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Queda na produção

Por que a indústria do ES vive o pior momento em dez anos?

Produção industrial caiu mais de 45% nos últimos 10 anos no Espírito Santo; redução da produção de petróleo e rompimentos de barragens de Mariana e Brumadinho estão entre justificativas

Publicado em 09 de Março de 2023 às 07:21

Leticia Orlandi

Publicado em 

09 mar 2023 às 07:21
Nos últimos 10 anos, a indústria do Espírito Santo registrou recuo que superou 45% na produção. A queda não foi isolada no Estado, uma vez que o Brasil em geral também reduziu a produção, só que com menor intensidade, com 15% de retração. 
Mas o que mais explica o baixo desempenho de setor na última década? Uma das principais justificativas para o resultado é a queda na produção de petróleo e pelotas de minério, que têm peso significativo na economia local.
Avaliação da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o Índice Base Fixa Mensal, que aponta a produção da indústria geral, caiu de 96,74 em dezembro de 2012 para 52,29 para dezembro de 2022 no Espírito Santo.
Só em dezembro do ano passado, enquanto o Brasil ficou com 0% de variação (nem cresceu, nem caiu), o Estado caiu 6,8% em relação ao mês de novembro e 21,9% comparando com dezembro de 2021. O saldo do ano foi de retração de 8,4% da produção em 2022.
Segundo o IBGE, o resultado do fim de 2022 ocorreu, principalmente, pelo comportamento negativo observado nos setores de indústrias extrativas (óleos brutos de petróleo, minérios de ferro pelotizados ou sinterizados e gás natural), metalurgia (bobinas a quente de aços ao carbono não revestidos), produtos de minerais não metálicos (granito talhado ou serrado – inclusive chapas para pias e cimentos) e produtos alimentícios (bombons e chocolates em barras).
Dados apontam que a retração foi puxada pelos cortes sequenciais da produção da indústria extrativa, mas também houve períodos negativos nas áreas de metalurgia, celulose e papel e mármore e granito.
Complexo da Vale: produção de pelotas de ferro
Complexo da Vale: produção de pelotas de ferro Crédito: Vale/Divulgação
Nesses últimos 10 anos, esse setor em específico — que representava 54,6% da produção da indústria em 2010 — sofreu impacto de fatores como o rompimento das barragens de Mariana, da Samarco, em 2015, e Brumadinho, da Vale, em 2019. Apesar de estarem localizadas em Minas Gerais, o minério era pelotizado nas usinas da Vale e Samarco no Espírito Santo. 
E houve ainda a desaceleração do investimento em campos maduros da Petrobras, com redução na produção de barris de petróleo e também do gás natural no período. 
FPSO Cidade de Anchieta no Litoral Sul do Espírito Santo, em Jubarte
FPSO Cidade de Anchieta produz para a Petrobras no Litoral Sul do Espírito Santo, no campo de Jubarte Crédito: Stéferson Faria / Agência Petrobras/Divulgação
Para Durval Vieira de Freitas, CEO da DVF Consultoria, que trabalha há 35 anos com desenvolvimento industrial, a queda ocorre basicamente decorrente do petróleo.
“Chegamos a produzir 400 mil barris por dia e hoje são menos de 200 mil porque nossos poços ficaram velhos e não foi feito  investimento (para recuperar a produção ou descobrir novas jazidas). O petróleo chegou a 25% do nosso PIB e é o grande impacto de tivemos. Somou-se a isso a questão de Mariana e Brumadinho e tivemos com isso uma paralisação da Samarco e a Vale vem redução a produção por falta de minério”, detalha.
O especialista lembra que, por outro lado, a diversificação econômica e a atração de indústrias diversas, principalmente de café, laticínios e metalmecânica, houve uma maior geração de emprego no setor e consequente melhora no IDH capixaba, uma vez que a indústria paga melhores salários.

