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Decisão estratégica

Multinacional de cimentos quer vender fábrica no ES antes de sair do Brasil

Em plena retomada da construção civil, o grupo franco-suíço LafargeHolcim planeja saída do país para diminuir a dívida global da companhia. Negócio emprega cerca de 100 pessoas no ES e pode estar na mira de uma empresa japonesa

Publicado em 28 de Abril de 2021 às 02:00

Caroline Freitas

Publicado em 

28 abr 2021 às 02:00
LafargeHolcim pretende se desfazer de ativos no país para diminuir níveis de endividamento
LafargeHolcim pretende se desfazer de ativos no país para diminuir níveis de endividamento Crédito: LafargeHolcim/Divulgação
Buscando reduzir os níveis de endividamento da companhia, o grupo franco-suíço LafargeHolcim, maior fabricante de cimento do mundo, prepara-se para deixar o Brasil, com plano de vendas de todos os seus ativos no país, inclusive uma fábrica localizada na Serra, no Espírito Santo
A empresa, que emprega cerca de 1,4 mil trabalhadores no país — sendo aproximadamente 100 no Estado, entre funcionários diretos e indiretos —, informou que não comentará sobre o assunto. A movimentação, no entanto, surpreendeu alguns representantes do setor, por ocorrer em um momento de fortalecimento da construção civil no país, observado desde o ano passado.
A decisão segue em linha com outros desinvestimentos realizados pela companhia nos últimos anos. Desde 2018, a empresa vem se empenhando na venda de seus ativos fora da Europa, tendo se desfeito de negócios em países como Indonésia e Malásia.
No Brasil, entretanto, esse processo vem ocorrendo de forma gradual. Em 2015, o grupo empresarial vendeu ativos no país avaliados em cerca de US$ 350 milhões para o grupo irlandês CRH, o que diminuiu consideravelmente seu porte em território brasileiro.
À época, o pacote de venda incluiu três fábricas de cimento (Matozinhos e Arcos Jazida, da Lafarge, e Cantagalo, da Holcim), duas estações de moagem (Arcos Cidade e Santa Luzia, da Lafarge) e uma indústria de mistura pronta de cimento (Pouso Alegre, da Holcim).
Hoje, a LafargeHolcim tem pouco mais de uma dezena de fábricas no país, inclusive a unidade de moagem na Serra, adquirida do grupo Paraíso na década de 1990. A planta, em funcionamento desde meados da década de 1980, aproveita a escória de alto-forno (um tipo resíduo da siderurgia) da ArcelorMittal Tubarão, que é moída, secada e redistribuída para outros locais do país, mas que também é utilizada na produção de cimento pela fábrica no Estado.
“É um negócio antigo, bem-estruturado, e as vendas têm saído bem, mas não é a primeira vez que essa fábrica é vendida. Passou do grupo Paraíso para a Holcim, que se fundiu com a Lafarge anos depois. Agora, há rumores sobre a negociação com um grupo japonês, mas não se sabe ao certo”, explicou o diretor de imprensa e comunicação do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Cimento (Sintracical-ES), Janílton José da Silva, que também é funcionário e representante sindical da unidade capixaba.
Silva, que está na empresa desde 1989, conta que as mudanças de gestão ao longo dos anos não chegaram a prejudicar a produção, mas teme pela redução do quadro de funcionários, a depender de como se der o processo de venda dos ativos do grupo franco-suíço.
LafargeHolcim tem unidade especializada em moagem na Serra
Unidade da LafargeHolcim na Serra é especializada em moagem Crédito: LafargeHolcim/Divulgação
Ele conta ainda que atualmente, além desta planta, o Estado conta com apenas duas outras fabricantes de cimento: a Nassau (que enfrenta uma crise nacionalmente por briga entre herdeiros do grupo) e a Mizu. A unidade da Serra emprega, diretamente, entre 50 e 60 trabalhadores, chegando a mais de 100 quando considerados os indiretos em áreas como transporte, alimentação, entre outras. Um número menor que as demais, apesar de o negócio ter maior estabilidade, segundo o sindicalista.
Para auxiliar no processo de desinvestimento em território brasileiro, a multinacional contratou o banco Itaú BBA. Uma fonte familiarizada com o caso informou que o grupo pode tanto optar por vender suas fábricas no país a um único comprador, quanto repartir os ativos entre vários investidores, conforme apurou a agência Bloomberg.
Em função da concentração do mercado, o processo deve passar pelo crivo do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o órgão antitruste brasileiro. Mas, caso o plano de se concretize, a LafargeHolcim se somará a outras multinacionais, como Sony, Ford, LG e Mercedes-Benz, que anunciaram a saída do Brasil nos últimos meses, em meio à crise econômica.
Além disso, a companhia se tornará a segunda cimenteira a deixar o país em poucos meses. No fim do ano passado, o grupo irlandês CRH, que adquiriu ativos da LafargeHolcim em 2015, vendeu suas operações à Companhia Nacional de Cimento, controlada pela italiana Buzzi e pelo grupo brasileiro Brennand.
Na avaliação de um analista do setor que preferiu não se identificar, a produção dos segmentos ligados à construção civil vinha em queda há alguns anos e a retomada nas vendas observada desde o ano passado pode não ser ainda suficiente para que a empresa recupere os prejuízos.
Mas ele destacou que a decisão da empresa é por concentrar os negócios em locais específicos, principalmente na Europa, e não a mera extinção dos negócios, o que não significa, necessariamente, que há descrença no potencial do setor.

