No Espírito Santo, Estado com sete portos ao longo de 417 quilômetros de litoral e grande conexão com o comércio exterior, costuma-se dizer que basta olhar para o mar para perceber quando as coisas vão bem ou não na economia. Se tem muitos navios fundeados, aguardando para carregar ou descarregar mercadorias, significa que a economia capixaba vai bem. Se tem pouca embarcação, vai mal. Para os técnicos, não é bem assim.
O fato é que os dados fornecidos pelo Sindicato do Comércio de Exportação e Importação do Estado do Espírito Santo (Sindiex) mostram que houve uma queda de 6,57% nas importações no primeiro trimestre de 2020 (US$ 1,3 bilhão) em relação ao mesmo período de 2019 (US$ 1,4 bilhão). Nas exportações, a queda foi ainda maior nos três primeiros meses de 2020, chegando a 23,64% (US$ 1,4 bilhão) na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior (US$ 1,9 bilhão).
Os números negativos coincidem com o início da pandemia do novo coronavírus na China, um dos maiores clientes do Estado e o maior consumidor mundial de commodities. Mas o mar parece mudar, quer dizer, as importações nos meses de abril (US$ 645 milhões) e maio (US$ 764 milhões) foram positivas. Segundo o Sindiex, esse aumento foi motivado por importações pontuais de mercadorias do setor offshore, como tubos e válvulas. Tanto que, se considerados os números de janeiro a maio, o total é 13,2% superior em comparação ao mesmo período de 2019.
Quem parece concordar que navegar pelos números da economia nos últimos meses tem sido desafiador é Ilson Hulle, diretor de terminais da Log-In, administradora do Terminal de Vila Velha (TVV).
Para ele, o primeiro trimestre foi um período complexo. “Em junho, já percebemos uma retomada nas exportações para os EUA, Europa e Ásia dos principais produtos da região: rochas ornamentais, café e itens agrícolas. Também percebemos o retorno mais lento das importações”. Hulle tem a expectativa de que ocorra a retomada gradativa das exportações e importações a partir de julho.
No TVV, único terminal de contêineres do Espírito Santo, entre todos contêineres movimentados no primeiro trimestre de 2020, 24 mil estavam cheios (65,6%), volume 5,8% menor do que em 2019, quando movimentou 25,5 mil (64,9%). Pelo terminal passam eletrodomésticos, insumos para a indústria de mineração e siderúrgica, peças, fertilizantes, gusa, malte, equipamentos para o setor de petróleo, e outros.
MESMO COM A COVID-19, TERMINAL NÃO PAROU
Durante a pandemia do novo coronavírus, os portos foram classificados como atividade essencial pelo governo federal e isso contribuiu para que toda cadeia de abastecimento, importações e exportações continuasse funcionando normalmente. Dessa forma, desde o início da pandemia, o TVV não parou.
“Tivemos muitos desafios, mas continuamos trabalhando de forma ininterrupta desde o início da pandemia”, conta Hulle. Esse fato “foi importante para que o setor de rochas ornamentais, que é um dos principais da economia capixaba, tenha conseguido, mesmo durante a pandemia, levar seus produtos para os Estados Unidos e China”, conclui.
Para evitar o contágio da Covid-19 entre os seus funcionários, a Log-In adotou várias medidas. Dentre elas, um comitê formado por uma equipe multidisciplinar, para acompanhar e seguir as diretrizes do Ministério da Saúde, da Organização Mundial da Saúde. No porto, foram reforçadas as medidas de garantia da segurança individual e as medidas e protocolos ficaram mais rígidos
NOVO CALADO VAI INTENSIFICAR ATIVIDADES NO PORTO DE VITÓRIA
Há anos, o Porto de Vitória passa pelo processo de dragagem e derrocagem e, mesmo com as obras finalizadas, o porto continuava com limitações para movimentar navios de maior calado. Nos últimos meses, entretanto, essa situação começou a avançar. Desde abril, a Capitania dos Portos autorizou os testes com navios de calado maior (passando de 10,7 metros para 12,5 metros), uma das etapas para a conclusão e autorização para que o Porto de Vitória passe a receber definitivamente esses "novos" navios.
A expectativa é que todos os 10 testes, exigidos pela Marinha, sejam concluídos até o final do ano, tornando o Porto de Vitória mais competitivo e contribuindo para melhorar os números das importações e exportações.
Com esse processo, o TVV recebeu três navios de maior calado nos meses de maio e junho. “Essa medida é de extrema importância nesse momento, traz benefícios não só para a economia, como também para os donos de cargas (importadores e exportadores), que passam a contar com um porto mais competitivo. Nossa estimativa é que o novo calado possibilite um aumento de dois dígitos percentuais na capacidade de movimentação”, diz Ilson Hulle, diretor de terminais da Log-In Logística Intermodal, administradora do TVV.
Apesar do otimismo de Hulle, durante os testes para o novo calado, foram utilizados dois práticos e três rebocadores, quantidade de profissionais e embarcações superior às necessárias para as operações tradicionais, o que pode representar um aumento de custos, inibir os armadores e prejudicar os negócios no comércio exterior. Hulle afirma esperar que essa exigência tenha sido apenas para o período de manobras-testes e não se torne obrigatória futuramente.