A pandemia do novo coronavírus provocou uma crise rápida e sem precedentes na economia. Entre janeiro e setembro do ano passado, 124 mil trabalhadores perderam o emprego no Espírito Santo, de acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada pelo IBGE. Outros 180 mil profissionais tiveram a jornada e remuneração reduzidas ou suspensas, segundo o Ministério da Economia.
O baque foi grande, mas algumas áreas foram menos afetadas que outras. A maioria das vagas criadas em 2020 surgiu em segmentos que se destacaram durante a pandemia, como o supermercadista, a construção civil, a indústria, o setor telecomunicações e, evidentemente, a área da saúde.
Contudo, em meio ao cenário econômico instável, os cargos campeões de contratações no Estado têm um perfil bastante característico: em geral, exigem baixa escolaridade e os salários médios ficam pouco acima do mínimo, atualmente fixado em R$ 1.100.
Diferente do que se possa imaginar, não é na linha de frente do combate à Covid-19 que está o maior número de admissões. A profissão com mais contratações no Estado em 2020, até outubro, foi a de alimentador de linha de produção, com um saldo positivo de 2.839 vagas, segundo o Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). O salário médio para a ocupação é de R$ 1.185,68.
Na sequência estão os serventes de obra, com 2.073 oportunidades e salário inicial de R$ 1.162,58. Quem fecha a lista dos três primeiros colocados são os técnicos de enfermagem, para os quais surgiram 1.384 novas chances, com ganhos iniciais de R$ 1.405,18.
Também foram abertas, por exemplo, 714 chances para embalador a mão, com salário de R$ 1.184,69. Vale observar que, supermercados e hipermercados estão entre os estabelecimentos cujas vendas mais cresceram no ano, com o impulso do auxílio emergencial, pago pelo governo federal a desempregados, informais, entre outros grupos de baixa renda.
Na lista das 30 profissões que mais contrataram entre janeiro e outubro, a remuneração mais alta é para o cargo de enfermeiro, cujo salário médio de admissão é de R$ 2.660,03. É o oitavo maior saldo de contratações, com 517 chances.
Isso não significa que as empresas não tenham selecionado profissionais para posições que exigem maior nível de especialização, e, é claro, pagam mais. Mas, geralmente, o número de vagas abertas é muito pequeno. Isso quando o saldo de empregos (que é o número de contratações menos os desligamentos no mesmo período) não é negativo.
É o que ocorreu com a ocupação de diretor de suprimentos, por exemplo, cujo salário médio de admissão é de R$ 25.617. Até outubro, somente dois profissionais do tipo foram contratados no Espírito Santo. Por outro lado, três foram desligados.
Diretores de operações de serviços de armazenamento e engenheiros de telecomunicações, cujos salários médios equivalem a R$ 15 mil, não foram demitidos. Em contrapartida, apenas uma vaga foi criada para cada uma dessas ocupações.
O mesmo ocorreu com pesquisadores de engenharia civil e especialistas em instrumentação metrológica, cujos salários médios de admissão alcançam R$ 11.825,35 e R$ 11.423,47, respectivamente.
Para outras posições, o número de contratações foi ligeiramente maior. Entretanto, acompanhado por uma série de desligamentos. É o caso da posição de engenheiro de minas, para a qual foram selecionados 34 profissionais neste ano, com salário médio de R$ 10.568,90. Contudo, 28 dessas vagas foram fechadas até outubro.
Também na engenharia, surgiram 44 oportunidades para engenheiro de produção, com salário de R$ 8.322,03, sendo que 40 dessas vagas foram extintas no mesmo período.
Dessa lista, a ocupação com maior saldo positivo é a de professor de economia, para o qual foram criadas 18 chances, mas somente seis foram extintas.
ADAPTAÇÕES
Os dados que compõem o Caged são informações enviadas mensalmente pelas empresas para o Ministério da Economia, conforme admitem ou desligam profissionais, e refletem os efeitos da crise no mercado formal. Mas, segundo especialistas em gestão de pessoas, algumas nuances devem ser observadas.
O diretor da Acroy Consultoria, Elias Gomes, observa, por exemplo, que o número de contratações para cargos que exigem pouco estudo sempre foram maiores que as demais, entretanto, a crise aprofundou esse abismo, até mesmo em função da natureza dos problemas enfrentados neste ano.
“Com a pandemia, diversas atividades foram reduzidas, se não temporariamente paralisadas. Logo, é natural que tenham sido feitas mais contratações em áreas que conseguiram manter seu funcionamento. Quando a economia está aquecida, temos projetos de outras naturezas andando, e há uma diversificação maior das admissões.”
A psicóloga e especialista em carreiras Gisélia Freitas, diretora da Efetive, observa que, se de um lado houve aumento de admissões em níveis operacionais, por outro, há um movimento que, por vezes, passa despercebido.
De acordo com a especialista, houve um crescimento significativo na procura por profissionais de tecnologia, até mesmo pela expansão do e-commerce, ao qual muitas empresas aderiram, fosse fazendo venda por meio de sites próprios, redes sociais ou marketplaces, que são plataformas compartilhadas para vendas pela internet.
Ela observa, entretanto, que esses dados não aparecem nos levantamentos oficiais porque muitas empresas têm optado por fazer acordos e contratam os profissionais enquanto pessoa jurídica (PJ), ou seja, como prestadores de serviço, e não como trabalhadores celetistas.
“Isso ocorre também com as lideranças. Muitos profissionais encarregados de supervisão, direção, gerência, estão sendo contratados como PJ, até mesmo para que as empresas consigam reduzir seus gastos com encargos trabalhistas.”
Gisélia ressalta, porém, que, para esse tipo de posição estratégica, as contratações não têm acompanhado a necessidade das empresas, e as lideranças acabam sobrecarregadas, algumas inclusive aceitando salários mais baixos que o habitual para não ficar fora do mercado.
A diretora da Efetive chama ainda a atenção para o fato de que muitos trabalhadores têm criado as próprias oportunidades, investindo na abertura de pequenos negócios seja pela dificuldade de encontrar emprego, ou simplesmente porque os empregos disponíveis no momento são aqueles que pagam salários mais baixos.
Na visão da psicóloga e especialista em gestão de pessoas, Martha Zouain, diretora da PsicoStore, o próximo ano deve trazer contratações diferentes. Ela observa que as empresas no Espírito Santo têm demonstrado preocupação com a produtividade, ainda mais em um momento de crise, e já estão de olho em novos talentos.
“Os empresários estão preocupados com a gestão, de modo geral. Estão investindo em profissionais com habilidade de análise mais desenvolvida, que tenham maior facilidade de lidar com novas tecnologias. Tem havido inclusive muitas substituições. Pessoas de tempo de empresa estão sendo trocadas porque quem se adapta mais rapidamente. O momento levou ao crescimento da procura por profissionais de nível operacional, mas a tendência para o próximo ano está muito mais ligada à qualificação.”