Com planos de investir na geração de energia solar, a EDP Brasil avalia colocar à venda três das seis usinas hidrelétricas que opera no país. A companhia não confirmou quais serão as unidades, mas, segundo informações apuradas pelo jornal Valor Econômico, uma delas é a usina de Mascarenhas, localizada no Rio Doce, em Baixo Guandu, região Noroeste do Espírito Santo.
A usina, que entrou em operação em meados da década de 1970, tem capacidade instalada de 198 megawatts. Trata-se da segunda maior hidrelétrica do Estado, conforme dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), perdendo apenas para UHE Aimorés (330 MW), situada na mesma região e que fica na divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais.
Ainda segundo o Valor, as usinas de Santo Antônio do Jari (AP) e Cachoeira Caldeirão (AP) também estão no radar da companhia portuguesa para uma possível venda no Brasil.
Embora não confirme o interesse específico na venda desses ativos, por meio de sua assessoria, a EDP explicou que tem sondado o mercado sobre a possibilidade de se desfazer de algumas usinas, entretanto, até o momento, não há certeza de que a negociação será concretizada.
Em nota, a companhia afirmou, entretanto, que tem como uma de suas estratégias diminuir seu investimento em geração hidrelétrica, até 2025, para elevar seus investimentos em energia solar, com o objetivo de reduzir o risco associado à fonte hídrica, em função da volatilidade de preços desta modalidade.
A nota reforça ainda que a UHE Mascarenhas e a EDP Espírito Santo, apesar de atreladas à EDP Brasil, são empresas distintas – uma com atuação no segmento de geração de energia e a outra no segmento distribuição – e que uma eventual negociação da primeira não traria quaisquer impactos aos consumidores capixabas.
A companhia destacou que mantém seu compromisso com o Estado, destacando que, “em 2020, a EDP investiu R$ 384,5 milhões no Espírito Santo, que também deve receber cerca de metade dos R$ 6 bilhões que a companhia pretende destinar a este segmento até 2025.”
O plano já havia sido adiantado pela colunista de A Gazeta, Beatriz Seixas. Dos R$ 3 bilhões que devem ser investidos em território capixaba, cerca de 38% serão destinados à expansão da rede, outros 32% serão utilizados em melhorias e 30% serão aportados em ações voltadas para a redução de perdas e TI, segundo a EDP.
Os novos investimentos vão se somar a outros que a distribuidora de energia elétrica do Espírito Santo têm em curso ou já concretizou há pouco tempo. A EDP vai construir, por exemplo, uma subestação de energia em Vitória, com um investimento de R$ 21 milhões, e outra em Ibiraçu. Outros dois empreendimentos finalizados e já em operação são as subestações Santa Isabel e Domingos Martins.
NEGÓCIO MAIS ATRATIVO
Para o especialista da área de energia Christian Celeste, o desinvestimento está muito ligado à própria estratégia da empresa de diversificar os projetos, mas, para além da variação de portfólio, a questão climática é um dos fatores que tornam a venda um negócio atrativo.
"O maior problema ligado às hidrelétricas hoje em dia é a questão climática. Há imprevisão sobre o clima, risco de falta d’água. Isso acaba trazendo um risco maior para um negócio que, usualmente, é considerado conservador, e implica também em um aumento de custos. Hoje ninguém fala mais em construir hidrelétrica. E a energia solar passa a ser algo interessante porque tem um perfil de risco bem diferente."
Para Romeu Rodrigues, especialista em Logística e Energia do Conselho Temático de Infraestrutura (Coinfra) da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), o plano da companhia em colocar à venda as usinas condiz com a fase de transição da matriz energética observada no mundo todo. Os países, de um modo geral, têm apostado em formas de geração de energia limpa.
“É uma tendência irreversível, e as empresas estão buscando fazer essa transição, na medida do possível. A geração solar tem várias vantagens. Não é preciso estar concentrado em um local só, por exemplo, é possível produzir de vários pontos, e isso é bom até pelo ponto de vista de interiorizar o desenvolvimento. Além disso, é um investimento que movimenta fortemente a cadeia de comércio e serviços”, observa.
Paralelamente, ele destaca que o próprio governo do Estado tem buscado incentivar a essa transição, por meio do Programa Gerar, criado com o objetivo de estimular projetos de fontes de energias renováveis, como eólica e solar, e atrair investidores interessados em injetar recursos na área.
“É uma oportunidade muito boa para o Espírito Santo. Acho que precisamos correr atrás das empresas e mostrar que é um um bom momento para investir na área.”