A escassez global de componentes eletrônicos afeta desde o ano passado a indústria automobilística a ponto de paralisar a produção de veículos de várias montadoras no país e reduzir as perspectivas de crescimento do setor. Contudo, a falta de produtos como chips e semicondutores também tem outras consequências que impactam diretamente a população.
Uma delas é a dificuldade que empresas estão tendo de fazer reparos e manutenção em elevadores. Sem conseguir manter os estoques de peças em dia, o tempo de espera pelos serviços aumenta.
Em um condomínio de Vitória, os moradores receberam uma notificação relatando o problema. "Possuímos grande volume de componentes eletrônicos que são importados e possuem microprocessadores que estão em falta no mercado, de modo que a falta desse componente tem causado impacto na cadeia produtiva, refletindo em nosso lead time (tempo de abastecimento de mercadorias)”, diz o anúncio.
A empresa Atlas Schindler, especializada em elevadores, escadas e esteiras rolantes, afirmou em nota que o problema é global e que, com o avanço da tecnologia, a demanda mundial por este tipo de componente cresceu consideravelmente. Paralelamente, a oferta do produto foi duramente afetada pela pandemia de Covid-19, que levou à desaceleração da produção.
"Os chips semicondutores são encontrados em uma variedade de produtos, incluindo elevadores e escadas rolantes. Desta maneira, a empresa permanece focada em fazer o possível para minimizar os impactos aos clientes mundialmente", disse em nota.
MAIS TEMPO COM CARRO PARADO NA REVISÃO
Quem precisa fazer revisão periódica no carro também corre o risco de ter que deixar o veículo mais tempo parado do que o esperado. Isso porque os empresários do setor têm sofrido com a dificuldade em conseguir as peças para substituição.
O presidente da Federação do Comércio do Espírito Santo (Fecomércio), José Lino Sepulcri, atua no setor de manutenção de veículos há 60 anos e disse que nunca passou por essa situação.
“Muito em breve vão faltar peças para manutenção. E quem não faz a manutenção corre o risco de perder a garantia do veículo, de ter um defeito no carro e até de sofrer um acidente”, diz.
José Lino explica que, atualmente, muitas partes de um veículo dependem de componentes eletrônicos, como os semicondutores. Sem eles em estoque, será preciso esperar que cheguem, o que pode aumentar significativamente o tempo da revisão.
“Você deixa carro pra fazer revisão e, se não tiver equipamento, o carro que deveria ficar imobilizado dois ou três dias vai ficar mais tempo. Vai ter que esperar a peça chegar. Tem determinados equipamentos que você pode postergar a substituição, mesmo ele tendo um tempo de vida útil. Mas vai chegar o tempo que vai ter que trocar”, aponta.
FÁBRICA PARADA POR DOIS DIAS POR FALTA DE HD
O empresário do ramo de confecções de Colatina, Paulo Vieira, já sentiu na pele a dificuldade em encontrar equipamentos eletrônicos. Por conta de uma falha no servidor da empresa, ele teve que parar a produção por dois dias porque não achava material para reposição.
“Não tem no mercado. Tivemos que comprar um HD de segunda mão em uma cidade de Minas Gerais para colocar no lugar. A empresa fabricante não dá prazo de entrega, diz que é de no mínimo 30 dias, mas mesmo assim não é certo”, diz.
Segundo sondagem feita pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), 73% dos associados tiveram dificuldades na aquisição de componentes em maio, principalmente os importados pelos países asiáticos. Por isso, 20% das empresas do setor trabalham com estoques abaixo do que consideram normal.
POR QUE FALTAM COMPONENTES ELETRÔNICOS
A justificativa para a falta de chips – feitos em sua maioria na Ásia -, é que, no início da pandemia, montadoras suspenderam encomendas porque as fábricas foram fechadas. O maior número de trabalhadores em home office e crianças fora da escola levou a um boom de vendas de eletroeletrônicos como laptop e celular, e a produção foi direcionada a esses produtos.
Quando a situação estava mais amena, setores da economia, entre os quais a indústria automobilística, retomaram atividades num ritmo superior ao esperado e as fábricas de chips não deram conta da demanda.
IMPACTO NA FABRICAÇÃO DE CARROS
Atualmente, segundo informações do Estadão, 18% da produção de chips vão para o mercado automobilístico. Por conta da crescente implantação de componentes eletrônicos nos veículos (desde airbags a freios e kits multimídia), hoje essas peças correspondem a 40% do preço de fabricação.
Sem essas partes eletrônicas, que permitem que os componentes do carro se comuniquem entre si, muitas montadoras foram paralisadas no país.
A fábrica de Hyundai, que fabrica o HB20, por exemplo, teve a produção totalmente interrompida há três semanas e ainda não voltou.
A Volkswagen anunciou que vai parar novamente algumas de suas linhas de montagem no Brasil. Movimento semelhante aconteceu em junho por 10 dias. Desta vez, todavia, a fabricante vai parar por mais tempo. Serão 20 dias, no mínimo, sem produzir carros novos por falta de chips.
Segundo relatório da Anfavea, entidade que representa as montadoras instaladas no país, entre 100 mil e 120 mil veículos deixaram de ser produzidos no Brasil no primeiro semestre de 2021 em função da falta de componentes eletrônicos.