A pouco meses das eleições, o preço dos combustíveis voltou a ser alvo do presidente Jair Bolsonaro (PL), que decidiu pela troca no comando da Petrobras apenas 40 dias após a última intervenção. A substituição de José Mauro Ferreira Coelho por Caio Paes de Andrade, entretanto, não deve significar queda nos preços.
Se muito, a decisão do governo – que pode acarretar também na substituição de diretores e do conselho de administração da empresa – pode trazer uma contenção dos preços dos combustíveis, de forma artificial. Isto é, a aplicação de reajustes ocorreria após intervalos mais longos.
Atualmente, a estatal está há 73 dias sem reajustar o preço da gasolina nas refinarias. Levantamento do Observatório Social da Petrobras (OSP) mostra que o maior intervalo de dias sem reajuste na gasolina da companhia até então tinha sido o período encerrado em outubro de 2021, quando foram 58 dias sem mudança no preço às distribuidoras.
Não se trata de medida necessariamente benéfica, apenas faz com que a correção da defasagem, em vez de progressiva, seja feita em de uma única vez, quando necessário. A diferença é que o debate público sobre a alta dos preços se torna menos frequente.
José Mauro Ferreira Coelho foi o mais recente de uma lista de comandantes da Petrobras demitidos no governo Jair Bolsonaro, depois de Roberto Castello Branco e Joaquim Silva e Luna. Pré-candidato à reeleição, Bolsonaro cobrou de todos eles que os preços fossem contidos.
Entretanto, a Petrobras está submetida ao critério de paridade internacional, que faz o preço dos combustíveis variar de acordo com a cotação do barril de petróleo no mercado internacional e das oscilações do dólar, conforme observa a economista Arilda Teixeira.
“Essas trocas não impactam realmente o preço do combustível porque o preço não é decidido pela vontade do presidente da República ou do próprio presidente da Petrobras. Ele é dado pela cotação internacional. Trata-se de um derivado do petróleo, e, portanto, quando o preço do barril do petróleo sobe, sobe também o preço dos combustíveis.”
"Segurar um pouco os preços para depois aumentar não resolve a situação, pois ataca o efeito do problema e não causa. E não dá para enfrentar a causa porque não é uma questão do Brasil, e sim internacional. O que pode acontecer é de ficar mais ou menos agravada de acordo com a forma como o país age em relação a essa situação"
O ponto é observado também pelo analista senior e líder da área de análise da Warren, Fred Nobre, que reforça que a Petrobras tem onze membros no conselho, e não é “na base da canetada” ou por definição de uma única pessoa que a política de preços será alterada.
Os riscos de responsabilização por eventuais mudanças que prejudiquem a estatal também podem conter o ímpeto por interferências.
Nobre observa, entretanto, que outros impactos são mais imediatos. Essa sucessão de trocas volta a abalar a confiança do mercado em relação à empresa, cujas ações iniciaram o pregão da Bolsa de Valores de São Paulo em queda nesta terça-feira (24), e cuja cotação chegou a R$ 31,60 ao final do dia, com recuo de 3,06%.
“Nesta quarta haverá uma reunião ordinária para referendar a indicação de Paes de Barros, mas se o presidente atual, José Mauro Coelho, for destituído, todos os outros membros que foram eleitos em abril por voto múltiplo vão ter que passar por uma nova eleição, isso implica na destituição de todos os demais conselheiros eleitos pelo mesmo mecanismo. O cenário ainda é muito incerto.”
E complementou: “Ter tantas trocas no comando não é saudável para empresa nenhuma. O mercado penaliza. Mas não vejo isso, neste momento, como um catalisador negativo para os resultados da companhia no trimestre, por exemplo. Vejo que a queda é mais uma reação do mercado à notícia divulgada e não tem outro fator que justifique uma queda mais acentuada nas próximas sessões. A não ser que essas reuniões do conselho tenham um desfecho diferente desse que é mais provável.”
Analistas dos bancos UBS BB e Goldman Sachs mantêm recomendação de compra de ações da companhia, ainda baseada na expectativa de distribuição de elevados dividendos. A retornar aos seus acionistas R$ 101 bilhões pelo desempenho de 2021, a Petrobras entrou na lista das empresas conhecidas pelo mercado como "vacas leiteiras".
Waldir Morgado, sócio Nexgen Capital, também mantém a recomendação, acreditando no pagamento de fartos dividendos no ano. E ressalta que o governo já promoveu três trocas no comando da estatal sem que houvesse mudança na política de paridade com as cotações internacionais.
* Com informações da Agência Folhapress