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Avanço da Covid-19

Lockdown ou regras flexíveis? O drama para salvar a saúde e a economia

Maneira como cidades, Estados e até o país aplicam restrições varia, mas, segundo analistas, o impacto da pandemia na atividade econômica existe em todos os cenários

Publicado em 05 de Abril de 2021 às 02:00

Publicado em 

05 abr 2021 às 02:00
Ruas de Vitória com baixa movimentação neste domingo (28)
Ruas de Vitória com baixa movimentação no último domingo de março Crédito: Fernando Madeira
A pandemia do coronavírus engloba várias crises em uma. De um lado há a questão sanitária, que se traduz no crescente número de infectados e mortos pela Covid-19, principalmente agora, com a presença de novas variantes mais perigosas e a lentidão da aplicação das vacinas. Do outro, há os impactos econômicos já perceptíveis na queda da produção industrial, no aumento do desemprego e na redução da renda das famílias, que adentram em ritmo acelerado a zona da pobreza.
O equilíbrio entre essas duas questões tem desafiado gestores municipais e estaduais, que tentam atacar o problema de maneiras diferentes. O desafio é balancear a manutenção da atividade econômica para preservar empresas, vagas de emprego e até as arrecadações de tributos e, ao mesmo tempo, gerenciar a velocidade de propagação do vírus e a capacidade de atender os doentes com leitos e insumos de saúde diversos.
Até o momento as ações tomadas por esses gestores, seja de instauração de medidas de restrição ao funcionamento de alguns setores, seja o lockdown (quando há proibição até da circulação de pessoas), têm sido duramente criticadas pelo governo federal. Além de evitar tomar um papel de coordenação das ações de combate à pandemia, o presidente Jair Bolsonaro ataca com frequência a ação dos líderes estaduais e municipais, chegando a acionar a Justiça para suspender algumas delas.
Especialistas em saúde e economia divergem quanto à maneira mais eficaz de tratar a crise do coronavírus. Um ponto, contudo, é unânime: a pandemia, por si só, tem efeito na economia. Não há como haver uma dissociação entre os dois temas. Seja aplicando medidas restritivas mais leves, moderadas, severas, ou nenhuma medida, o impacto do vírus nas atividades econômicas é a realidade.
“Existe um divisor de águas: a economia antes e depois da Covid. Dificilmente vamos recuperar nos próximos anos a atividade econômica que havia no mundo pré-pandemia. Até mesmo na produção, na prestação de serviço, os parâmetros e os padrões foram repensados. Vemos isso no transporte aéreo, no setor de turismo, que terá que ser todo repensado, no comércio, com as vendas on-line, os serviços de delivery. Todas essas mudanças são fatos”, afirma o diretor de Integração e Projetos Especiais do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Pablo Lira.

