No Norte do Espírito Santo, quase 1.500 casas estão se deteriorando pela ação do tempo, dos cupins, do vandalismo, de incêndios e da longa espera por seus moradores. As unidades, que deveriam ter sido entregues há uma década, fazem parte do programa Minha Casa Minha Vida, agora chamado Casa Verde e Amarela, do governo federal.
São dois residenciais que foram contratados em 2010 e 2013 e a programação era de que as famílias deveriam receber as unidades dois anos depois, mas isso nunca aconteceu. As casas são destinadas para a chamada faixa 1, população com renda de até R$1.800. Um dos conjuntos, o Residencial Mata do Cacau, em Linhares, está entre os 35 mais antigos do país com obras atrasadas ou paralisadas.
O fato acontece em um Estado onde o déficit habitacional atinge mais de 74 mil famílias, segundo o último levantamento realizado pelo Instituto Jones dos Santos Neves, em 2019. Cerca de dez mil delas são da Região Norte do Espírito Santo.
São pessoas que vivem em uma habitação precária (improvisada ou rústica), pagando aluguel excessivo ou em um elevado adensamento habitacional, ou seja, muitas pessoas habitando uma mesma casa.
EM LINHARES, INCÊNDIO ATINGIU AS CASAS
Um dos maiores conjuntos abandonados fica em Linhares. Trata-se do Residencial Mata do Cacau, com 992 unidades, que foi contratado em 2010, no valor de R$ 40 milhões. As casas deveriam ser entregues em 2012, mas a chuva forte e a cheia do Rio Doce alagou o residencial.
A obra acabou sendo embargada pela Justiça Federal, após ação do Ministério Público Federal (MPF), porque o alagamento comprometeu a estrutura das casas que até hoje não foram entregues.
No mês de agosto deste ano, um incêndio queimou o mato que cresceu entre as casas e que, em alguns pontos, ultrapassava o telhado. O calor das chamas deixou marcas nas casas, queimando os tanques, derretendo o forro interno e deixando rachaduras nas paredes. O que piorou a situação do conjunto, que já sofria com a ação do tempo, dos cupins, do vandalismo.
A equipe de A Gazeta conseguiu visitar as unidades e constatou o abandono. Em parte do conjunto o mato ainda permanece alto, tornando difícil o acesso ao local. Em algumas casas a depredação apresenta sinais, com pias, vasos sanitários, equipamentos de luz e até portas destruídas.
Algumas casas foram afetadas pelo alagamento e apresentam rachaduras em várias paredes. Outras estão sendo destruídas pelo cupim. Mas a maior parte do conjunto foi afetada pelo recente incêndio, que destruiu tanques, derreteu o forro das casas e provocou novas rachaduras.
EM SOORETAMA, MAIS CASAS ABANDONADAS
No extremo Norte do Estado a situação se repete. Em Sooretama, 431 casas do Residencial Alegre, também estão abandonadas e sofrendo com a ação do tempo e da depredação.
Elas foram contratadas em 2013 e eram para ser entregues em 2015, o que também não aconteceu. O investimento na construção delas supera os R$ 21 milhões.
Em visita ao local, a equipe de reportagem de A Gazeta voltou a constatar que muitas delas estão abertas e sendo alvo de vandalismo, roubo ou depredação. No local há mato, unidades com rachaduras, enquanto as famílias a elas destinadas aguardam há quase uma década para tomar posse dos imóveis.
Conjuntos abandonados do Minha Casa Minha Vida
O QUE DIZ A CAIXA
Por nota, a Caixa informou que foram contratados 35 empreendimentos no Espírito Santo, no âmbito do Programa Minha Casa Minha Vida – Faixa 1, com recursos do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), dos quais 31 foram entregues, atendendo a um total de 10 mil famílias no Estado.
Acrescenta que dois empreendimentos estão em obras e outros dois em processo de contratação de novas construtoras, visando a conclusão das obras.
“Especificamente em relação ao Residencial Alegre, de Sooretama, esclarecemos que houve contratação de nova empresa, cujas obras estão em execução, com término programado para março de 2023”, diz, em nota.
Em relação ao Residencial Mata do Cacau, em Linhares, informa que “está em fase de definição da empresa substituta para retomada das obras, prevista para ocorrer até novembro de 2022”.