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Entenda o cenário

Novo tarifaço: como ação dos EUA contra o Brasil traz risco à economia do ES

Ameaça de nova taxação norte-americana de 25% sobre produtos brasileiros é vista com preocupação por diferentes setores econômicos no Estado

Publicado em 02 de Junho de 2026 às 19:26

Leticia Orlandi

Publicado em 

02 jun 2026 às 19:26
Contêineres
De janeiro a abril de 2026, os EUA foram destino de 24,3% das exportações capixabas. Carlos Alberto Silva

Depois de uma série de idas e vindas na imposição de taxas aos produtos brasileiros que são exportados aos Estados Unidos, o tarifaço ganha mais um capítulo. Desta vez, o governo de Donald Trump, anunciou a conclusão de uma investigação baseada na Seção 301 da legislação comercial norte-americana, propondo um novo tarifaço de 25% sobre bens importados do Brasil. E de novo empresas do Espírito Santo devem ser impactadas.


A medida é vista como uma resposta a práticas comerciais consideradas injustas pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR).


A decisão sobre aplicação ou não cabe ao presidente dos EUA, Donald Trump. Agora, o USTR vai abrir uma consulta para que o setor privado comente os resultados antes da elaboração do relatório definitivo, que precisa ser publicado até 15 de julho. 


Atualmente segue em vigor uma tarifa de 10% imposta a quase todos os produtos que entram nos Estados Unidos, inclusive do Brasil. A sugestão que aumenta a taxa exclui uma ampla lista de bens considerados estratégicos para a economia norte-americana ou cuja oferta doméstica é insuficiente. Nela estão alguns produtos importantes para o Espírito Santo, como café – com exceção do solúvel –, minério, petróleo e frutas.


Em relatório publicado em maio, o Banco Central considerou que o Estado capixaba foi o mais afetado pelo tarifaço no país. O estudo mostrou que o PIB do Espírito Santo caiu 0,55% no ano passado, como efeito das taxas cobrados pelos EUA para os produtos importados do Brasil.


De janeiro a abril de 2026, os EUA foram destino de 24,3% das exportações capixabas. Ao longo de 2025, representou 27%.


Uma das mercadorias capixabas afetadas devem continuar sendo as rochas ornamentais. Entre os produtos do setor, continua na lista de exceção apenas o quartzito, enquanto categorias relevantes da pauta exportadora brasileira, como granitos, mármores, ardósias e outros materiais entram na lista de taxação.


Para a Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas), caso as medidas avancem, os impactos poderão ser significativos para grande parte da atividade industrial e a manutenção de empregos ao longo da cadeia produtiva.


"A preocupação do setor permanece elevada. Os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras de rochas naturais e a proposta anunciada pelo USTR volta a colocar sob risco aproximadamente 45% do faturamento exportado pelo setor. A inclusão de um código de nossos produtos entre as exceções é uma informação relevante, mas ainda estamos avaliando os impactos sobre outras categorias importantes da nossa pauta exportadora", afirma Tales Machado, presidente da Centrorochas.

O impacto é ainda mais severo entre as pequenas e médias empresas, que, em sua maioria, dependem quase exclusivamente da exportação desses materiais para manter as operações. Em muitos casos, trata-se de 100% da receita dessas companhias, o que torna a sustentabilidade econômica e a preservação dos postos de trabalho altamente ameaçadas.

Tales Machado Presidente do Centrorochas

Impactos

O economista Eduardo Araújo explica que a tarifa, na prática, funciona como um custo de entrada: o produto chega mais caro aos EUA, e o exportador precisa escolher entre reduzir a margem de lucro ou correr o risco de perder competitividade. Por isso, os efeitos vão além do preço. Podem se refletir em contratos, volumes embarcados, decisões de produção e planos de investimento.


"No Espírito Santo, a análise inicial é mais específica. Parte significativa da pauta exportadora capixaba para os EUA, como café, petróleo, minério de ferro e celulose, está enquadrada em códigos excluídos da nova tarifa proposta pelo USTR. O aço também exige avaliação à parte, uma vez que a proposta exclui bens já sujeitos às tarifas da Seção 232", observa o economista.


