A mera possibilidade de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) possa concorrer à Presidência da República no próximo ano, como adversário do atual governante, Jair Bolsonaro (sem partido), caiu como uma bomba no mercado financeiro, que teme o aquecimento da polarização política em plena crise econômica causa pela pandemia do coronavírus.
A avaliação de especialistas é que o cenário atual deve fazer com que os investidores permaneçam cautelosos diante da falta de previsibilidade do que pode acontecer com a economia brasileira, o que pode acabar afastando o capital estrangeiro e colocar importantes projetos privados na gaveta.
O temor maior é com o crescimento dos gastos públicos, seja com a possível volta da política econômica petista, ou com novas medidas populistas por parte de Bolsonaro para agradar apoiadores diante da polarização política, elevando o risco-país.
Na segunda (8), o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), anulou todas as condenações do ex-presidente Lula pela Justiça Federal no Paraná relacionadas à operação Lava Jato, por considerar que o julgamento era incompetente àquela Corte.
A decisão não impede que os processos contra o petista sejam reabertos, e que os mesmos efeitos sejam obtidos novamente. Entretanto, até que se decida pelo contrário, Lula recupera os direitos políticos e volta a ser elegível.
Diante das chances reais do ex-presidente numa disputa em 2022, segundo pesquisas recentes, a decisão teve efeito quase imediato naquela tarde. O índice Ibovespa, da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), que agrega as ações das principais companhias brasileiras, tombou 4% na segunda-feira, após o anúncio do STF. O dólar foi a R$ 5,78.
Na manhã desta terça, a história já conturbada ganhou um novo capítulo, quando a cotação da moeda norte-americana deu novo salto, chegando a valer R$ 5,87 pela manhã. Foi a maior alta desde maio do ano passado, no pico da primeira fase da pandemia no país.
Já no encerramento do dia, o dólar voltou a ser negociado a R$ 5,79, com avanço mínimo em relação à noite anterior. Mas, na visão de analistas, a tendência é de que, pelo menos no curto prazo, a moeda continue em patamares elevados, em virtude do aumento das incertezas política, fiscal e jurídica.
O “efeito Lula” ocorre apenas duas semanas após a interferência de Bolsonaro na gestão da Petrobras, com a troca de presidente da companhia, em meio às críticas sobre a política de preços, e a tentativa de agradar caminhoneiros, que reclamam do preço do diesel. A ação puxou o dólar para cima, fazendo com que deixasse o patamar dos R$ 5,50 em que vinha desde janeiro.
Depois disso Bolsonaro prometeu mexer na conta de luz, zerou impostos sobre o diesel para agradar caminhoneiros aumentando a tributação sobre os bancos, e até o ministro Paulo Guedes chegou a falar em olhar social por parte da Petrobras em relação aos reajustes do gás de cozinha, gasolina e diesel.
Todo esse cenário, na avaliação de especialistas, já dava sinais de incerteza os investidores. Como mostrou A Gazeta, há um temor que o "risco Bolsonaro" inclusive atrapalhe a agenda de privatizações e concessões, que inclui, por exemplo, a Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa) e a BR 262.
Além disso, o novo episódio ocorre em meio à atuação recente do presidente Bolsonaro para abrandar a PEC Emergencial, que traz justamente medidas de ajuste nas contas públicas. A intenção do governo era fazer com que os policiais fossem exceções aos gatilhos de contenção de gastos, que podem permitir o congelamento de salários.
Diante disso, elevou-se o temor de que sejam adotadas medidas populistas, de modo a não perder apoiadores, e que o compromisso com a agenda econômica, que ajudou a elegê-lo em 2018 com o apoio do mercado, seja deixado de lado.
“As quedas da Bolsa e a alta do dólar não são resultado de uma coisa isolada. O mercado, no último mês, viu uma série de acontecimentos que vem aumentando o risco político: a quase demissão do presidente do Banco do Brasil, a intervenção no comando da Petrobras, declarações do presidente Bolsonaro sobre fatiamento da PEC”, observou o assessor de investimentos Romero Oliveira, da Valor Investimentos.
Ele reforça que, além disso, existe ainda o problema do rombo nas contas públicas, e, caso as reformas necessárias não sejam feitas, a dívida pode aumentar significativamente nos próximos anos. "Somado a isso, agora há um risco de maior polarização política nas eleições de 2022 e o receio de que aumentem as ações populistas."
Ele observa que o momento é de aumento da incerteza, o que deixa os investidores cautelosos, e, consequentemente, mantém o dólar valorizado. E uma vez que parte da cesta de consumo dos brasileiros é dolarizada, há um aumento natural da inflação, que deve fazer com que o Banco Central precise elevar a taxa Selic antes do previsto.
Hoje, a taxa de juros básica do mercado está fixada em 2%, o menor patamar da história. O corte fez com que tomar crédito se tornasse algo mais barato no país, o que permitiu que, mesmo em meio à crise, mais pessoas financiassem imóveis, por exemplo.
“Pelo momento que se vive, a elevação da taxa de juros não é exatamente uma medida é uma medida popular. Mas tampouco existe outra forma. A elevação taxa ajuda na valorização da moeda brasileira, e contribui para que o dólar se estabilize. Consequentemente, tende a haver maior controle da inflação”, explicou o economista e assessor da Golden Investimentos, Thomas Giuberti.
Ele reforça, entretanto, que o mercado navega por mares revoltos, inclusive em função do agravamento da pandemia, e que é preciso acompanhar o cenário diariamente, pois, num instante, tudo pode mudar, seja para melhor, ou para pior.
"Saímos de um cenário de risco, que conseguimos medir, para um cenário de maior insegurança. Enquanto isso, o mercado recua, os investidores ficam mais cautelosos. Preferem aguardar antes de tomar decisões"
Essa espera, observa a economista Arilda Teixeira, acaba por atrasar a recuperação da economia brasileira, já fragilizada. Sem investimentos, não há movimentação da cadeia de fornecedores, não há contratação de mão de obra, e, tampouco, geração de renda.
“Já havia um temor em relação à retoma por causa desse novo pico da pandemia. Agora, temos o agravamento das tensões políticas. E, na minha visão, o atual presidente já vinha numa situação de desgaste tão grande que não acredito que ele tenha fôlego para reverter toda essa instabilidade criada”, destaca.
Arilda frisa ainda que a preocupação não é apenas somente com relação a 2022, mas também com o futuro próximo: "O cenário daqui para frente é totalmente nebuloso. Não se consegue prever o que vai acontecer em três meses, que dirá em um ano".