A almejada retomada em 'V', com uma recuperação quase tão rápida quanto a queda, está se concretizando em vários setores da economia capixaba. Em contraste com o cenário que se viu no início da pandemia do coronavírus, em março e abril, empresas de diferentes segmentos estão vendo as vendas aumentarem e atingirem patamares anteriores ao da crise, com destaque para o setor industrial, que em muitos casos precisou convocar turnos extras para sábado e domingo para dar conta das encomendas crescentes.
Se antes a pandemia paralisou parques produtivos e provocou demissões, agora as fábricas estão voltando a rodar na capacidade máxima, sobretudo as ligadas aos setores de alimentos e de construção civil, e criando novos postos de trabalho. Trata-se de um reflexo da melhora geral da economia, impulsionando as vendas do comércio varejista no Espírito Santo e também provocando um boom nas vendas de imóveis.
As empresas que atendem esses segmentos também sentiram o aumento na procura. "Depois do susto da pandemia em março, a partir e abril a demanda começou a ter um arranque crescente, que se intensificou em maio e junho, e fez que com a gente tivesse que voltar a operar a empresa aos domingos", comenta Léo de Castro, vice-presidente da Fibrasa, indústria de embalagens que tem sede na Serra e filial em Pernambuco.
As unidades já vinham há algum tempo operando no regime de 6 dias por 1, mas foi necessário ampliar a operação para dar conta da demanda. "A gente precisou aumentar a produção em 15%, com o domingo, não para atender novos clientes, e sim conseguir atender clientes tradicionais que sempre tivemos. A demanda cresceu muito nos segmentos de alimentos e de tintas, que são os setores que mais atendemos."
Segundo ele, junto da alta do setor veio também a pressão nos custos, com o encarecimento e risco de escassez de insumos básicos para produção de embalagens, o que é uma ameaça para a retomada das fábricas que podem ficar sem ter com o que produzir. "A indústria de embalagens compra de um fornecedor só, que detém um monopólio, e isso trouxe reajustes fortes nas matérias-primas e restrições de compra".
Castro, que também é vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), avalia que o crescimento da demanda está diretamente conectado aos estímulos do governo à economia. "O auxílio do governo, de forma geral, estimulou muito. As pessoas também passaram a consumir menos serviços, lazer e turismo, diante das restrições, e passaram a redirecionar seus gastos sobretudo para a alimentação e para a casa".
A construção civil tem sido um dos motores dessa retomada. As construtoras estão acelerando obras e tirando do papel lançamentos em stand-by diante de uma verdadeira corrida para compra de imóveis no Estado, com recordes de vendas de novas unidades. Já quem tem casa própria, tem investido cada vez mais nela. Tudo isso tem feito a demanda por materiais de construção ir para as alturas.
Na Biancogres, indústria de porcelanatos e revestimentos cerâmicos, a demanda cresceu tanto que as vendas passaram a superar a produção. Darks César Casotti, CEO da empresa, explica que a fábrica na Serra já roda no máximo, operando 24 horas por dia e sete dias por semana, tendo sido possível fazer apenas pequenos ganhos incrementais. No entanto, os investimentos para ampliar a capacidade da planta continuam em andamento, com uma nova linha de produção que deve iniciar a operação em 2021.
"Os primeiros 100 dias da pandemia foram muito ruins. Logo depois, a partir do final de junho, começamos a ver uma reação e a partir de julho a curva inverteu. A questão é que os meses parados não tem como recuperar, porque os equipamentos não permitem ampliar a produção. Então estamos fazendo o máximo de esforço para conseguir atender os clientes e tocando o investimento na nova linha de cerâmica, com equipamentos que devem chegar da Itália nos próximos meses", diz.
Casotti cita alguns motivos para esse aquecimento do setor. "O ciclo econômico do Brasil já vinha numa ascensão do ponto de vista do PIB. E o ciclo da construção civil, que não necessariamente acompanha o crescimento do PIB, também estava numa crescente desde o ano passado. A pandemia de cara freou esses dois ciclos, mas eles se mostraram muito fortes".