Eduardo reforça que o principal ponto de atenção está nas rochas ornamentais. "A lista americana menciona apenas uma classificação específica de pedras trabalhadas, mas isso não permite concluir que todo o setor de granito, mármore, quartzito e produtos beneficiados esteja protegido. Para o Espírito Santo, portanto, o risco está menos associado ao anúncio da tarifa em si e mais à correta classificação aduaneira de cada mercadoria", aponta.


O economista lembra ainda que, no Brasil, os setores mais expostos são justamente aqueles que ficaram fora das exceções, especialmente máquinas e equipamentos, madeira e manufaturados, produtos elétricos e outros bens industriais.


Para Pablo Lira, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Instituto Jones dos Santos Neves, o anúncio da nova taxação é potencialmente mais preocupante do que as movimentações tarifárias ocorridas em 2025.


A diferença central, segundo ele, é que esta ação foi delineada especificamente com foco no Brasil e possui um lastro de sustentação jurídica que faltava em medidas anteriores, as quais acabaram parcialmente derrubadas pela Suprema Corte dos EUA por terem caráter estritamente político.


Lira lembra que o Espírito Santo já possui experiência nesse sentido, tendo criado comissões para neutralizar e mitigar efeitos de tarifações anteriores por meio do diálogo com lideranças políticas e comerciais nos EUA. 


O especialista aponta que, caso o tarifaço se concretize, a tendência é um rearranjo da balança comercial brasileira, com redirecionamento das exportações para mercados como Ásia (China) e Europa. Nesse cenário, o acordo entre Mercosul e União Europeia ganha ainda mais relevância estratégica para o Estado e o país.

O que diz o setor industrial

O setor industrial também vê com preocupação o acréscimo das tarifas, num momento em que as exportações da indústria de transformação para os Estados Unidos tiveram queda de 4,2% em 2025.


Nove dos 15 principais setores da indústria de transformação registraram queda nas exportações no ano passado. As maiores reduções ocorreram em produtos de metal (-31,6%); madeira (-20%); celulose e papel (-19,9%) e veículos automotores (-17,6%).


Para a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), os riscos são significativos. Os Estados Unidos são, historicamente, o principal parceiro comercial do Estado. No primeiro quadrimestre de 2026, o Espírito Santo exportou US$ 752,82 milhões para os EUA, o que representa 24,32% das negociações capixabas, conforme os dados da Comex Stat.


“Desde os primeiros anúncios das medidas tarifárias dos Estados Unidos, no ano passado, a Findes acompanha atentamente seus desdobramentos e impactos para a indústria capixaba. Temos atuado para fortalecer conexões, ampliar o diálogo com parceiros estratégicos e identificar oportunidades capazes de atrair investimentos, diversificar mercados e impulsionar a economia do Estado. Seguiremos mobilizando nossa estrutura técnica e institucional para apoiar as empresas na avaliação desse cenário e na construção de alternativas que preservem a competitividade, os investimentos e os empregos gerados pelo setor produtivo capixaba”, afirma o presidente da Findes, Paulo Baraona. 


A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avalia que medidas tarifárias dessa natureza não contribuem para o fortalecimento da relação econômica bilateral e podem provocar impactos negativos em cadeias produtivas.

Ações do governo federal

Em resposta às medidas anunciadas pelos Estados Unidos, o vice-presidente Geraldo Alckmin ressaltou ainda que a balança comercial com os EUA não é favorável ao Brasil. 


“Ela é amplamente favorável aos Estados Unidos. Nós tivemos no ano passado, somando balança de produtos e serviços, US$ 40 bilhões de superávit para os Estados Unidos. Então, há um enorme favorecimento. Dos 10 produtos que os Estados Unidos mais exportam, para oito a tarifa é zero. É chamado ex-tarifário. E a tarifa média é 3,1%. Por tudo isso, entendemos que é totalmente descabida a recomendação." 

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