Vício em apostas esportivas leva ao afastamento do trabalho, pela condição de saúde chamada ludopatiaCrédito: iStockphoto
O crescimento das casas de apostas on-line no Brasil e, consequentemente, do número de pessoas que veem o palpite rápido e na palma da mão como uma chance de complementar renda ou até de mudar de vida tem impactado diretamente no consumo e na renda das famílias brasileiras. O problema é quando isso se torna um vício e, consequentemente, um problema de saúde de pública. No Brasil e também no Espírito Santo, vêm aumentando os casos de afastamento do trabalho em função da compulsão em relação aos jogos.
Dados do Banco Central mostram que, só no ano passado, os brasileiros destinaram R$ 240 bilhões às bets. Esse cenário afeta não apenas a situação financeira das famílias, mas também a saúde mental dos envolvidos e também leva ao afastamento do trabalho, pela condição de saúde chamada ludopatia.
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O que é a ludopatia
Essa condição é reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças (CID), sob os códigos F63.0 (jogo patológico) e Z72.6 (mania de apostas), que caracteriza um padrão de comportamento recorrente e compulsivo em relação a jogos e apostas, levando a prejuízos financeiros significativos e a sérios impactos na vida pessoal e profissional do indivíduo.
Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que, em 2024, o Espírito Santo registrou três atendimentos ambulatoriais por ludopatia, sendo que o único registro nos anos anteriores tinha sido de um caso em 2019.
A condição também leva ao afastamento por auxílio-doença no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Dados do órgão mostram que, de janeiro de 2024 a abril de 2025, houve quatro afastamentos desse tipo no Espírito Santo, três deles por jogo patológico e um por mania em jogos e apostas.
Segundo dados do INSS, os afastados por vício em jogo no Espírito Santo são de Viana, Aracruz, Cachoeiro de Itapemirim e Linhares, com idade entre 34 anos e 51 anos.
Para a advogada especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho Tatiana Leão Tostes, o crescente número de afastamentos relacionados à ludopatia, ou jogo patológico, evidencia a gravidade desse transtorno e seus reflexos no ambiente de trabalho.
Tatiana explica que, sob a ótica jurídica, especialmente nos campos previdenciário e trabalhista, o afastamento pode ser justificado quando o vício compromete a capacidade do trabalhador de desempenhar suas funções. Nesses casos, o profissional deve ser submetido a avaliação médica. Se constatada a incapacidade temporária para o trabalho, poderá haver concessão de benefício por incapacidade.
"O reconhecimento da ludopatia como causa de afastamento reforça a necessidade de o empregador manter um ambiente de trabalho atento à saúde mental de seus colaboradores. Embora o afastamento e o tratamento sejam questões individuais e médicas, as empresas também desempenham papel relevante na prevenção, sobretudo por meio de programas de bem-estar e suporte psicológico", afirma.
Entenda a condição
O psiquiatra Karisten Soares Martins detalha que o jogo patológico, também chamado de ludopatia, é um transtorno do controle de impulsos, em que a pessoa desenvolve uma compulsão por jogos de aposta, como cassinos, bingos, apostas esportivas e jogos on-line.
Esse quadro é semelhante à dependência química, pois envolve perda de controle, abstinência, tolerância e recaídas frequentes
Karisten Soares Martins - Psiquiatra
O especialista destaca ainda quais são os impactos na condição no ambiente de trabalho. Martins afirma que, no contexto profissional, o jogo patológico pode causar:
Queda de produtividade e foco
Faltas frequentes ou atrasos
Ansiedade, irritabilidade e depressão
Endividamento e, em casos extremos, condutas antiéticas, como desvio de dinheiro
Esses fatores podem levar a afastamentos médicos por questões psiquiátricas ou transtornos associados, como depressão e ansiedade.
O médico destacou ainda que o número de afastamentos por jogo patológico tem aumentado significativamente no Brasil. Segundo ele, de junho de 2023 a abril de 2025, o INSS concedeu 276 auxílios-doença por esse quadro. Antes disso, a média anual era de apenas 11 casos por ano.
"A maioria dos afastados são homens jovens, entre 18 e 39 anos, ou seja, em fase ativa da vida laboral. Esses números mostram que a ludopatia está se tornando um problema de saúde pública e previdenciária, exigindo atenção das empresas e do sistema de saúde", afirma.
Para tratamento da condição, o psiquiatra afirma que é necessário psicoterapia, principalmente terapia cognitivo comportamental. E acrescenta que, em alguns casos, medicações como antidepressivos, neurolépticos e ansiolíticos também ajudam.
Abstinência
Indivíduos nessa condição podem ainda sentir sintomas semelhantes à abstinência, conforme explicou a psicóloga da Bluzz Saúde Marília Zanette. Segundo ela, o vício em apostas ativa intensamente o sistema de recompensa cerebral que está associado à liberação de dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de prazer e reforço de comportamentos.
"O cérebro começa a exigir estímulos cada vez mais intensos (apostas mais altas, mais tempo jogando). Quando não aposta, o indivíduo pode sentir sintomas semelhantes à abstinência, como irritabilidade, insônia e inquietude. Podendo contribuir para o desenvolvimento de transtornos mentais como depressão, ansiedade, abuso de substâncias e outros", explica.
Afastamento
O afastamento do trabalho pode ser necessário quando o vício em jogos compromete seriamente a funcionalidade da pessoa, incluindo aumento de ausências no trabalho, queda de rendimento e foco e instabilidade emocional, de acordo com Marília Zanette.
Ela detalha que o afastamento permite tratamento intensivo (psicoterapia, psiquiátrica, grupos de apoio e medicação); reduz exposição aos gatilhos; e dá tempo para restabelecimento psicológico e reestruturação cognitiva.