Em meio à fase mais aguda da crise econômica do coronavírus, o Espírito Santo registrou um número recorde de novas empresas abertas no mês de março. Apesar do fato de que em quase metade do mês vigorou uma rígida quarentena no Estado restringindo a maioria das atividades econômicas, foram criados 1.626 mil novos CNPJs no período.
Isso significa que, em plena crise sanitária, foram constituídas pelo menos 52 empresas a cada dia. Os dados são da Junta Comercial do Espírito Santo.
Além de um recorde para o mês de março, o número total é o segundo maior da série histórica, que começou em 2010. O único mês que ainda fica à frente é julho de 2019, quando foram inaugurados 1.638 novos negócios em todo o Estado, apenas 12 a mais que no mês passado.
Em março deste ano, 873 empresas fecharam. Com isso, o saldo total (aberturas menos fechamentos) ficou em 753, que também é maior desde o início da pandemia da Covid-19.
A principal explicação para esse cenário vem do perfil das empresas abertas. Segundo o presidente da Junta Comercial, Carlos Roberto Rafael, enquanto antes da crise os novos CNPJs eram majoritariamente dos setores de restaurantes e lanchonetes e de vestuário e acessórios, agora eles abrangem mais outras áreas, como a da saúde e a de construção civil.
"O que vimos no período de pandemia e que nos dá um retrato da crise, é que os serviços continuam em primeiro lugar porém com negócios de escritório e apoio administrativo. São empresas com ênfase de engenharia, que acompanham o crescimento da indústria da construção civil, e de atividade médico-ambulatorial"
Ele cita ainda o setor de transporte de cargas, que foi impulsionado pelo crescimento das vendas pela internet e o consequente impulso no setor de logística.
Há assim uma mudança no perfil de empresas abertas. Em crises anteriores, em função do desemprego alto, havia uma corrida para abertura de empreendimentos como lojas de roupa e de alimentação, o chamado empreendedorismo por necessidade. Agora, porém, as aberturas se concentram nos setores mais aquecidos pela pandemia.
PEJOTIZAÇÃO
A alta demanda por profissionais de saúde com a terceira onda da Covid-19 também se reflete nos números. Isso porque, em boa parte das empresas do segmento, a opção tem sido contratar profissionais como pessoas jurídicas (PJs) e não via CLT (carteira assinada).
“Temos que olhar as novas relações de trabalho que o país está tendo. Antes, havia prioritariamente o processo de contratação por CLT. Hoje, há muitas atividades sendo regidas pela pejotização, que é a prestação de serviço por empresas, pessoas com CNPJ”, avalia.
O presidente da Junta Comercial acredita ainda que os números mostram certo otimismo dos empreendedores, mesmo em um momento de economia fragilizada.
“Nós estamos vivendo um momento de profunda crise no país e no Espírito Santo. As notícias que vemos são todas muito negativas, dando a impressão de um cenário de terra arrasada. Mas não está desse jeito pelo que a gente vê nos números”, afirma.
Quanto ao elevado saldo de empresas abertas, Carlos Roberto Rafael descarta a possibilidade de ser reflexo de algum movimento de empresas fecharem sem dar a devida baixa na Junta Comercial.
"Não tem subnotificação (de fechamento de empresas). Desde 2019 o governo federal liberou a cobrança de taxas para dar baixa em empresas que estavam paralisadas. Provavelmente vimos aumento de fechamento por essa facilidade de não precisar pagar a taxa e também para que as pessoas pudessem ter acesso aos benefícios sociais”, aponta.
Para Carlos, o controle da pandemia feito pelo Estado até o momento, somado a boas práticas de governança e um equilíbrio fiscal razoável contribuiu para o otimismo dos empreendedores. Segundo ele, é essa “crença nos negócios” que sustenta os dados de crescimento registrados pela Junta.
"Não temos motivo para pensar o contrário. Temos, claro, motivos para nos preocupar, mas precisamos nos cuidar, fazer com que nossas vidas sejam preservadas para que os negócios sigam a mesma tendência”, diz.