Não deve demorar muito para o brasileiro sair para fazer compras e deixar a carteira em casa. Para além dos aplicativos de bancos, do pagamento por QR code ou mesmo dos cartões que não precisa de contato físico, a revolução dos meios de pagamento deve chegar cada vez mais próxima do invisível, muitas vezes não precisando nem mesmo de um celular.
Pensar nisso hoje parece ousado, mas esses projetos já estão em desenvolvimento por empresas brasileiras e com promessa para sair do papel entre 2020 e 2021. Parte dessas inovações são sistemas de identificação biométrica, mas não necessariamente usando as digitais dos dedos.
O PicPay e Banco Original já testam o pagamento por reconhecimento facial para lançamento após a pandemia do coronavírus. O InoveBanco também já firmou parceira com um player chinês para pagamento por biometria facial. A tecnologia já é usada em peso na China há alguns anos e tem chegado ao Ocidente aos poucos.
"Está em processo de homologação, dependendo ainda das bandeiras. É um equipamento híbrido, uma mistura de maquininha de cartão com tablet, onde ao invés de senha será feito o reconhecimento facial. Esperamos lançar em breve", contou o CEO Patrick Burnett.
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Até os vasos sanguíneos poderão servir de senha. “No Brasil já tem gente desenvolvimento o reconhecimento da mão pelos vasos sanguíneos como forma de autenticação para pagamento. No futuro teremos as formas de pagamento ainda mais invisíveis. Um exemplo também é como é feito hoje combo Uber. Você não paga de forma física, nem mesmo com o celular. Já faz isso sozinho com o seu cartão sem você fazer nada”, disse o diretor de Inovação e Novos Negócios da Matera, Alexandre de Souza Pinto.
Segundo ele, as transferências pelo WhatsApp também serão parte desse futuro do mercado. Com o tempo e a adesão, ele acredita que as taxas cobradas inicialmente devem cair e os limites de valores nas transações sejam aumentados.
PAGAMENTOS INSTANTÂNEOS
A maior promessa no setor de meios de pagamento para 2020 ainda é o PIX, nova modalidade criada pelo Banco Central do Brasil e que vai começar a funcionar em novembro nos aplicativos de bancos tradicionais e em carteiras e serviços financeiros digitais. Em fase final de testes, o sistema vai reduzir o tempo das operações financeiras.
Hoje, as únicas opções de transferir dinheiro entre contas de diferentes instituições é por DOC ou TED. Porém isso só ocorre em dias úteis e em horário limitado. As taxas também são elevadas. Já com o PIX será possível fazer isso 24 horas, sete dias por semana, e com recebimento instantâneo. A taxa também será mínima, o equivalente a 1 centavo a cada 10 transações.
"Isso vai ser uma revolução que vai ser mais democrática que pagar com QR code ou por aproximação. O custo será quase zero. E também vai permitir as fintechs crescerem mais", analisou o diretor da Matera, empresa de tecnologia para o mercado financeiro.
Para 2021, ainda dentro do cronograma de implantação gradual do PIX, está previsto o pagamento pelo celular de forma off-line, ou seja, sem ele estar conectado à internet. A inovação vai permitir mais acesso das pessoas ao sistema e, na avaliação de Alexandre Pinto, contribuir para uma forte mudança de cultura:
"O Brasil é um país enorme e há muitos locais ainda sem conexão ou onde ela é muito ruim. Outro problema é a franquia de dados limitada já que muitos usam celulares pré-pago ainda. Então não seria uma novidade acessível para todos. Só vai virar uma cultura deixar a carteira em casa quando as pessoas tiverem certeza absoluta que vão conseguir pagar pelo celular ou outros meios"
CRÉDITO MAIS BARATO
Outra expectativa que deve ser lançada em novembro é o "Open Banking". Neste caso, não se trata de um meio de pagamento e sim de um sistema para que o consumidor autorize o compartilhamento das suas informações bancárias com outras instituições financeiras, como seu limite, histórico e perfil de uso.
Parece nada de mais, mas isso deve ajudar a reduzir o custo do crédito no mercado. Para Alexandre Pinto, da Matera, isso vai reduzir taxas e tempo de análise, ao passo que deve aumentar a segurança.
"Esses dados hoje quem tem é só o banco que a gente se relaciona. O Cadastro Positivo tem alguma coisa, mas não tudo. Os outros bancos e fintechs então não possuem muitas informações ao nosso respeito. Isso diminui a competição porque apenas o seu banco vai conseguir te dar taxas melhores porque ele te conhece. Ao criar essa competição, haverá uma redução do custo do crédito e isso vai ajudar com que mais pessoas optem pelas fintechs", comentou.
Diante dessas perspectivas, a diretora executiva da Associação Brasileira de Fintechs, Ingrid Barth Linker, fala em um "tsunami de inovação" no setor para os próximos meses.
"Mesmo com a pandemia esses projetos estão a todo vapor, para sair em breve. Se agora a demanda por essas soluções está aumentado, depois veremos um verdadeiro tsunami de inovação com tudo isso. E vai ser bom pra todo mundo sobretudo porque vai gerar mais concorrência e assim custos mais baixos e mais acesso das pessoas ao sistema financeiro", opinou.