dois anos do ensino regular, por exemplo, os pais perderam as condições de o manter em escola particular. Só seguiu graças a uma bolsa de estudos concedida pela unidade de ensino.
Cleber também é um homem que se diz muito religioso. Os documentos que seus advogados apresentaram aos tribunais dão conta de que o comprometimento dele com os estudos só era igual ao compromisso com as atividades da Igreja Presbiteriana, desde muito jovem. Foi durante os cultos que ele conheceu a esposa, em 2010.
"Ele é conhecido como o 'braço direito' do pastor, um líder da juventude e alguém dedicado ao trabalho da igreja", frisaram os representantes do então acusado.