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Novo gás natural

Conheça o biometano, gás que poderá chegar ao fogão de 75 mil casas no ES

Conhecido como "gás do futuro", combustível está sendo estudado para substituir parte da demanda de gás natural do Estado

Publicado em 15 de Junho de 2023 às 07:49

Geraldo Campos Jr

Publicado em 

15 jun 2023 às 07:49
ES Gás será privatizada
Gasoduto da ES Gás: Estado estuda transportar biometano pelo sistema Crédito: ES Gás/Divulgação
O setor de gás natural capixaba se prepara para dar mais um salto nos próximos anos. Depois da regulamentação do mercado livre em âmbito nacional e da privatização da ES Gás, distribuidora de gás natural canalizado no Espírito Santo, um novo produto pode ampliar a oferta do combustível no Estado e tornar o setor ainda mais competitivo, sustentável e renovável: o biometano.
governo do Espírito Santo começou a estudar o uso desse gás como fonte de energia. O primeiro passo foi dado pela Agência de Regulação de Serviços Públicos do Estado (ARSP), que realizou uma consulta pública sobre a possibilidade de distribuir biometano pelo sistema de gás canalizado da ES Gás.
A possibilidade de injetar o biometano no sistema de distribuição e misturá-lo com o gás natural permitiria uma diversificação de supridores de gás canalizado no Espírito Santo. Isso pode fazer com que o biometano chegue a cerca de 75 mil residências em 13 municípios capixabas.
O biometano é um combustível renovável e derivado do biogás, que, por sua vez, é gerado a partir da decomposição de resíduos orgânicos em função da ação de bactérias biodigestoras, como ocorre em aterros sanitários, estações de tratamento de esgoto e depósitos de rejeitos de atividades agropecuárias.
Esse biogás é composto por cerca de 60% de metano e aproximadamente 35% de dióxido de carbono, além de outros gases com menor presença, como nitrogênio e amônia. Para virar biometano precisa passar por um processo de purificação, que faz a presença de metano predominar e ficar na casa de 90% da composição.
Não é à toa que o biometano já vem sendo chamado de novo gás natural ou de gás do futuro. Trata-se de um combustível ambientalmente correto, totalmente renovável e sustentável, que terá importante papel para a descarbonização do setor, com a redução da emissão de gases do efeito estufa.

13 cidades

São atendidas pela rede de gás encanado do ES
O diretor-presidente da ARSP, Marcelo Antunes, destaca que, em qualidade, o biometano é um produto bem próximo do gás natural, podendo ser misturado. "Após a purificação, em que são retirados os gases poluentes, fica um combustível muito semelhante ao gás natural, de alta qualidade, e pode ser usado em indústrias e residências, por exemplo".
Antunes destaca que o biometano já vem sendo uma nova fonte de energia utilizada lá fora, minimizando o carbono, E aponta que o Espírito Santo tem grande potencial nesse mercado.  Atualmente, segundo ele, o biogás gerado no Estado é desperdiçado na grande maioria dos casos.
"Hoje esse biogás não tem destinação. A nossa ideia é estimular a captação dele, como é feito em outros locais, transformá-lo em biometano através do processo de purificação e, a partir disso, ter um produto que pode ser comercializado"
Marcelo Antunes - Diretor-presidente da ARSP
De acordo com Antonio Fernando Cesar Filho, diretor de Operações da ES Gás, são várias as possibilidades no horizonte, como usar o biometano para substituir ou ser parceiro do gás natural, transportá-lo em carretas para ser usado como combustível em empresas ou até mesmo construir dutos específicos para coletar e distribuir o produto para alguma região.
"Na Europa isso já está avançado, com muitas plantas. Mas, no Brasil, ainda estamos iniciando. Deve ter 11 plantas no máximo. E tem muito potencial dentro da agenda ESG, além do novo mercado de gás ajudar nesse sentido, permitindo que a gente compre esse gás, por exemplo, ou mesmo que consumidores livres comprem direto dos produtores e a ES Gás entregue", pontua.
Ainda não há projeções sobre potencial de produção no Espírito Santo, investimentos necessários ou mesmo uma estimativa de preço do combustível, mas a ideia é que, apesar do alto custo de implantação de usinas de purificação, o biometano seja competitivo com o gás natural.
O valor de aquisição será levantado pela equipe técnica da ARSP, que está fazendo o estudo considerando o investimento inicial, segundo Antunes. "Ao jogar o bimetano junto com o gás, isso tem um reflexo na tarifa. Então temos que estudar esse preço, se vai valer a pena e não vai onerar a tarifa. A intenção é que seja um preço mais acessível no longo prazo", explica.
Além do gás natural, o biometano também pode ser usado para substituir gasolina, diesel, álcool e o próprio GNV nos veículos leves e pesados. O combustível também pode ser utilizado na geração de energia elétrica.

