A aquisição da Rede Hortifruti pela Americanas e uso frequente de aplicativos até para aquisição de alimentos, como arroz, feijão, frutas e verduras, pode ser o ponto de partida para uma nova era do setor de supermercados do Espírito Santo, ao modificar noções sobre a forma de se comprar e de se entregar.
Analistas avaliam que a agilidade nesse processo se tornou um grande diferencial competitivo, principalmente após a pandemia, que fez disparar a busca por serviços de delivery.
A gigante do e-commerce, que já contava com um serviço de entregas linkado ao site principal da marca, o Americanas Mercado, concluiu, recentemente, a aquisição do aplicativo de delivery capixaba Shipp, já rebatizado de Americanas Delivery.
A conclusão da operação, avaliada em R$ 2,1 bilhões, ainda está sujeita à aprovação prévia do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), mas caso a venda do Hortifruti seja confirmada, a Americanas terá possibilidade de fazer entregas bem mais rápidas de alimentos frescos e outros itens básicos, uma vez que a empresa terá em mãos a ferramenta logística e os produtos à disposição.
Mesmo antes da operação, alguns supermercados já faziam suas vendas por meio do aplicativo. E existem outras alternativas que também têm ganhado adeptos no Espírito Santo, como é o caso do Uber Eats, que conta com um nicho de mercado, e do Ifood, por meio do qual vendem lojas como Extrabom e São José. Existe ainda o Cordershop, que faz as compras para você, no Carrefour e Sam's Club.
Outros estabelecimentos do Estado também começam a caminhar nessa direção, mas optam por canais próprios. O Carone e o Extrabom, por exemplo, tem e-commerce consolidado desde antes do início da pandemia, mas cresceu com a busca de comodidade no período de isolamento social.
Ok Superatacado, por exemplo, liberou, recentemente, a opção de compra on-line, por meio do site da empresa. O consumidor pode optar por ter o pedido entregue em casa ou por retirá-lo no Ok de Laranjeiras, na Serra, já separado e embalado.
Nos três casos, no entanto, as compras não são entregues na hora. O consumidor precisa marcar o dia para receber o produto ou mesmo para fazer o drive-thru.
Integrado a isso, a empresa lançou ainda o aplicativo OK Dindim, que permite obter parte do dinheiro de volta na hora da compra — o famoso cashback. O saldo acumulado pode ser utilizado para pagar futuras compras nas unidades da rede. Essa modalidade de serviço ganhou popularidade em lojas virtuais nos últimos anos. Mas agora também começa a ganhar os espaços físicos.
O Canguru Supermercados, com duas lojas na Serra, que já oferecia a comodidade das compras on-line para seus clientes há mais de três anos, viu a demanda crescer com a pandemia, e chegou ao ponto de contratar taxistas para a entrega do supermercado. "Um negócio bom para ambos, já que o serviço de táxi também foi impactado pelos aplicativos de transporte", destacou a empresa, em nota.
O clube de compras Sam’s Club, pertencente ao Grupo BIG, lançou também uma plataforma de e-commerce da marca, para atender os sócios da região de Vitória, que agora podem abastecer suas despensas sem sair de casa, e com a entrega gratuita nas compras com valor a partir de R$ 150.
“Somos especialistas em varejo e sabemos que podemos oferecer um serviço melhor. Vamos oferecer uma experiência diferenciada, com equipes treinadas e dedicadas exclusivamente ao atendimento e seleção (picking) dos produtos em cada loja, o que torna o processo mais rápido e eficiente”, destacou.o diretor executivo digital do Grupo BIG, Marcelo Rizzi.
De acordo com o executivo, a plataforma foi desenvolvida após a realização de um amplo diagnóstico sobre as soluções disponíveis no mercado. A partir desta avaliação, a empresa optou pelo modelo de logística Ship From Store, que utiliza as lojas físicas como centro de distribuição.
“Além de trazer vantagens para o consumidor, o sistema valoriza os nossos ativos e gera um ganho de eficiência significativo para a companhia”, explicou
Já o Carrefour, que desde de 2016 contava com serviço de entrega, lançou, em outubro do ano passado, uma nova plataforma de compras pela internet. Conforme explicou o diretor do e-commerce da rede, Adriano Ciarletti, com o isolamento social e a aceleração digital, no segundo trimestre de 2020, o crescimento do e-commerce do Grupo representou um salto de três anos em três meses, e foi preciso ampliar a atuação da marca no ambiente virtual.
“Com o uso de modernas soluções, avançamos na integração ágil dos sistemas internos e externos para oferecer uma experiência cada vez mais unificada para os nossos clientes. A inovadora plataforma tem impactos positivos em todas as frentes do negócio, com uma performance de alto nível na gestão de pedidos, estrutura de marketplace e nos serviços que conectam a operação online com as lojas físicas.”
O QUE GARANTE A FIDELIZAÇÃO DO CLIENTE
O gerente de Marketing e Inovação do Grupo Multivix, Giulianno Bresciani, pontuou que o e-commerce especificamente não é uma ideia nova, mas o modo como é feito é o que garantirá a fidelização do cliente.
"A gente vê a Americanas comprando o Hortifrutti, comprando a Shipp, integrando um pacote junto a um site que já é um dos maiores do Brasil, e é uma combinação que dá muito certo porque o consumidor já se habituou com isso, com comprar sem sair de casa e receber em pouquíssimo tempo. Quem não quiser perder espaço, tem que seguir por esse caminho."
E ele frisa que além de ter um bom site ou aplicativo, a entrega do pedido também deve ser bem planejada, desde a seleção dos produtos até o momento em que o consumidor recebe a encomenda em casa. "Não basta entregar rápido, é preciso entregar o pedido em condições adequadas, que não façam com que o cliente queira devolver a compra, ou desista da plataforma."
O ponto é reforçado pela professora das unidades de Engenharia e Gestão de Negócios da Faesa, Liana Figueiredo, que pontua que essa agilidade no processo de vendas à distância não diz respeito somente à tecnologia, mas ao capital humano envolvido, que é tão importante quanto.
"É interessante haver uma reestruturação, que envolve tecnologia, novas plataformas, que podem ser construídas para cada ambiente de varejo e que consigam incorporar essa nova necessidade, que acaba sendo latente, que é a urgência", explica.
"Os produtos e preços não costumam ter muita diferenciação entre o ofertante, então o prazo de entrega pode ser o diferencial que tornará o negócio mais competitivo"
"Tem a ver com tecnologia, uma plataforma que permita essa rapidez, mas tem também a dimensão humana. Por mais que tenha ali o algoritmo, o processo de separação ainda é humano. É preciso conscientizar as pessoas sobre a importância, a necessidade de rapidez daquela função. É algo importante. Às vezes a pessoa está preparando um almoço, ou precisa dar um leite pro filho. São questões urgentes. Não é só a tecnologia que precisa avançar."