"A taxa de juros baixa vem fazendo os poupadores tirarem o dinheiro das aplicações e investirem, em muitos casos em imóveis. De outro lado, a pandemia fez as famílias ficarem em casa e observarem mais o próprio lar, iniciando um movimento de valorização da casa com reformas e melhorias. Então essa indústria foi impulsionada dos dois lados, do grande construtor ao pequeno"
Como reflexo desses investimentos na própria casa, a indústria moveleira também tem se recuperado rapidamente, o que fez a demanda por vidros aumentar de forma acelerada, segundo o diretor-presidente da Viminas, Rafael Ribeiro. A empresa, que produz vidros temperados e laminados, logo precisou voltar com os trabalhadores que estavam suspensos e abrir novas vagas de trabalho para dar conta.
"As operações hoje estão mais aceleradas do que em janeiro e fevereiro, meses antes da pandemia, e com isso já recuperamos boa parcela do que perdemos com a pandemia", conta Ribeiro, que explica que tanto a demanda para fabricação de móveis como nas vidraçarias está muito alta. "Tínhamos reduzido a jornada e feito a suspensão do contrato em alguns casos, e logo voltamos todos ao normal e ainda precisamos contratar. Também voltamos com os turnos que tínhamos antes da pandemia", diz.
No setor de alimentos, a maior demanda para consumo em casa se aliou ao fato de produtos básicos, como o arroz, estarem com os preços nas alturas, o que fez os consumidores buscassem alternativas. Isso estimulou, por exemplo, a produção de massas. Esse é o caso da Villoni Alimentos, que faz biscoitos e massas em Viana.
Wellington Villaschi, sócio da Villoni e vice-presidente do Sindicato da Indústria de Massas Alimentícias e Biscoitos do Estado (Sindimassas), diz que o cenário é geral no setor. "A demanda cresceu uma vez que o arroz encareceu muito e o macarrão é sempre um substituto natural. Então aqueceu as vendas e a produção, mas dentro da capacidade que já tínhamos. Nossa expectativa é positiva".
CIDADES INDUSTRIALIZADAS ABREM MAIS EMPREGOS DO QUE FECHAM
A retomada da indústria pode ser vista nos números de geração de empregos. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério da Economia, o setor, aliado à construção civil, tem liderado a criação de vagas no Espírito Santo neste ano.
As cidades mais industrializadas do Estado é que estão liderando a abertura de novos postos de trabalho em 2020. Aracruz, que conta com uma unidade da Suzano, da Imetame e com o Estaleiro Jurong, foi a campeã em criação de vagas com 1.677 admissões a mais que demissões. A maior demanda por celulose e papel no mundo com a pandemia foi o que estimulou principalmente a criação desses novos empregos.
Na sequência aparecem a Serra, com saldo de emprego de 1.222, e Linhares, com 865 novas vagas, municípios que contam com grandes plantas industriais de transformação.
Outro destaque é Sooretama (371 vagas), pequena cidade no Norte do Estado que tem duas grandes indústrias, a Placas do Brasil (que produz placas de MDF) e a Itatiaia (que fabrica cozinhas), segmentos diretamente ligados ao aumento nos gastos com reformas, móveis e artigos do lar.
COMÉRCIO TAMBÉM JÁ VÊ RECUPERAÇÃO
Essa reação vai além da indústria. O comércio, por exemplo, que antes registrava um crescimento limitado a supermercados e farmácias, também começa a recuperar vendas em segmentos que vinham em baixa com a pandemia, como de veículos e de itens pessoais, como vestuário e calçados. O setor comercial liderou a criação de empregos formais no Espírito Santo em setembro.
O Grupo Águia Branca, por exemplo, tem visto a procura aumentar principalmente no segmento de caminhões, segundo o diretor-executivo da Divisão Comércio do Grupo Águia Branca, Marcelo Tinti, que destaca que elas já superam o período pré-pandemia. Com isso, as lojas logo readmitiram funcionários que foram desligados e precisaram aumentar o quadro de funcionários.
"O segmento de caminhões vem tendo um desempenho melhor do que na comparação com o ano passado. A gente teve um vale entre abril e maio, quando as vendas ficaram em 35% do normal, mas isso foi se recuperando. Em parte isso também é um reflexo da aceleração da construção civil, que tem uma grande cadeia de suprimentos, mas também do aumento da produção nas indústrias visando à exportação, diante do dólar valorizado, o que também demanda mais transporte", diz.
