Os impactos da taxação de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre os produtos brasileiros foram tema de uma reunião realizada na manhã desta terça-feira (15) entre o governo federal com o setor produtivo.
O encontro do Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas e Comerciais foi liderado pelo vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin.
Com participação de representantes de empresários do Espírito Santo do setor de rochas ornamentais, um dos principais impactados pelo tarifaço de Donald Trump, o grupo que representou o setor produtivo pleiteou a prorrogação do início da vigência da nova tarifa, prevista para 1° de agosto, por pelo menos 90 dias.
Quem representou a Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas) foi o superintendente Giovanni Francischetto. O capixaba integrou o grupo de líderes industriais convidados e teve a oportunidade de se manifestar durante a reunião.
Em reunião com Alckmin, empresários do ES pedem negociação para adiar tarifaço
Em sua fala, destacou a representatividade e a importância do mercado americano para o setor brasileiro de rochas naturais, que tem nos Estados Unidos seu principal destino exportador. Reforçou ainda a necessidade de negociação da tarifa como medida essencial para preservar a competitividade do arranjo produtivo nacional.
Quem também participou da reunião com Alckmin foi o ex-governador Paulo Hartung, atual presidente executivo da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ). Ele também defendeu que o Brasil aja com diplomacia na negociação sobre o tarifaço, mas sem perder a firmeza em defesa da economia.
"Sobre o tarifaço, o Brasil precisa agir com firmeza para proteger os empregos dos trabalhadores e a competitividade das nossas empresas. Neste momento, é fundamental evitar bravatas e apostar na negociação e na diplomacia", publicou Hartung nas redes sociais.
Durante o encontro, foi relatado que diversos setores da indústria já enfrentam impactos concretos da medida, incluindo a suspensão temporária de pedidos por parte de importadores norte-americanos. No setor de rochas naturais, esse movimento também já é percebido.
Exportadores brasileiros têm recebido comunicações de clientes solicitando a retenção de embarques até que haja clareza sobre os prazos e a efetiva aplicação da tarifa, prevista para 1º de agosto
Houve consenso entre os participantes do encontro de que buscar novos mercados não é, neste momento, a solução mais eficaz, e que o governo brasileiro deve intensificar o diálogo diplomático com urgência, tentando prorrogar o início da vigência da tarifa, prevista para 1º de agosto, por pelo menos 90 dias.
Após a reunião, em entrevista à imprensa, o vice-presidente destacou que os representantes do setor industrial presentes à reunião também defendem a busca de negociação com seus congêneres nos Estados Unidos.
Segundo Alckmin, os empresários brasileiros solicitam ainda a busca por um adiamento de 90 dias para a entrada em vigor das sobretaxas estipuladas pelo governo estadunidense. "Se necessário, vamos trabalhar nisso [no pedido de mais prazo]", disse ele.
Ações para reverter taxa
A criação do comitê foi anunciada na segunda-feira (14) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em conjunto com a regulamentação da Lei de Reciprocidade Econômica. A iniciativa tem como objetivo coordenar ações estratégicas do governo brasileiro em resposta a sanções comerciais impostas por países parceiros.
Considerando esse cenário, o Centrorochas está articulando uma série de ações institucionais e buscando apoio internacional para mitigar os impactos da medida.
Entre as iniciativas em andamento, destaca-se o diálogo com o Natural Stone Institute (NSI), dos Estados Unidos, que organiza nesta semana uma agenda em Washington com entidades representativas de importadores americanos, com o objetivo de buscar esclarecimentos junto ao governo norte-americano.
Além disso, a Centrorochas mantém contato com a Emerald, maior organizadora de eventos do mundo e responsável pela KBIS, feira referência nos Estados Unidos.
O CEO da empresa enviou uma carta ao governo brasileiro, por meio da ApexBrasil, destacando a relevância estratégica dos setores de rochas naturais (representado pela Centrorochas) e móveis (representado pela Abimóvel) para a economia local.
A associação também está em diálogo com a ApexBrasil, colocando-se à disposição para participar das rodadas de negociação com representantes do governo norte-americano, reforçando sua postura colaborativa e propositiva frente aos desafios impostos pela nova política tarifária.
Peso do mercado americano
Em 2024, os Estados Unidos responderam por 56,3% das exportações brasileiras de rochas naturais. No primeiro semestre de 2025, o setor registrou um recorde histórico, com US$ 426 milhões exportados ao mercado norte-americano, crescimento de 24,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. O Espírito Santo, principal estado exportador, foi responsável por mais de 94% desse volume.
A Associação Brasileira de Rochas Naturais segue acompanhando de perto os desdobramentos do cenário e atuando de forma ativa junto às autoridades e parceiros institucionais, com o objetivo de contribuir para soluções que assegurem a previsibilidade das relações comerciais e a manutenção da competitividade do setor no mercado internacional.
Participaram da reunião
- Francisco Gomes Neto, Presidente da Embraer;
- Ricardo Alban, Presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI);
- Josué Gomes da Silva, Presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp);
- José Velloso, Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq);
- Haroldo Ferreira, Presidente-Executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados);
- Janaína Donas, Presidente-Executiva da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL);
- Fernando Pimentel, Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT);
- Paulo Roberto Pupo, Superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (ABIMCI);
- Paulo Hartung, Presidente Executivo da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ);
- Armando José Giacomet, Vice-Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (ABIMCI);
- Rafael Lucchesi, CEO da Tupy;
- Giovanni Francischetto, Superintendente da Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas);
- Edison da Matta, Diretor Jurídico e de Comércio Exterior do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças);
- Cristina Yuan, Diretora de Relações Institucionais do Instituto Aço Brasil;
- Daniel Godinho, Diretor de Sustentabilidade e Relações Institucionais da WEG;
- Fausto Varela, Presidente do Sindifer;
- Bruno Santos, Diretor Executivo da Abrafe;
- Alexandre Almeida, Diretor RIMA.
Entidade fala sobre prejuízo a empresas americanas
A Câmara de Comércio dos Estados Unidos, maior organização empresarial do mundo, representando empresas de todos os portes e setores da economia, divulgou nesta terça-feira (15) um posicionamento sobre a imposição de 50% de taxa aos produtos brasileiros.
Para a entidade, que tem entre seus membros desde pequenos negócios e câmaras de comércio locais até grandes corporações e associações setoriais, a taxação afetaria produtos essenciais às cadeias produtivas e aos consumidores norte-americanos, elevando os custos para as famílias e reduzindo a competitividade de setores produtivos estratégicos dos Estados Unidos.
Segundo a entidade, mais de 6.500 pequenas empresas nos Estados Unidos dependem de produtos importados do Brasil, enquanto 3.900 empresas norte-americanas têm investimentos naquele país. O Brasil está entre os dez principais mercados para exportações dos Estados Unidos e é destino, a cada ano, de cerca de US$ 60 bilhões em bens e serviços norte-americanos.
Em posicionamento conjunto com a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), as entidades defendem que uma relação comercial estável e produtiva entre as duas maiores economias das Américas beneficia consumidores, sustenta empregos e promove prosperidade em ambos os países.
A U.S. Chamber e a Amcham Brasil solicitam aos governos dos Estados Unidos e do Brasil que se engajem em negociações de alto nível a fim de evitar a implementação da tarifa de 50%. A imposição dessa medida como resposta a questões políticas mais amplas tem o potencial de causar danos graves a uma das relações econômicas mais importantes dos Estados Unidos, além de estabelecer um precedente preocupante.