O friozinho do inverno chegou e com ele, uma das épocas mais badaladas para se visitar as montanhas capixabas. Com a pandemia, muitas famílias têm optado por alugar casas ou chalés para passar um final de semana ou uma pequena temporada. E o preço cobrado não assusta aqueles que buscam conforto. Em alguns casos, a diária da locação é de R$ 4,5 mil.
O crescimento da demanda por esse tipo de imóvel em regiões próximas ao centro de Domingos Martins ou de Pedra Azul, região mais nobre da cidade, Santa Teresa e Marechal Floriano, tem levado a escassez de opções desse tipo de hospedagem.
Isso é o que tem acontecido em Pedra Azul, principalmente, já que casas de alto padrão estão bem ocupadas, sendo que algumas opções só têm reserva para setembro ou outubro, segundo o corretor Kleverson Passos.
“Pedra Azul é o primeiro destino mais procurado e casas de luxo e alto padrão, onde os hóspedes têm mais privacidade, estão em alta demanda. Estamos com os imóveis todos lotados, com vagas somente a partir de setembro ou outubro”, conta.
Passos é especializado em imóveis de alto padrão e já alugou casas para famosos como Wanessa Camargo e Eduardo Costa, além de famílias de dentro e fora do Espírito Santo, que buscam casas onde possam ter privacidade, lazer para toda a familia e uma bela vista. “Fácil acesso a opções gastronômicas também está entre o que procuram. E durante a alta temporada é recomendável, inclusive, reservar com antecedência os restaurantes”, avisa.
Para para ele, a região de Pedra Azul tem se tornado “case de sucesso” para aluguel de imóveis por temporada.
"Um imóvel de R$ 300 mil em Pedra Azul tem o mesmo retorno, no aluguel, de um na faixa de R$ 800 a R$ 900 mil alugado na Grande Vitória. As pessoas entenderam que podem viver uma curta experiência com a temporada. Por outro lado, essa grande procura também gera uma alta de preços"
Há imóveis que cobram R$ 4,5 mil a diária, dependendo da localização, tamanho, facilidades oferecidas e, lógico, o período do ano. Para o corretor imobiliário Beto Lang, que há 20 anos trabalha no mercado de Pedra Azul, ter uma casa na região tem se tornado um dos melhores negócios. Inclusive, ele adianta, muitas pessoas que pensavam em vender, já estão voltando a considerar o aluguel por temporada.
“Existe fila de espera por conta da procura gigantesca. Este tem se tornado um mercado muito lucrativo, que impulsiona até mesmo o de compra e venda. Cresceu muito a procura por terrenos para construir casas que serão alugadas posteriormente. Passar uma temporada nas montanhas virou o sonho de consumo de muitos capixabas, mas de muitas pessoas de fora do Estado também", analisa.
PANDEMIA E SITES DE RESERVA
Desde o ano passado, o setor imobiliário tem registrado aquecimento tanto na compra e venda quanto no aluguel e consequentemente o aluguel por temporada. Um dos principais catalisadores foi o isolamento social exigido por conta da pandemia do novo coronavírus.
Ao passarem mais tempo em casa, as pessoas viram a necessidade de melhorar o lugar onde mora e até mesmo avaliaram a possibilidade de passar um tempo fora, mesmo enquanto trabalha, já que muitas empresas adotaram o home office. Poder alugar, por um tempo determinado, uma casa onde os pais poderiam trabalhar e os filhos estudar e ao mesmo tempo estar em contato com a natureza, longe da correria da cidade e fora do apartamento, começou a se tornar uma opção de lazer seguro.
“Vimos um cenário de procura maior do que a oferta, no setor imobiliário, desde o ano passado e como consequência, um aumento no mercado de locação de casas, que chegou a 40% e em determinadas situações, até mais. Com medo de se instalar em hotéis, por causa da pandemia, muitas famílias optaram por alugar casas. Para este ano, a tendência é que isso aumente ainda mais”, observa o presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Espírito Santo (Creci/ES), Aurélio Capua Dallapicula.