José Carlos Bergamin, diretor da Federação do Comércio de Bens e Serviços do Espírito Santo (Fecomércio), afirma que as lojas estão tendo uma recuperação constante desde o Dia dos Pais. "Com os recursos que o governo colocou no mercado e com a demanda reprimida que vínhamos tendo, houve essa recuperação. No vestuário, por exemplo, essa retomada tem começado a acontecer agora, a partir de setembro e outubro", diz.
A recuperação, no entanto, não tem sido igual para todos os setores. O de serviços, por exemplo, ainda está vivendo uma grande crise. "O consumo desse setor sofreu muito com as restrições da pandemia e acabou deixando de ser prioridade em muitos casos, como o turismo, transporte, lazer e eventos, que são segmentos que ainda não voltaram ao normal e seguem como dificuldades", comenta Bergamin.
Prova disso é que as cidades que têm a atividade econômica mais dependente desse segmento ainda estão com saldo de empregos negativo em 2020. É o caso de Guarapari, Cachoeiro de Itapemirim, São Mateus, Vila Velha e Vitória, por exemplo, segundo dados do Caged, que ainda somam mais demissões do que admissões neste ano. Só na Capital, por exemplo, foram mai de 4 mil postos de trabalho fechados neste ano.
Só agora o setor de serviços começa a dar os primeiros sinais após entrar em coma induzido. Após meses fechando mais vagas do que abrindo, o saldo de empregos em empresas que prestam serviços começou a reagir em setembro no Estado, com 1,9 mil postos de trabalhos abertos. "É um setor que depende muito do controle do vírus. Ele até começa a se recuperar, mas a retomada efetiva dele depende de termos uma vacina", diz Bergamin.
PREOCUPAÇÃO QUE RETOMADA SEJA SUSTENTÁVEL E HOMEGÊNEA
Apesar de ver fortes indícios de uma retomada em "V", sobretudo na indústria e em segmentos do comércio, o setor produtivo é cauteloso em afirmar que essa recuperação será consistente. De acordo com o executivo da Federação das Indústrias do Espírito Santo, Luis Claudio Montengro, o cenário ainda é de copo meio cheio e meio vazio, sendo preciso garantir que essa aceleração continue e alcance todos os setores.
"Na produção industrial e na atividade econômica como um todo a gente vê um 'V', mas o setor de serviços ainda está num patamar muito aquém do esperado. A gente precisa ter uma aceleração e avançar para que esse V não pare e comece a andar de lado, e sim continue subindo para retomar os patamares de antes da crise de 2015, que aí sim teremos um crescimento consistente"
No âmbito local, a avaliação é que o Espírito Santo tem posição de destaque e que conseguirá manter uma recuperação constante, diante das condições diferenciadas que o Estado tem do ponto de vista econômico e fiscal, segundo Montenegro. "Nós estamos fazendo um trabalho junto do governo para estimular a retomada e um crescimento sustentado, olhando para a infraestrutura, energia e inovação, por exemplo, que é plano que tem tudo para fazer o Estado seguir crescendo e não deixar os ânimos esfriarem".
Já ao nível nacional, os empresários batem na tecla de se acelerar as reformas de modernização da estrutura do governo e do ambiente de negócios, como a administrativa e a tributária. Darks César Casotti, da Biancogres, lembra que os agentes econômicos veem com temor o crescimento da dívida pública e a falta de reformas para fazer frente a esse aumento de gastos.
"A retomada é certa. O nosso maior problema agora, algo que olhamos com grande preocupação, é a conta do governo. É preciso parar de se gastar mais do que arrecada já, porque assim está fazendo dívidas para as gerações futuras. Esses novos pagadores de impostos não vão resistir se a dívida não for controlada, e não dá para arrecadar mais porque a carga tributária já passou do limite suportável. Então é preciso fazer as reformas e cortar gastos", afirma o empresário.
Já Léo de Castro cobra mais intensidade dos políticos para garantir essa recuperação. "A indústria brasileira religou de forma intensa. São vários os segmentos retomando forte. Se isso se perpetuar vai estimular ainda mais a economia. O câmbio já está no lugar correto, os juros estão baixos, e pode sim ter uma retomada em 'V' sustentável se as reformas foram aprovadas para reduzir o custo do governo e a dificuldade para se empreender. Falta isso. Se não for feito, podemos ter uma retomada que acabe sendo apenas um voo de galinha".