MESMO SEM RESTRIÇÃO NENHUMA, A ECONOMIA É PROFUNDAMENTE AFETADA

Ele aponta que o argumento de que, sem as restrições ao funcionamento dos negócios e à mobilidade das pessoas, a atividade econômica seria mantida em patamares pré-pandemia, não se sustenta. Isso porque, como vivemos em uma economia de mercado global, independentemente da estratégia adotada por um país específico, ele sofre o impacto do que acontece nos demais.
O doutor em Economia e pesquisador do Ipea Daniel Cerqueira concorda que há uma falsa dicotomia entre saúde e preservação da economia. Ele lembra que países que inicialmente optaram por não fazer o lockdown, sofreram um aumento explosivo de casos de Covid e tiveram que recuar.
“A Suécia é um bom exemplo disso, que hoje é o centro da Covid na Europa. De fato, essa é uma ideia estapafúrdia, que não encontra amparo nas evidências empíricas e que gera inúmeras mortes desnecessárias, sem qualquer efeito positivo sobre a economia no médio prazo. No Brasil, essa ideia foi utilizada como um instrumento de luta política, no meio ao caos e ao desprezo à vida humana”, observou.
Ele afirma que, mesmo com o comércio aberto, há uma abstenção do consumo, sobretudo no setor de serviços, mesmo porque as pessoas percebem o risco de contaminação e se impõem a um “auto isolamento”.
Além disso, a propagação desenfreada da doença eventualmente chega às indústrias. Com trabalhadores adoecidos e muitos mortos, determinados setores produtivos se deparam com severas restrições que podem gerar o desabastecimento de determinados produtos.
“Em terceiro lugar, há o canal expectacional (experiência de alta inflação em um momento de altos gastos públicos). Como o cenário da pandemia se arrasta ao longo do tempo, investimentos deixam de ser feitos, empresas se fecham e projetos outrora viáveis economicamente são engavetados”, explica Cerqueira.
Do ponto de vista epidemiológico, a manutenção de todas as atividades comerciais e a livre circulação de pessoas é catastrófica, favorece o surgimento de cepas mais agressivas da doença e é uma das razões que tornaram o Brasil o epicentro mundial da Covid-19 em 2021.
“(A falta de medidas restritivas) prolonga a crise. O vírus circula por pessoas infectadas, e muitas não sabem ainda que estão doentes. A medida de restrição de circulação visa a diminuir a mobilidade de pessoas que podem estar doentes e infectando outras pessoas. Estamos em um momento muito difícil do país nesta grave crise. E a única coisa que temos para fazer é isso (isolamento)”, sustenta a doutora em epidemiologia e professora da Ufes Ethel Maciel.

MEDIDAS INTERMEDIÁRIAS BUSCAM EQUILIBRAR SAÚDE E ECONOMIA

Desde o início da pandemia, o governo do Espírito Santo tem aplicado medidas restritivas consideradas moderadas. Isso porque elas são direcionadas a alguns setores específicos, em geral, aqueles que provocam aglomeração e precisam de interação prolongada e muito próxima entre pessoas, como eventos, turismo e academias.
Desde março de 2020, o Estado passou por períodos mais restritos, em que apenas o comércio essencial funcionava, e mais “frouxos”, quando houve a volta das aulas presenciais, por exemplo.
Segundo Pablo Lira, essa estratégia tem efeito na redução do contágio, porém em menor grau. Ela, contudo, é mais eficiente em preservar postos de trabalho e garantir um mínimo de manutenção da renda da população.
“Os segmentos de supermercados e farmácias têm crescimento, os restaurantes têm atividade de delivery, o emprego é mais preservado porque empresas podem fazer suspensão de contrato. Não chega no nível de gerar desemprego e queda na renda como um lockdown”, avalia.
Um estudo do Banco Mundial publicado ainda em 2020 mostrou que, quanto mais restritivas as medidas tomadas pelas autoridades públicas, maior a queda na transmissão da doença. Contudo, um ponto é chave: o timing. Ações, mesmo severas, tomadas tarde demais, podem não surtir o efeito esperado.
Além disso, estudos científicos mostram que algumas dessas restrições fazem mais efeito que outras. Medidas que restringem eventos e reuniões de grande e pequeno porte, por exemplo, se mostraram efetivas em diversos países do mundo. O mesmo aconteceu com as reduções de circulação em aeroportos. Já a desinfecção de locais públicos e cordões sanitários fazem menos efeito.
Esse estudo demonstrou também que a promoção por parte do governo de auxílios financeiros à população mais vulnerável é uma medida eficaz na redução da contaminação. O mesmo dado foi encontrado também por outros estudos, que apontaram uma redução maior de circulação de pessoas em locais onde as medidas restritivas foram acompanhadas de ajudas fiscais às famílias e às empresas.
Na sexta-feira (26), o governo do Estado anunciou um pacote de medidas sociais que incluem um auxílio de R$ 200 durante três meses para famílias em situação de extrema pobreza. Enquanto isso, o auxílio emergencial federal foi descontinuado em dezembro do ano passado e será retomado, em um valor médio de R$ 250 na próxima terça-feira (6).
“Estamos vendo países como Canadá, Alemanha e outros do bloco europeu, que assumiram parte do salário dos trabalhadores, para que as empresas conseguissem sobreviver. Nos Estado Unidos, há o pacote trilionário do Biden. No Brasil, o governo federal está com pouca ação nesse momento crítico. Isso é muito ruim porque os governos estaduais não têm limites para fazer esses pacotes”, afirma Ethel Maciel.

