Fluxo de passageiros no Aeroporto de Vitória é o pior em 15 anos
A pandemia do novo coronavírus afastou os capixabas e turistas do Aeroporto de Vitória de uma forma que não se via há 15 anos. Em 2020, o fluxo de passageiros no terminal Eurico de Aguiar Salles foi o menor desde 2005, época em que andar de avião ainda era um sonho inalcançável para a maioria da população brasileira.
De acordo com dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e do Grupo Zurich Airport, que opera o terminal, a movimentação no aeroporto da Capital foi 1.472.047 usuários em 2020, uma queda de 55,24% na comparação com 2019, quando foram processados 3.289.291 passageiros em operações de embarque e desembarque.
Essa queda, de acordo com os dados da Anac, começou justamente em março de 2020, quando as primeiras ações de combate ao novo coronavírus foram adotadas. Naquele mês, o número de voos domésticos ofertados no Brasil caiu de 14.781 para 1.241 - uma redução de 91,61%.
Antes do início da pandemia no Brasil, passaram pelo aeroporto de Vitória 238 mil viajantes em fevereiro. No mês seguinte, com a confirmação dos primeiros casos no país e a adoção de medidas sanitárias para conter o vírus, o número de passageiros caiu para 153 mil, chegando ao fluxo mais baixo do ano em abril, quando apenas 11.976 pessoas passaram pelo terminal, ou seja, menos de 400 pessoas por dia.
A partir de maio teve início uma lenta recuperação, mês a mês, com a ampliação da malha aérea pelas companhias. No entanto, até dezembro, tradicional mês em que o fluxo de passageiros cresce, os números ainda não tinham conseguido crescer o suficiente para retornar aos patamares do início do ano.
Em 2005, quando o fluxo de passageiros foi semelhante ao de 2020, passaram pelo Aeroporto de Vitória 1.425.389 usuários. A partir daquele ano e até 2012, o setor viveu um boom com o barateamento dos bilhetes aéreos e o crescimento da renda no país, o que fez a movimentação em todos os aeroportos brasileiros crescer.
O desempenho ruim em 2020 não é exclusividade no Espírito Santo. A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) divulgou que, de janeiro a novembro de 2020, a demanda global por viagens aéreas domésticas e internacionais registrou queda de 65,6% em relação a 2019.
"Essa queda de 55% no fluxo de passageiros em 2020 é bem condizente com a nova realidade. O setor aéreo é um dos que mais vem sofrendo durante a pandemia. A circulação de pessoas tanto para turismo, quanto para trabalho, foi reduzida drasticamente", avaliou o economista e membro do Conselho Federal de Economia Eduardo Araújo.
COMÉRCIO ATINGIDO
A falta de passageiros circulando no aeroporto também atingiu quem trabalha dentro do terminal. Esse foi o caso de Raul Guizelini, proprietário da cafeteria Terrafé, que viu o faturamento com as vendas diminuir 90% no mês de abril.
"Trabalhamos por sobrevivência mesmo. Foi um sentimento de impotência. Não tinha o que fazer. A única coisa que podia fazer era dar mais um passo e ir até a semana seguinte. Lá em setembro, a gente começou a enxergar o mês seguinte. Fomos uma das únicas lojas que não fechou em nenhum momento durante a pandemia. Passamos quase três meses atendendo só colaboradores do aeroporto", contou Raul.
Ele contou que mesmo com crescimento do fluxo de pessoas em dezembro, o faturamento da loja no ano ainda ficou 30% menor que em 2019.
A Terrafé, antes de ser instalada no novo do Aeroporto de Vitória, já funcionava há um ano e meio no antigo terminal. Segundo Raul, 2020 foi o pior ano da cafeteria, tendo ele cogitado a possibilidade de fechar as portas. A empresa voltou ao patamar de dois anos atrás em relação ao número de funcionários.