Findes

A presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Cris Samorini, justificou também a queda da produção da indústria extrativa, atualmente de extrema importância para o Espírito Santo. Mas ao mesmo tempo, o Estado fez um trabalho para diversificar o modelo, investindo na busca por plantas da indústria de transformação. Atualmente, ela representa 49,9% da produção, mas esse peso era de 45,4% em 2010. 
A previsão é de mudança no quadro, com perspectiva de crescimento da indústria extrativa nos próximos anos. Mas a reversão para um saldo positivo ainda não deve ocorrer nos próximos 2 ou 3 anos. A produção de petróleo e gás, que está em 173 mil barris deve passar para 313 mil em 2026. Ela citou também crescimento na Vale, que vai crescer de 4 mil para 7 mil empregados.
"Até 2028, a previsão é de investimento de R$ 32 bilhões em 330 projetos no Espírito Santo. Grande parte dele vem das empresas de café solúvel, sendo que o Espírito Santo será o maior exportador, e também na Garoto, na Britânica, na Oxford, RDG, Arcelor e Imetame", detalha.
Cris defende que o Espírito Santo não deixou de ser atrativo para as indústrias, lembrando que em 2017 o setor representava 13% do ICMS, percentual que passou para 17% em 2021. 
Já Marília Silva, economista-chefe da Findes e gerente-executiva do Observatório da Indústria da Findes, destaca que atualmente o Espírito Santo está em quarto lugar na participação da indústria em relação a economia do estado, a frente de estados como Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e Goiás. Atualmente a indústria representa mais de 1/4 na economia do estado (27,5%).
A economista destacou ainda que em breve o IBGE vai rever a metodologia do PIM, que mede a produção industrial, para contar com novos indicadores. Como o setor extrativo acaba pesando muito no índice, se ele cai, o número cai demais também, "Precisamos de uma olhar mais para o PIB e o mercado de trabalho", avalia.

Cenário futuro

Para a próxima década, a perspectiva é novamente de crescimento. Um dos fatores que pode ajudar nesse processo é a nova plataforma de petróleo na região do Parque das Baleias, quando entrar em funcionamento, o que está previsto para 2024 e 2025. O projeto prevê a unificação do Novo Campo de Jubarte, formado pelas áreas Jubarte, Baleia Azul, Baleia franca, partes de Cachalote e Pirambu.
De acordo com o Anuário da Indústria de Petróleo e Gás Natural no ES de 2021, lançado no ano passado, com a implementação do projeto, projeta-se um aumento de 52,2% na produção de petróleo e de 65,6% na produção de gás natural, em 2025.

Discutir modelo para o futuro

Para o vice-governador do Espírito Santo e secretário de Desenvolvimento, Ricardo Ferraço, a última década foi de fato desafiadora para a indústria do Espírito Santo. Ele avalia não só o governo como também a sociedade precisa refletir sobre os caminhos da indústria no Estado, pois hoje há um arranjo industrial muito focado nas cinco maiores empresas.
“Temos cinco empresas, que são Vale, Arcelor, Samarco, Suzano e Petrobras, que geram como resultado de dois terços do PIB capixaba. Essas empresas são muito subordinadas a uma conjuntura que vai muito além da nossa capacidade de intervenção, com arranjos econômicos que dependem de variáveis globais e avaliação de câmbio, porque em geral são commodities”, explica.
Assim, segundo explicou o vice-governador, isso se traduz numa equação em que quando o ambiente global vai bem, o Espírito Santo vai bem, mas quando há problemas internacionais, o Estado não vai bem.
“A percepção que precisamos fazer enquanto sociedade para muito além do governo é a elaboração de uma agenda que construa um processo para reduzir essa dependências dessas importantes empresas, que quando passam por problemas complexos como Mariana, Brumadinho e ainda a pandemia, acaba se traduzindo nesse resultado”, lembra.
Depois desse período de redução, a perspectiva para os próximos 10 anos é de novamente resultado positivo, principalmente com o anúncio da Petrobras de aumento na produção dos barris de petróleo até 2026. Segundo Ferraço, de 2022 a 2026 a produção deve subir 80%, saindo de 150 mil barris para 275 mil barris. A produção de gás também dobrará, passando de 2,9 milhões de metros cúbicos por dia para 6 milhões de m3 por dia em 2026.
"Estamos num momento caminhando para uma recuperação muito densa e forte. E agora a sociedade capixaba precisa refletir sobre isso para que possamos no futuro ter fontes alternativa para blindar a economia industrial dessas variações"
Ricardo Ferraço - Vice-governador e secretário de Estado de Desenvolvimento

Defesa por investimento em outro setor 

Na visão da doutora em Economia e professora da Fucape Arilda Teixeira, o baixo ritmo de crescimento do Espírito Santo é decorrente de situação estrutural do setor no país.
Segundo ela, desde sempre a indústria no Brasil não tem diversificação e competitividade, além de estar presa às concessões que o poder público sempre fez para o setor no Brasil com incentivos fiscais.
Ela defende que o Estado explore o potencial de outros setores como o de serviços, principalmente na área de turismo, que considera uma vocação natural do Espírito Santo pela sua localização e clima.
"Na minha leitura, o nosso entrave, além de não saber competir, é que o capixaba não explora o potencial de negócios que o Espírito Santo tem, como no setor do turismo. Estamos numa região turística, então poderia ser mais explorado o setor de serviços que com lucro pode gerar crescimento e desenvolvimento"
Arilda Teixeira - Doutora em Economia e professora da Fucape

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