O brasileiro não tinha ainda superado à crise econômica causada pela gastança fiscal de cidades, Estados e a União quando a pandemia do novo coronavírus surpreendeu o mundo, trazendo mortes e retração da atividade produtiva.
Os empregos no Brasil começavam ainda a ser recuperados, a inflação, principalmente dos alimentos, estava controlada, porém a Covid-19 mostrou que era um problema muito maior que sanitário.
Passando por uma onda de crises que têm afetado profundamente a economia do país, os brasileiros ocupam, atualmente, o segundo lugar no ranking que mede o índice de mal-estar dos países.
O levantamento realizado pelo pesquisador da área de Economia Aplicada do FGV-Ibre - Instituto Brasileiro de Economia, Daniel Duque, mostrou que a população brasileira tem um índice de desconforto que chegou a 19,83% no primeiro trimestre de 2021.
É o maior valor já registrado nos últimos cinco anos, desde 2016, quando o país enfrentava uma recessão econômica. O índice é medido com a soma das taxas de inflação e de desemprego e foi criado por Arthur Okun, que foi analista e chefe do Conselho de Assessores Econômicos de Lyndon Johnson, presidente americano, de 1963 a 1969.
O índice busca medir o grau de estresse econômico sofrido pela população, devido ao risco de perder emprego combinado com um aumento do custo de vida. Na média do mundo, segundo o Banco Mundial, a Taxa de Desconforto se elevou de 7,5 para 8,4%, seu maior nível desde 2013.
Para Daniel Duque, o aumento de preços e desemprego tendem a gerar problemas de saúde e convivência, tendo em vista a deterioração das condições materiais de vida.
"No curto prazo, há maior incerteza e, por consequência, aversão ao risco, além do perigo de inércia inflacionária. A geração que entra no mercado de trabalho nessas condições acaba por ser prejudicada ao longo de toda sua vida produtiva, com menores rendimentos e produtividade em relação às gerações que o fazem em momentos de maior normalidade econômica"
Na frente do Brasil, apenas a Turquia, cuja taxa mais recente corresponde a 26,27%, registrada no quarto trimestre de 2020. Logo depois do Brasil estão a Espanha com 16,09%, a Colômbia com 15,63% e a Grécia com um índice de 14,08%.
Quanto maior o indicador, pior é a taxa de mal-estar de um país. O levantamento foi realizado entre os países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), onde o Brasil entra como convidado.
Segundo a pesquisa, a tendência é que a Taxa de Desconforto no Brasil ultrapasse a sua máxima de 2016, levando em consideração as projeções de alta na inflação para os próximos meses e o grande contingente de trabalhadores ainda fora da força de trabalho.
O Brasil, de acordo com o levantamento, ainda terá uma piora significativa de sua posição em relação aos demais países, fazendo o movimento contrário ao resto do mundo, onde a taxa de desemprego já tem mostrado sinais de retração, mesmo que a inflação ainda continue acelerada.
DESEMPREGO E INFLAÇÃO
Entre as principais causas dessa sensação de desconforto e mal-estar entre os brasileiros está o desemprego, que chegou a 14,7% em março, segundo levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua) do IBGE. Essa é a maior taxa da série histórica, iniciada em 2012, que mostra também recorde da taxa de desalentados: 6 milhões de trabalhadores que deixaram de buscar uma colocação no mercado de trabalho.
Em seguida está a inflação recorde registrada em maio, com uma alta de 0,83% em relação a abril, também divulgada pelo IBGE. A inflação em maio de 2021 já foi a maior para mês em 25 anos, com o IPCA tendo atingido 8,06% em 12 meses, permanecendo acima do teto da meta estabelecida para o ano.
O aumento na conta de luz, causado pelo acionamento da bandeira tarifária vermelha, em função de uma crise hídrica e risco de apagões pelo país, além da alta no preço dos combustíveis foram os dois grandes responsáveis por essa alta.
“A crise pandêmica, que começou em março de 2020, atingiu toda a questão do desalento e tirou o véu sobre os problemas estruturais do país que a gente não tinha. Todas as características que existiam de distorção do Estado apareceram com a crise e houve uma compressão da economia do país. Ou seja, a vacinação tem ligação direta à recuperação econômica do país, que aos poucos deve melhorar”, avalia o economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES), Vaner Corrêa.
Da mesma opinião é o também economista Mário Vasconcelos, que afirma que o crescimento das taxas de desemprego e inflação vêm de uma série de medidas erradas tomadas com relação à pandemia, fazendo com que todos os setores se retraíssem. Por outro lado, segundo Vasconcelos, a alta do dólar também impulsionou os preços para cima, principalmente de alimentos.
“Tudo o que se usa na produção está mais caro por conta do dólar, repercutindo na inflação e na falta de oferta, já que a produção diminui, os preços aumentam e muitos empresários acabam dando preferência ao mercado internacional, exportando para aproveitar a alta do dólar”, analisa.
O pesquisador Daniel Duque também reforça a necessidade de vacinação de toda a população para a melhoria da economia no país. “A queda do desemprego e da inflação passa tanto pela vacinação em massa quanto pelo combate da situação fiscal estrutural do setor público, que tem pressionado o dólar, fazendo com que este não compense a alta das commodities, o que tem aumentado o preço dos alimentos e administrados”, diz.
AJUDA E ESPERANÇA
O psicanalista, especialista em jogos de autoconhecimento, Nickson Gabriel, afirma que o autocuidado é uma das formas encontradas pelo brasileiro como forma de superar a crise que estamos vivendo. Ele criou “O Jogo da Vida”, versão brasileira do Maha Lilha, um jogo indiano milenar, e mais de 10 mil pessoas já tiveram contato com a sua versão.
“As pessoas se voltaram para si, para o autoconhecimento, precisam de pausa, de calma. Os brasileiros mergulharam no autoconhecimento e passaram a procurar mais cursos e jogos como esse. O caminho começa com a compreensão a respeito da importância do autoconhecimento”, afirma.
Para ele, o desconforto é positivo a médio e longo prazo. “Ele possibilitará a descoberta de um novo eixo em todos os setores da vida e vem abrindo caminho para as pessoas realmente percorrerem o caminho do autoconhecimento, que ao meu ver é fundamental para conquistar o tão almejado bem-estar”, explica.
O otimismo também é parte da avaliação do economista Mário Vasconcelos para os próximos meses. Segundo ele, apesar das altas taxas de desemprego e inflação, o Produto Interno Bruto (PIB) do país vem passando por sucessivas nove semanas consecutivas.
“Alguns institutos de pesquisa têm previsão que o índice chegue a 5%. As altas taxas de desemprego devem continuar por um tempo, mas para que reduzam, é preciso que o empresário sinta confiança no futuro da economia. Com o PIB crescendo, isso sinaliza que é hora de começar a investir novamente no país”, avalia.
Para Vaner Corrêa, a pandemia comprimiu a economia do Brasil como uma mola. Mas essa mola, em determinado momento vai se esticar, levando para um patamar melhor o desenvolvimento do país. “Vamos conviver com um período de Idade das Trevas, mas a economia que volta a dar sinais de recuperação, irá trazer de volta a esperança e o otimismo ao brasileiro. Ainda é cedo para falar da redução do desemprego, mas sou esperançoso. A energia que vem da economia irá impulsionar o país para a frente”, reflete.