O Espírito Santo deu dois grandes passos nesta quarta-feira (30) para destravar gargalos de infraestrutura logística que podem ajudar a impulsionar a economia capixaba nas próximas décadas. Após anos de debates, a Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa) foi vendida por R$ 106 milhões e os portos de Vitória e Barra do Riacho (Aracruz) foram concedidos à iniciativa privada por 35 anos.
Paralelamente, a Vale confirmou que prevê iniciar até 2024 a construção do ramal ferroviário que vai ligar a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) até Anchieta, no Litoral Sul capixaba. Essa será a primeira etapa de um projeto sonhado há anos pelo setor produtivo capixaba para ligar o Espírito Santo ao Rio de Janeiro por trilhos, a chamada EF-118. A mineradora também assinou o compromisso de elaborar o plano básico de engenharia para construção do segundo trecho, entre Anchieta e Presidente Kennedy.
Para o setor produtivo e especialistas, os investimentos portuários e ferroviários assegurados nesta quarta-feira são complementares e devem ampliar consideravelmente a capacidade de escoamento de cargas do Estado nos próximos anos, aumentando também a competitividade do Espírito Santo no mercado nacional e global, atraindo novas empresas e criando mais empregos por aqui.
A presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Cris Samorini, pondera, por exemplo, que a privatização da Codesa pode criar caminhos para que o Estado amplie as atividades de cabotagem e implemente o programa de incentivo à navegação do governo federal, batizado de BR do Mar.
Ao mesmo tempo, segundo ela, a ferrovia pode auxiliar no escoamento de maior volume de carga até o porto. “Estamos entre os dez estados que mais exportam no país, mas já estivemos em posição melhor do que isso, e podemos voltar a crescer.”
Privatização da Codesa e nova ferrovia vão atrair empresas e criar empregos no ES
Ela pondera que o modelo de privatização escolhido, e que servirá de teste para outras desestatizações no setor portuário, ainda é um piloto e deve ser aprimorado. Ainda assim, é um passo importante para destravar a logística capixaba.
“O maior registro que a gente tem que deixar com isso hoje é que estamos rompendo barreiras históricas no Espírito Santo. É um sopro de ânimo, após um debate tão antigo. Já está mais que provado que a infraestrutura ligada à gestão pública não é o modelo que traz mais eficiência”, avaliou.
"Estamos dando um passo muito grande para o Espírito Santo, que faz com que possamos cumprir com a expectativa de que o Estado seja um hub de logística para o Brasil e o mundo"
O economista Claudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria, reforça que a privatização da Codesa é pioneira no país e, na sua perspectiva, muito importante para o Brasil e ainda mais para o Espírito Santo.
Um dos motivos principais é que boa parte das companhias docas tem dificuldade de financiar os investimentos necessários para modernização dos portos, que ficam desatualizados e acabam perdendo cargas para outros portos.
Agora, cria-se espaço para mobilização de recursos que poderão alavancar a produtividade do complexo portuário.
“E há outra medida tão importante quanto. Um gestor público tem as mãos amarradas, por mais competente que seja, porque está sujeito ao direito público. Mas o gestor privado pode fazer tudo, exceto o que a lei proíbe. E isso faz uma diferença enorme. Vai haver mais flexibilidade e mais recursos para desenvolver os portos”, diz Frischtak.
“Torço para que tudo dê certo. O Porto de Vitória tem um potencial grande, porém está estagnado nos últimos anos. Mas não acredito que nenhuma dessas mudanças será da noite para o dia. Haverá ainda um período de transição entre poder público e iniciativa privada e o investidor ainda vai se aclimatar, os investimentos vêm nos próximos anos.”
"Os projetos de infraestrutura ferroviária vêm para complementar. O Porto de Vitória tem algumas limitações naturais, mesmo modernizando, ampliando. O Porto do Açu, que não está tão distante, não tem essas limitações. Seria uma espécie de um cluster (trabalho conjunto) entre Vitória-Açu. E acho que a privatização da Codesa, mais os investimentos da Vale, podem exatamente fazer essa integração logística"
Em fevereiro, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, havia avaliado que “esses primeiros quilômetros de ferrovia, que vão ligar o porto e seus terminais ao complexo industrial, vão fazer diferença.”
Nesta quarta (30), após o leilão da Companhia Docas capixaba, o ministro voltou a falar das perspectivas para a logística capixaba e até brasileira graças aos investimentos previstos.
“A bem-sucedida desestatização da Codesa nos mostra que o futuro da infraestrutura de transportes está cada vez mais próxima da gente. Com os investimentos previstos, será possível dotar os portos de Vitória e de Barra do Riacho das melhores práticas e tecnologias existente no mundo hoje. Na prática, é desenvolvimento, empregos e aprimoramento de toda a cadeia logística brasileira”, afirmou.
De imediato, o arrendatário da Codesa deverá aportar R$ 55 milhões na recuperação estrutural de todo o complexo portuário, R$ 34 milhões na recuperação dos berços dos terminais Peiú e de São Torquato e mais de R$ 270 milhões na modernização do canal de acesso. Contudo, ainda haverá um período de transição até a efetiva transferência das operações da Codesa à iniciativa privada.