ES já tem potenciais fornecedores

Antunes cita que o Estado hoje conta com uma grande gama de potenciais fornecedores. As estações de tratamento da Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) são um exemplo. Outro são os aterros sanitários, como é o caso da Marca Ambiental, empresa de Cariacica é que a maior do Espírito Santo em soluções para resíduos. O local recebe cerca de 50% do lixo gerado no Estado.
Parte do biogás que é gerado nos aterros da empresa é transformado em eletricidade em uma planta recém-ampliada, com capacidade de geração de 5MW/h de energia elétrica. A outra parte, que atualmente não é utilizada, deve ser purificada para virar biometano em breve.
Conforme a coluna Abdo Filho, de A Gazeta, a empresa vai investir R$ 50 milhões na construção de uma usina de biometano com capacidade para produzir 2 mil m³/hora. A expectativa é que a planta comece a operar em meados de 2024 e os empresários já têm iniciado conversas com a ES Gás.
Marca Ambiental assume papel de protagonismo no Espírito Santo.
Complexo da Marca Ambiental em Cariacica Crédito: Marca Ambiental/Divulgação
"Nós temos vários potenciais fornecedores, como as estações de tratamento de esgoto e os aterros, onde são gerados biogás. O que nós queremos é criar as soluções para proporcionar as condições que as empresas precisam para investir e ajudar o meio ambiente, tendo retorno financeiro a partir disso também", afirma Marcelo Antunes, diretor-presidente da ARSP.
A ES Gás tem estudos em andamento para analisar o potencial. Além das conversas com a Marca Ambiental, um levantamento deve ser feito em parceria com a Cesan para verificar a possibilidade de purificar o biogás gerado nas ETEs da companhia, segundo Antonio Fernando Cesar Filho. "Temos vários possibilidades e agora vamos avaliar a viabilidade técnica-econômica disso".
Filho cita como exemplo potencial o polo de avicultura localizado na região de Santa Maria de Jetibá. "Os locais que criam galinhas têm depósitos dos dejetos da produção. A gente vai estudar a viabilidade de que o biogás liberado lá seja transformado em biometano. Assim como usinas de álcool, que geram muito bagaço de cana."
"A ES Gás vai se expandir muito nos próximos anos. À medida em que a gente amplie a nossa rede de distribuição, isso vai se tornar mais factível porque chegará mais perto dos produtores, já que esses polos de agro ficam mais no interior, nas montanhas. Se a viabilidade for boa, podemos fazer um novo duto, para captar o biometano de um produtor e distribui-lo"
Antonio Fernando Cesar Filho - Diretor de Operações da ES Gás
Atualmente, a malha da ES Gás conta com 520 quilômetros de rede, mas atende apenas alguns municípios do litoral e da Grande Vitória. A expectativa com a privatização da companhia é a ampliação dos municípios e consumidores atendidos nos próximos anos. A Energisa deve assumir a gestão da companhia em julho.

O que precisa ser feito

O contrato de concessão da ES Gás já contempla o biometano na definição de "gás", desde que atendidas as especificações de qualidade estabelecidas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Tecnologia para a purificação também já existe, assim como investidores interessados. 
Mas para que o mercado de biometano se torne uma realidade é preciso que sejam superados alguns trâmites para organização da cadeia e segurança jurídica, como a elaboração de uma regulamentação estadual sobre a distribuição do biometano, o que será feito pela ARSP a partir da consulta pública que foi encerrada no último dia 9.
"A partir desse processo que começou com a consulta pública, vamos definir quem é responsável pelo que, como vai funcionar a venda, a entrega e o uso da rede de distribuição", detalha Marcelo Antunes.
Conheça o biometano, gás que poderá chegar ao fogão de 75 mil casas no ES

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