A escassez global de chips e componentes eletrônicos, que desde o ano passado afeta a indústria automobilística, começa a ser sentida também pelas concessionárias. Em algumas lojas no Espírito Santo, consumidores chegam a aguardar até 120 dias, isto é, quatro meses para receber um carro novo.
Falta de chip- consumidor espera até 120 dias para receber carro novo no ES
A falta se deve a um desequilíbrio entre oferta e demanda, provocado pela pandemia. Isso porque muitas partes de um automóvel dependem de componentes eletrônicos, como os chips semicondutores.
Essas peças são feitas em sua maioria na Ásia. E, no início da crise sanitária, montadoras suspenderam encomendas porque as fábricas foram fechadas. Paralelamente, o maior número de trabalhadores em home office e crianças fora da escola levou a um boom de vendas de eletroeletrônicos como laptops e celulares, e a produção de componentes foi direcionada a esses produtos.
Quando a situação se tornou mais amena, setores da economia, entre os quais a indústria automobilística, retomaram atividades num ritmo superior ao esperado e as fábricas de chips não deram conta da demanda, conforme mostrou A Gazeta em reportagem publicada em 15 de julho. Diante deste cenário, diversas montadoras no país voltaram a interromper a produção temporariamente, o que refletiu na disponibilidade de veículos nas lojas.
Em Vitória, um lojista afirma que a espera chega a 120 dias, no mínimo, dependendo do veículo desejado. Carros de marcas como Fiat e Chevrolet, a exemplo de Fiat Toro, Chevrolet S10 e Fiat Strada, estão entre os modelos com maior prazo para entrega.
Em uma loja de Vila Velha, um funcionário, que preferiu não ser identificado, também confirmou a existência de uma fila de espera. “As montadoras têm tido problemas por conta da falta de peças, e não conseguem dar um prazo certo para entregar. Algumas chegam a falar em três a quatro meses, mas nem isso é certo.”
O problema ainda não é generalizado. O gerente da Prime Hyundai Serra, Ezequiel Duque, conta por exemplo que a fábrica tem conseguido atender à demanda, mas destaca que é uma situação privilegiada.
“A logística da fábrica tem nos atendido bem. Temos uma vantagem que nem todos têm nesse momento. Inclusive, tivemos recorde de vendas recentemente”, observou. A fábrica da Hyundai, que produz o HB20, chegou a interromper a produção temporariamente no final de junho, tendo reiniciado parte das operações na semana passada.
O cenário, entretanto, preocupa. O diretor-executivo do Sindicato das Concessionárias e Distribuidoras de Veículos do Espírito Santo (Sincodives), José Francisco Costa, explica que, em função do problema, o setor reduziu a expectativa de crescimento para este ano.
Antes, era projetado um avanço de 30% em relação às vendas de 2020; agora, com a escassez de peças, o aumento deve chegar a no máximo 15%.
“Esse é o primeiro ponto, e já é ruim o bastante porque o primeiro semestre do ano passado, por exemplo, foi horrível. A previsão já era de que saíssemos de uma base de comparação mais baixa. E então houve a paralisação do parque fabril e precisamos abaixar nossas expectativas, muito embora haja uma demanda reprimida do ano passado.”
Costa pontua que a existência de uma fila de espera não é regular, mas que cada segmento está sofrendo problemas diferentes. Nas lojas em que é preciso aguardar por veículos, os prazos variam entre 30 e 45 dias em alguns casos, porém, em diversos estabelecimentos, a espera pode chegar a 90 dias ou mais.
"E não há previsão para normalização a curto prazo. Neste contexto, também tem havido maior busca por veículos seminovos"
Diante do contexto já desafiador, o diretor do Sincodives pondera que o temor, agora, é que haja aumento de preços em função da relativa escassez de veículos. Com a busca mais acentuada que a oferta, elevar valores pode prejudicar ainda mais a retomada do segmento automotivo.
“Desde o ano passado, com o acréscimo das compras pela internet que levou ao reforço dos serviços de entrega, houve aumento da demanda por motocicletas, por exemplo. Neste ano, a demanda por carros cresceu, até em função da disponibilidade de crédito. Mas se já está ruim por conta da indisponibilidade de alguns modelos, uma alta de preços complicaria ainda mais a situação.”
Atualmente, segundo informações do Estadão, 18% da produção de chips é destinada ao mercado automobilístico. Por conta da crescente implantação de componentes eletrônicos nos veículos (desde airbags a freios e kits multimídia), hoje essas peças correspondem a 40% do preço de fabricação.
Sem essas partes eletrônicas, que permitem que os componentes do carro se comuniquem entre si, muitas montadoras foram paralisadas no país.
A Volkswagen, por exemplo, anunciou que vai parar novamente algumas de suas linhas de montagem no Brasil. Movimento semelhante aconteceu em junho por 10 dias. Desta vez, todavia, a fabricante vai parar por mais tempo. Serão 20 dias, no mínimo, sem produzir carros novos por falta de chips.
Segundo relatório da Anfavea, entidade que representa as montadoras instaladas no país, entre 100 mil e 120 mil veículos deixaram de ser produzidos no Brasil no primeiro semestre de 2021 em função da falta de componentes eletrônicos.