O auxílio emergencial tem cumprido papel importante de levar renda às famílias que, de outra forma, ficariam desamparadas durante a crise provocada pelo novo coronavírus. Apesar disso, especialistas alertam que uma nova prorrogação do benefício, ou mesmo a criação do Renda Cidadã, sem uma contrapartida, pode levar à criação de uma nova geração de nem-nem.
Esse grupo são pessoas que nem estudam, nem trabalham. À primeira vista, vivem acomodados. E, em alguns casos, é, de fato, o que ocorre, muito embora não se possa generalizar.
Algumas pessoas simplesmente não têm perspectivas de melhora, às vezes por dificuldade de aprendizagem desistem de estudar, o que atrapalha a qualificação profissional e, consequentemente, torna mais difícil conseguir trabalho. Buscam por uma oportunidade e não acham. Acabam, então, desistindo.
A transferência de renda, portanto, não deixa de ser necessária. Por outro lado, é preciso considerar que, em alguns casos, a garantia de renda por tempo indefinido pode desestimular a produtividade. Por isso, é preciso haver uma porta de saída.
"No Bolsa Família, por exemplo, tem que ter crianças na escola. Você não pode só transferir a renda e não ter uma contrapartida. De alguma forma, tem que estar associada a uma estratégia que promova a educação, a inclusão produtiva. Não pode ser só isso"
A distribuição de renda, segundo Zeina, é essencial no curto prazo, para atender pessoas que não conseguem se manter. Mas não soluciona um problema mais amplo. A economista observa que é preciso melhorar a qualidade da educação e implementar ações para que não haja uma dependência das transferências.
“Essas políticas têm que ter início, meio e fim. Do contrário, a pessoa fica acomodada. Já tem alguma renda garantida. Vai se empenhar por quê? Se você exagera nessas políticas, a pessoa não vai ter motivação para estudar, buscar trabalho.”
O economista Fabio Giambagi, especialista em finanças públicas, observa que, apesar de necessário, o auxílio foi mal calibrado. “Um modelo em que o Estado só dá dinheiro, extingue os recursos fiscais sem que as pessoas estejam preparadas.”
Ele considera ainda que o novo programa social deve ser concedido com mais cuidado, que o cadastro observe critérios mais rigorosos, a fim de evitar que o dinheiro vá parar nas mãos erradas.
“Tem que ser muito bem elaborado. Tem gente que simplesmente não tem de onde tirar dinheiro. Isso ficou claro com o auxílio emergencial. E essas pessoas precisam de amparo. Ao mesmo tempo, existe gente que se aproveita.”
Economista da XP Investimentos, Lisandra Barbero frisa que mesmo o novo programa não poderia ser mantido sem uma compensação.
“Essa contrapartida tem que vir justamente em investimentos na educação, facilidade para se contratar. Olhando para o médio, longo prazo, não seria sustentável. Do modo como foi, trouxe vários efeitos positivos no curto prazo, mas, no médio e longo prazo, as consequências seriam desastrosas.”