FUGA DE NEGÓCIOS: CRISE E ATRASO EM AGENDA DE REFORMAS AFASTAM INVESTIDORES

O presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Espírito Santo (Sinduscon-ES), Paulo Baraona, lamentou a decisão do grupo franco-suíço de vender os negócios no país, e observou que, dependendo de como se der o processo de desinvestimento, podem haver prejuízos pontuais ao setor.
“É a terceira maior cimenteira do país e uma entre as três que temos no Estado. Dependendo de como for, pode haver prejuízo a empregos e negócios. A gente espera que ela venda os ativos para empresas do setor, mas até que tudo se confirme, vive-se na incerteza, inclusive com medo de paradas pontuais na produção.”
Ele reforça, entretanto, que ainda que o processo ocorra de forma tranquila, sem prejuízos ao abastecimento e aos funcionários da empresa, o abandono da LafargeHolcim, que é líder mundial na fabricação de cimento, deve ser encarado como um sinal de alerta.
“Não é a primeira grande empresa que nos deixa nos últimos meses. Elas estão fugindo do país. Temos o problema da pandemia, mas a crise não é de agora. Precisamos avançar com as reformas, mudar esse clima de incertezas. O Congresso precisa se movimentar para impedir essa debandada de negócios.”
A presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Cris Samorini, afirmou, por nota, que a entidade vê com preocupação as notícias que sinalizam o possível encerramento das operações na empresa no Brasil e diz que a melhoria no ambiente de negócios brasileiro é urgente.
"O desinvestimento, se confirmado, não seria um caso isolado, infelizmente. No início do ano houve grande repercussão em torno de um anúncio emblemático, que foi a decisão da Ford, de encerrar a produção de veículos no país. Corremos o risco de essas decisões se repetirem cada vez mais, caso o país não avance com sua agenda de reformas estruturantes e com a redução do Custo Brasil"
Cris Samorini - Presidente da Findes
A executiva destaca que as reformas tributária e administrativa, principalmente, vêm sendo debatidas há anos e não avançam no ritmo necessário. Um estudo do próprio governo federal indica que o país perde R$ 1,5 trilhão por ano com o Custo Brasil, ou 22% do PIB (Produto Interno Bruto).
Paralelamente, as empresas brasileiras gastam em média 1,5 mil horas por ano somente para organizar o pagamento de impostos, segundo o estudo do governo, contra uma média de 161 horas dos países da OCDE.
Cris Samorini, empresária e presidente da Federação das Indústrias do ES - Findes
Cris Samorini, empresária e presidente da Federação das Indústrias do ES - Findes Crédito: Carlos Alberto Silva
“Já o prazo médio para o licenciamento ambiental é de 2.140 dias, contra a média de 240 dias no mundo desenvolvido. Ficamos atrás ainda em diversos outros critérios, como alto custo de financiamento, encargos trabalhistas e infraestrutura e logística.”
Samorini frisa ainda que, além das grandes reformas, há projetos relevantes em tramitação no Congresso que contribuem para a melhoria do ambiente de negócios e que precisam avançar, entre eles a proposta para a Recuperação e Falência de Micro e Pequenas Empresas (PLP 33/2020), a Lei Geral de Licenciamento Ambiental (PL 3729/2004 e PLS 168/2018) e a Modernização do Setor Elétrico (PL 414/2021).
“Porém, a agenda política e a polarização ideológica, infelizmente, parecem estar se sobrepondo aos interesses maiores da nação. Esperamos que nossas lideranças possam refletir sobre a prioridade de cada agenda. As eleições serão somente em 2022. O momento exige foco no controle da pandemia e na tramitação das reformas. Precisamos trabalhar nessas duas frentes, para possibilitar a retomada da economia, com um ciclo sustentável de desenvolvimento econômico e social.”
Os prejuízos decorrentes do ambiente de negócios do país são tamanhos que um estudo recente publicado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), com análise de 30 economias - que representam 90% da indústria de transformação no mundo -, em um período de 48 anos (1970-2017), aponta o Brasil como o país que mais se desindustrializou no globo.
Para se ter ideia, em meados da década de 1980, o setor industrial chegou a representar quase metade das riquezas produzidas pelo país (48%), segundo informações apuradas pelo jornal O Estado de S. Paulo. Contudo, a produção vem em declínio desde então. A participação da indústria de transformação (sem petróleo e minério) no PIB brasileiro já está em um patamar abaixo dos 10%, sendo que, no primeiro ano da pandemia do novo coronavírus, o setor apresentou declínio de 4,3%.
*Com informações da Agência Estado

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