LOCKDOWN GERAL É DEFENDIDO POR ESPECIALISTAS EM SAÚDE, MAS DIVIDE ECONOMISTAS

O conjunto mais restritivo de ações para controlar a propagação do coronavírus, que inclui também a proibição de circulação de pessoas, é o lockdown. A medida é defendida por especialistas em saúde como a única solução para interromper a tendência de alta expressiva do número de casos e mitigar o efeito sobre o serviço de saúde, que já colapsou em muitos locais do país.
“Para tentar frear o vírus, a única solução é o lockdown nacional. Há também a vacinação, mas estamos muito lentos. A gente já tem fila de espera hoje pra leito de UTI. No privado, já não tem nenhuma vaga. Qual a solução? Não tem outra solução. O negócio é que a gente deveria ter pacotes para auxiliar o setor econômico”, argumenta a pesquisadora Ethel.
A medida tem sido aplicada, de forma isolada, em algumas cidades do país, como Araraquara, no interior de São Paulo. Após lockdown de dez dias, a prefeitura viu a taxa de transmissão do vírus cair pela metade. No último dia 25, a cidade não registrou nenhuma morte por Covid-19. No Espírito Santo, algumas cidades, como Barra de São Francisco também adotaram toque de recolher, mas ainda não há dados sobre a eficiência.
Pablo Lira, contudo, avalia como “muito difícil” a implantação de um lockdown em todo o país. Isso porque, atualmente, cada ente federado tem tomado medidas independentes, o que prejudica a eficácia da medida. A maior parte do problema está na falta de coordenação nacional.
“Se um Estado adotar, mesmo assim continua a interação com os Estados vizinhos, os aeroportos, as fronteiras terrestres. Não tem voo solo no combate à pandemia. Hoje, os governadores tentam somar esforços, os prefeitos também, mas o tempo todo o presidente com sua postura negacionista e de tensionamento político está prejudicando”, afirma.
O pesquisador do Ipea Daniel Cerqueira concorda que é preciso uma coordenação nacional que promova o aprofundamento do isolamento social e com lockdown em algumas áreas mais críticas. Ele defende, inclusive, sanções administrativas contra quem não utilizar máscara em locais públicos.
“O melhor que a sociedade e governos podem fazer para minimizar esse custo é a união em torno da ciência, da verdade, de medidas restritivas duras para barrar a cadeia de contaminação e vacina, vacina e mais vacina. Salvar vidas implica em salvar a economia”, ressalta.
O lockdown também foi defendido em uma carta aberta ao governo assinada por milhares de economistas, ex-ministros, banqueiros e empresários.
Um dos signatários do documento, o economista e doutor em Ciência Política Paulo Tafner avalia, contudo, que a medida é severa e só deve ser tomada como último recurso. Antes disso, ele pontua outras iniciativas que podem ser tomadas como distribuição gratuita de máscaras, a distribuição mais direcionada de recursos hospitalares e a melhor utilização dos recursos financeiros.
“A atividade econômica sofre, a falta de coordenação e trabalho efetivo de evitar aglomerações leva a uma disseminação maior do vírus e chega numa situação tão crítica que eventualmente tem que fazer lockdown. E aí as empresas pagam um custo alto. Para a produção, trabalhadores mais pobres e menos qualificados acabam pagando a conta maior. Isso tem que ser evitado. Nem o Brasil, nem nenhum outro país aguenta um longo lockdown. Ele é uma medida extrema para uma situação de crise e tem que ser focalizado para bloquear as áreas críticas", conclui.

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