O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, que é a soma das riquezas produzidas produzidas pelo país, caiu 4,1% no ano passado em relação à 2019, o terceiro pior resultado da história. Com isso, segundo análise da agência de classificação de risco Austin Rating, o Brasil saiu do grupo das dez maiores economias do mundo, ficando em 12º lugar, atrás da Rússia, do Canadá e da Coreia do Sul.
Segundo especialistas, apesar da pandemia do coronavírus ter afetado profundamente a economia do país e do mundo em 2020, a queda do Brasil nesse ranking vinha sendo ensaiada há uma década.
“Desde 2010 a economia brasileira não cresceu. O PIB ficou em média 0,68% ao ano. É mais do que estagnação. Se você olhar pra fora, todas as economias e as principais concorrentes do Brasil cresceram muito mais que ele. É uma corrida que você pode correr e os outros correrem mais que você. No caso do Brasil, ele nem correu, ficou parado”, analisa o economista Orlando Caliman.
Os dados do Banco Mundial mostram a evolução do ranking até 2019, último dado oficial disponível. Os números foram corrigidos em dólares de 2010 para que fosse feita uma comparação temporal.
A situação, contudo, não foi sempre essa. Caliman explica que até a década de 1970, que foi o melhor período de crescimento, a economia brasileira cresceu em média 7,6% ao ano. Na década de 1980 caiu para 2,03% e chegou a 2,86% nos primeiros dez anos dos anos 2000. Contudo, a partir daí, as quedas foram sucessivas.
“Entre 2015 e 2016 teve queda de quase 8% do PIB, soma a isso mais 4,1% agora em 2020, e você vai para 12%, quase 13% de queda acumulada. É algo fora do normal”, diz o economista.
A também economista e professora da Fucape Arilda Teixeira aponta que o Brasil deve ser comparado com países com características econômicas semelhantes, como é o caso da Rússia, da China e da Índia, por exemplo. Todos estão melhor classificados que o Brasil no ranking do PIB, o que, segundo ela, aponta para um problema interno.
“Os nossos pares em termos de desenvolvimento estão conseguindo posição no ranking mundial melhor do que a nossa. O atraso do Brasil não é por conta das dificuldades trazidas pela queda de crescimento econômico do mundo desenvolvido ou pelos efeitos da pandemia. Se seus pares conseguem alcançar patamares mais altos e nós não, o problema está dentro do Brasil”, avalia.
Segundo a professora, há três gargalos internos principais que prejudicam o crescimento do país. O primeiro é a falta de segurança jurídica, ou seja, a falta de marcos legais que deixem claro as “regras do jogo” da economia brasileira.
Em segundo lugar, ela aponta o sistema tributário, que classifica como desatualizado e inchado, o que coloca obstáculos ao empreendedor, desestimula investimentos e encarece a produção.
Por último, Arilda cita o sistema de ensino que, segundo ela, avançou nos outros países e não no Brasil.
“A China tem procurado melhorar a sua estrutura e investe pesado no progresso técnico. Ela tem estrutura educacional, sistema de ensino básico público e gratuito que forma pessoas que têm condições de saber o que quer. Mesma linha que a Coreia seguiu e que a transformou no país que é em termos de crescimento econômico. Enquanto isso, no Brasil, a nossa estrutura de ensino ainda é falha, é insuficiente, para gerar esses jovens capazes de perceber oportunidades e gerar inovações”, aponta.
DESINDUSTRIALIZAÇÃO E FALTA DE COMPETITIVIDADE
Orlando Caliman destaca ainda para outros pontos, como a desindustrialização da economia brasileira e a volta da força das commodities na pauta de exportação em detrimento dos produtos manufaturados, que têm mais valor agregado.
“Em 1980, o Brasil exportava de manufaturado o mesmo que a China praticamente, US$ 9 bilhões aproximadamente. Em 2020, o Brasil exportou de manufaturado US$ 60 bilhões e a China, US$ 2,4 trilhões, ou seja, 40 vezes mais que nós. Aí você vê o tamanho do estrago. Isso repercute no confronto com outros países que avançaram mais”, diz.
Sobre a desindustrialização, ele diz que é uma tendência mundial, porém não da forma como ela acontece no Brasil. Aqui, a falta de competitividade impediu o processo. Nos demais países, ela foi provocada pelo avanço tecnológico, que reduziu o tamanho das indústrias, mas as tornou mais produtivas e mais competitivas.
“Os outros países foram mais competitivos, modernizaram parques industriais, investiram em novas tecnologias, melhoraram os serviços. O exemplo mais claro é a Coreia do Sul. Na década de 1970 ela estava atrás do Brasil em quase todos os indicadores econômicos. Hoje é um país desenvolvido. Exporta manufaturados a beça”, diz.
Ele aponta ainda o pacote trilionário voltado para a infraestrutura previsto pelo presidente americano Joe Biden que, segundo ele, não foca só na retomada econômica, mas também na modernização da economia. Exemplo que poderia ser seguido pelo Brasil.
“O Brasil podia estar captando investimentos externos porque o dinheiro está sobrando no mundo. Mas quem se aventura hoje a investir no país? Tem problema de segurança jurídica. Às vezes consegue captar em setores com potencial de crescimento maior como as concessões de aeroportos. Se o Brasil conseguisse avançar um pouco mais na área de redução de incertezas, inclusive políticas e aumentasse a segurança jurídica, poderia atrair investimentos enormes principalmente no que mais precisa, que é infraestrutura”, diz.
Arilda concorda que investimentos em infraestrutura poderiam criar um espaço físico adequado que propicia a atração de empresas e, ao mesmo tempo, geram emprego e renda.
“A infraestrutura é o passo inicial. Ela tem um poder multiplicador na atividade econômica fantástico. Gera uma demanda muito grande de insumo, que dá impulso para a atividade econômica. Enquanto isso, gera empregos, que geram consumo, que gera mais produção e novos empregos. Isso, somado, bloqueia a possibilidade de uma recessão”, avalia a economista.