O setor de gás natural capixaba se prepara para dar mais um salto nos próximos anos. Depois da regulamentação do mercado livre em âmbito nacional e da privatização da ES Gás, distribuidora de gás natural canalizado no Espírito Santo, um novo produto pode ampliar a oferta do combustível no Estado e tornar o setor ainda mais competitivo, sustentável e renovável: o biometano.
O governo do Espírito Santo começou a estudar o uso desse gás como fonte de energia. O primeiro passo foi dado pela Agência de Regulação de Serviços Públicos do Estado (ARSP), que realizou uma consulta pública sobre a possibilidade de distribuir biometano pelo sistema de gás canalizado da ES Gás.
A possibilidade de injetar o biometano no sistema de distribuição e misturá-lo com o gás natural permitiria uma diversificação de supridores de gás canalizado no Espírito Santo. Isso pode fazer com que o biometano chegue a cerca de 75 mil residências em 13 municípios capixabas.
O biometano é um combustível renovável e derivado do biogás, que, por sua vez, é gerado a partir da decomposição de resíduos orgânicos em função da ação de bactérias biodigestoras, como ocorre em aterros sanitários, estações de tratamento de esgoto e depósitos de rejeitos de atividades agropecuárias.
Esse biogás é composto por cerca de 60% de metano e aproximadamente 35% de dióxido de carbono, além de outros gases com menor presença, como nitrogênio e amônia. Para virar biometano precisa passar por um processo de purificação, que faz a presença de metano predominar e ficar na casa de 90% da composição.
Não é à toa que o biometano já vem sendo chamado de novo gás natural ou de gás do futuro. Trata-se de um combustível ambientalmente correto, totalmente renovável e sustentável, que terá importante papel para a descarbonização do setor, com a redução da emissão de gases do efeito estufa.
13 cidades
São atendidas pela rede de gás encanado do ES
O diretor-presidente da ARSP, Marcelo Antunes, destaca que, em qualidade, o biometano é um produto bem próximo do gás natural, podendo ser misturado. "Após a purificação, em que são retirados os gases poluentes, fica um combustível muito semelhante ao gás natural, de alta qualidade, e pode ser usado em indústrias e residências, por exemplo".
Antunes destaca que o biometano já vem sendo uma nova fonte de energia utilizada lá fora, minimizando o carbono, E aponta que o Espírito Santo tem grande potencial nesse mercado. Atualmente, segundo ele, o biogás gerado no Estado é desperdiçado na grande maioria dos casos.
"Hoje esse biogás não tem destinação. A nossa ideia é estimular a captação dele, como é feito em outros locais, transformá-lo em biometano através do processo de purificação e, a partir disso, ter um produto que pode ser comercializado"
De acordo com Antonio Fernando Cesar Filho, diretor de Operações da ES Gás, são várias as possibilidades no horizonte, como usar o biometano para substituir ou ser parceiro do gás natural, transportá-lo em carretas para ser usado como combustível em empresas ou até mesmo construir dutos específicos para coletar e distribuir o produto para alguma região.
"Na Europa isso já está avançado, com muitas plantas. Mas, no Brasil, ainda estamos iniciando. Deve ter 11 plantas no máximo. E tem muito potencial dentro da agenda ESG, além do novo mercado de gás ajudar nesse sentido, permitindo que a gente compre esse gás, por exemplo, ou mesmo que consumidores livres comprem direto dos produtores e a ES Gás entregue", pontua.
Ainda não há projeções sobre potencial de produção no Espírito Santo, investimentos necessários ou mesmo uma estimativa de preço do combustível, mas a ideia é que, apesar do alto custo de implantação de usinas de purificação, o biometano seja competitivo com o gás natural.
O valor de aquisição será levantado pela equipe técnica da ARSP, que está fazendo o estudo considerando o investimento inicial, segundo Antunes. "Ao jogar o bimetano junto com o gás, isso tem um reflexo na tarifa. Então temos que estudar esse preço, se vai valer a pena e não vai onerar a tarifa. A intenção é que seja um preço mais acessível no longo prazo", explica.
Além do gás natural, o biometano também pode ser usado para substituir gasolina, diesel, álcool e o próprio GNV nos veículos leves e pesados. O combustível também pode ser utilizado na geração de energia elétrica.
ES já tem potenciais fornecedores
Antunes cita que o Estado hoje conta com uma grande gama de potenciais fornecedores. As estações de tratamento da Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) são um exemplo. Outro são os aterros sanitários, como é o caso da Marca Ambiental, empresa de Cariacica é que a maior do Espírito Santo em soluções para resíduos. O local recebe cerca de 50% do lixo gerado no Estado.
Parte do biogás que é gerado nos aterros da empresa é transformado em eletricidade em uma planta recém-ampliada, com capacidade de geração de 5MW/h de energia elétrica. A outra parte, que atualmente não é utilizada, deve ser purificada para virar biometano em breve.
Conforme a coluna Abdo Filho, de A Gazeta, a empresa vai investir R$ 50 milhões na construção de uma usina de biometano com capacidade para produzir 2 mil m³/hora. A expectativa é que a planta comece a operar em meados de 2024 e os empresários já têm iniciado conversas com a ES Gás.
"Nós temos vários potenciais fornecedores, como as estações de tratamento de esgoto e os aterros, onde são gerados biogás. O que nós queremos é criar as soluções para proporcionar as condições que as empresas precisam para investir e ajudar o meio ambiente, tendo retorno financeiro a partir disso também", afirma Marcelo Antunes, diretor-presidente da ARSP.
A ES Gás tem estudos em andamento para analisar o potencial. Além das conversas com a Marca Ambiental, um levantamento deve ser feito em parceria com a Cesan para verificar a possibilidade de purificar o biogás gerado nas ETEs da companhia, segundo Antonio Fernando Cesar Filho. "Temos vários possibilidades e agora vamos avaliar a viabilidade técnica-econômica disso".
Filho cita como exemplo potencial o polo de avicultura localizado na região de Santa Maria de Jetibá. "Os locais que criam galinhas têm depósitos dos dejetos da produção. A gente vai estudar a viabilidade de que o biogás liberado lá seja transformado em biometano. Assim como usinas de álcool, que geram muito bagaço de cana."
"A ES Gás vai se expandir muito nos próximos anos. À medida em que a gente amplie a nossa rede de distribuição, isso vai se tornar mais factível porque chegará mais perto dos produtores, já que esses polos de agro ficam mais no interior, nas montanhas. Se a viabilidade for boa, podemos fazer um novo duto, para captar o biometano de um produtor e distribui-lo"
Atualmente, a malha da ES Gás conta com 520 quilômetros de rede, mas atende apenas alguns municípios do litoral e da Grande Vitória. A expectativa com a privatização da companhia é a ampliação dos municípios e consumidores atendidos nos próximos anos. A Energisa deve assumir a gestão da companhia em julho.
O que precisa ser feito
O contrato de concessão da ES Gás já contempla o biometano na definição de "gás", desde que atendidas as especificações de qualidade estabelecidas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Tecnologia para a purificação também já existe, assim como investidores interessados.
Mas para que o mercado de biometano se torne uma realidade é preciso que sejam superados alguns trâmites para organização da cadeia e segurança jurídica, como a elaboração de uma regulamentação estadual sobre a distribuição do biometano, o que será feito pela ARSP a partir da consulta pública que foi encerrada no último dia 9.
"A partir desse processo que começou com a consulta pública, vamos definir quem é responsável pelo que, como vai funcionar a venda, a entrega e o uso da rede de distribuição", detalha Marcelo Antunes.
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