"Passa pela cabeça essa possibilidade, mas como é o trabalho de uma vida, decidimos manter a loja aberta, se organizar e seguir em frente. Quando ganhamos a licitação para a nova loja, a readequamos, treinamos pessoal e aumentamos a equipe de três para seis pessoas. Para manter a loja aberta, tivemos que reduzir a carga horária, suspender contratos e negociar o aluguel. Dos seis funcionários, dispensamos dois que eram temporários e uma outra pediu demissão. Então, voltamos para o estágio de antes da pandemia."
Com o resultado do mês de dezembro dando indícios de uma recuperação para o setor, Raul disse que está otimista para 2021 e que pretende voltar a ter seis funcionários na loja até o final do ano. "Com esse cenário de melhoria do fluxo e também com a volta das atividades da Samarco, nossa expectativa está bem alta", declarou.
Apesar da redução no número de passageiros, o CEO do Aeroporto de Vitória, Ricardo Gesse, informou que nenhum estabelecimento que funciona dentro do terminal fechou as portas durante a pandemia.
"Fizemos renegociações com os cessionários para que mantivessem suas operações. Além disso, tivemos um acréscimo de 20% em número de m² comercializados no aeroporto", disse através de nota. No final do ano, três novas lojas e quiosques foram inaugurados no local.
Para enfrentar a pandemia, o Grupo Zurich Airport, que tinha assumido a concessão do terminal em janeiro de 2020, teve que se reinventar durante o período e buscar receitas alternativas. A concessionária do terminal disse que uma dessas receitas novas foi com a realização de eventos drive-in. As operações do Terminal de Cargas também ganharam incremento, com uma nova rota cargueira regular, operada pela Azul.
RECUPERAÇÃO
Apesar da recuperação ensaiada nos últimos meses, a retomada total do fluxo de passageiros pode demorar - em um cenário otimista - até dois anos para retornar ao patamar pré-pandemia, de acordo com a análise do economista Eduardo Araújo.
"Recuperar o que a gente perdeu até agora vai levar tempo. Esse ano tivemos menos da metade do desempenho de 2019. Calculo que para o final deste ano, considerando essa recuperação em dezembro de 2020, a gente avance e chegue em torno de 70% do fluxo que tivemos em 2019 e, ao final de 2022, ter um desempenho menos pior e voltar ao fluxo normal", analisou o economista.
Apesar do otimismo, Araújo pondera que a recuperação ampla do setor está sendo dificultada pela falta de políticas públicas no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus.
"A falta de um calendário de imunização de forma ampla traz desconfiança de quando a população brasileira estará vacinada contra o vírus e quanto tempo a economia vai levar para se recuperar. É muito difícil analisar o cenário e não considerar o fator político. Se a gente tiver em 2021 um ano semelhante a 2020, é muito provável que novas medidas restritivas sejam adotadas e a gente vai chegar ao final do ano com pedidos de recuperação judicial de empresas de turismo e hospedagem", alertou.
Nesse sentido, o economista vê o programa de imunização como uma vitrine para atração de turistas. "Por exemplo, se o Espírito Santo for o primeiro Estado 100% imunizado, isso atrai o turista e gera receita. O empresariado deveria estar focado nisso. Entender que a ciência e a saúde vão contribuir para a retomada da economia", avaliou.
No Estado, o setor de hotelaria também vive o pior ano da década. Profundamente impactado pela pandemia do novo coronavírus, o início do verão de 2021 já tem o movimento 34% menor que no ano anterior.
“A economia brasileira já estava muito fragilizada. Estamos acumulando crises. O setor aéreo é muito concentrado. Temos poucas empresas atuando no Brasil. Temos que abrir o Estado para novas empresas, nos conectar e criar trechos internacionais. Isso independe da pandemia e vai atrair ao Estado, visitantes com nível de renda mais elevado”, destacou Eduardo.
De acordo com informações divulgadas pela Anac no final de dezembro, as maiores empresas aéreas brasileiras (Azul, Gol e Latam) acumularam prejuízo de R$ 19,7 bilhões durante 2020.