40%
Tem sido a média de aumento no valor dos aluguéis no último ano
Os sites de reserva também tiveram grande responsabilidade no aquecimento desse nicho específico, conforme analisa a diretora da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do Estado (Ademi-ES), Rachel Menezes. “Esse é um movimento que estava começando a tecer há algum tempo, impulsionado pelos sites de reserva, que deixaram tudo mais fácil. Porque antes, para alugar um imóvel por temporada era preciso ou conhecer o dono de uma casa ou ter aquele corretor de confiança”, conta.
Com a entrada das plataformas digitais, houve um impulsionamento desse setor, já que ficou mais fácil procurar o que desejava, nas medidas certas, desde o valor, localização e tipo de imóvel, mesmo pela quantidade de tempo de uso e formas de pagamento.
“Isso fez com que mais pessoas tivessem interesse em ‘fugir’ dos grandes centros. E a pandemia também impulsionou esse tipo de turismo, já que no ano passado, muitas famílias que moram em apartamento se sentiram presas e foram atrás de alguma forma de ter mais contato com a natureza e deixar os filhos mais livres”, analisa.
No entanto, a diretora da Ademi-ES afirma que os sites de reserva foram apenas os catalisadores e o mercado deu um jeito de se adaptar aos novos tempos. “Não só as plataformas digitais têm sido responsáveis por esse novo panorama, elas na verdade abriram o caminho ao facilitar as coisas, mas cada um cria o seu modelo, o que contribuiu para que as pessoas enxergassem esse mercado como promissor e passado a investir cada vez mais nele”, conta.
Prova disso é que proprietários que constroem casas nas montanhas capixabas já fazem o projeto pensando em ter uma área própria para alugar e outra para uso da família. E muitas pessoas que têm uma casa para passar uma temporada já pensam em alugar nos períodos em que não estiver usando.
“A possibilidade de locação proporcionou para muitas pessoas que a existência de uma casa na praia ou nas montanhas não será apenas uma parte que pesa no orçamento como pode também contribuir para a manutenção do próprio imóvel”, avalia a diretora da Ademi-ES.
EMPREENDER NAS MONTANHAS
A empresária Andrea Zamborlini conta que ela e o esposo trabalharam na comercialização das últimas unidades do condomínio que têm na região de Pedra Azul. E logo depois, tiveram a ideia de reformar uma casa de mais de 80 anos e a transformou em três casas.
“Resgatamos aquela casa que estava praticamente destruída, mas que tinha muita história da família do meu marido. Terminamos a reforma no início de maio e desde então, não temos tido um final de semana sem alugar. É um perfil de cliente que está em busca de experiência de passar uns dias no campo. As casas são temáticas e tratamos os hóspedes oferecendo facilidade de um hotel, mas com a experiência de viver no campo”, conta.
Sua sócia no negócio, Ana Lúcia Fontes, fala que a procura é tão grande que já estão repassando clientes para outras propriedades. “Estamos lotados até agosto. Muitos casais e famílias nos procuram, principalmente para passar o final de semana em Pedra Azul, aproveitar o frio dessa época do ano”, conta.
O professor federal Wagner Kirmse Caldas também tem celebrado a alta procura da suíte que ele aluga em sua propriedade em Santa Teresa. “Abri há três semanas o aluguel e está sempre cheio. É uma suíte de 30 metros quadrados, com banheiro, e uma bela vista, que decidimos focar num público, que são casais que buscam ter uma experiência com a natureza e não somente um local para dormir”, conta.
A ideia de criar este espaço para receber veio por conta da pandemia, já que ele e a esposa deixaram de viajar e decidiram investir em uma casa para morar fora da Grande Vitória, mas que tivesse uma forma de se pagar, ao alugar parte da propriedade, que fica em uma região alta do município. “Planejamos ter quatro suítes, mas já estamos pensando em reduzir para apenas duas, pois queremos continuar dando toda atenção aos nossos hóspedes”, atenta.
E durante a pandemia, todo o cuidado com a higiene é adotado. Segundo Caldas, entre um hóspede e outro ele e a esposa realizam toda a troca de roupas de cama e higienização do quarto. Além disso, há álcool em gel e líquido dentro da suíte e o uso de máscaras do lado de fora, pelos hóspedes, é obrigatório.